Conectividade nas escolas

O século 20 trouxe a comunicação em massa para a sociedade, passamos a receber informações através de aparelhos de rádio e, posteriormente, de televisão. 

Ainda no final dele surgiu a internet, que promete ser o principal meio de comunicação do novo século.

Hoje, conectamos diversos aparelhos eletrônicos a ela, desde celulares e computadores à geladeiras. Em grandes centros urbanos é praticamente impossível não ter algum vínculo com a web. Os jovens são os maiores usuários da rede, uso este que não é privilégio apenas das classes mais abastadas, segundo dados do projeto Solos Culturais. Em uma pesquisa feita com dois mil jovens entre 15 e 28 anos, moradores das comunidades da Cidade de Deus, Rocinha, Complexo do Alemão e de Manguinhos, todas na cidade do Rio de Janeiro, notou-se que 90% deles têm acesso à internet e às mídias digitais.

Com nenhuma outra mídia houve um crescimento tão grande, tão rápido e de absorção tão intensa pela população. É natural que estranhamentos ocorram quando muita gente de culturas, momentos, etnias e crenças diferentes se misturam em um ambiente, mesmo que seja por meio virtual.

As escolas, pais, professores e alunos estão vivendo um momento de adaptação com o uso da internet. A maior parte das instituições educacionais simplesmente ignoram que os meios de comunicação mudaram e que ajustes no modelo educacional, bem como nas regras de conduta para alunos e professores, precisam de revisão.

Um bom exemplo disso é a proibição que muitas escolas fazem do uso de redes sociais em laboratórios e equipamentos cedidos aos alunos. É tapar o sol com a peneira. Hoje em dia qualquer estudante tem a sua disposição algum tipo de celular inteligente que permite a ele usar e abusar do Facebook, Twitter e outras ferramentas.

Esse tipo de proibição apenas coloca o problema embaixo do tapete, o que faz com que não seja resolvido e acabe gerando situações complicadas para todos os envolvidos. As escolas tomam esse caminho porque estão completamente perdidas nesse ponto. Como não entendem a nova dinâmica da comunicação, faz como os censores de qualquer ditadura: proíbem o uso.

A postura distante faz com que alunos utilizem mal a rede, que pais não consigam acompanhar o que seus filhos fazem conectados e que professores não saibam o que fazer. Para exemplificar melhor, vou elencar situações onde fui chamado como consultor para ajudar na gestão de crise:


• Pornografia encontrada nos computadores da escola
Em um colégio particular, adolescentes encontraram históricos de navegação em sites pornográficos e também vídeos de conteúdo adulto nos equipamentos da escola. Solução: implementar uma política de uso, com necessidade de fornecimento de identificação do aluno.

• Professor se indispondo com aluno relapso em rede social
Após uma prova onde determinado aluno teve um desempenho muito abaixo da média, o professor utilizou a sua conta no Twitter para fazer uma brincadeira com o aluno. Como a publicação foi aberta, rendeu um processo por difamação. Solução: mediação com a família do aluno e retratação pública por parte do professor.

Aluno divulgou fotos íntimas de colega de classe por e-mail e em rede social
Em uma relação sexual entre dois alunos, o garoto fez algumas fotos da sua parceira e, para se exibir, divulgou as imagens para amigos. Os colegas publicaram as fotos na internet e os pais de ambos foram se queixar. A diretoria do colégio pensou em expulsar todos os adolescentes envolvidos, mas por receio de processos recuou. A aluna pediu transferência para outra instituição e os jovens foram repreendidos. Solução: acordo com os pais da aluna ofendida.

Aluna ofendeu e difamou professor em rede social
Apesar de o comentário depreciativo ter sido feito na rede social da qual a aluna faz parte, os colegas compartilharam e o professor foi surpreendido. A escola puniu a aluna com uma advertência e os pais entraram com uma ação contra a escola. Solução: acordo financeiro com os pais da aluna e desenvolvimento de um código de boas práticas para alunos.

Briga de alunos em ambiente escolar publicada no Youtube
Uma briga entre dois alunos foi filmada por diversos celulares e acabou indo parar no Youtube, o que pode ser caracterizado como Cyberbulliyng. O colégio advertiu os alunos envolvidos, mas os pais do aluno ofendido não se deram por satisfeitos e transferiram o filho do colégio. Solução: como a briga se deu nas dependências do colégio, houve a necessidade de acordo financeiro com os pais da parte ofendida.


Todos os casos citados ocorreram por falta de posicionamento prévio das instituições sobre o uso da internet por alunos e professores. Diante das crises geradas, a única saída é tentar remediar; contudo, o dano para as partes não pode ser desfeito.

A origem da maioria dos problemas é a falta de uma boa orientação para todos, não adianta apenas colocar os alunos como responsáveis e deixar de abordar os temas com professores e também com os pais.

A escola, por ser o local de maior convívio dos jovens e ter a formação social deles como prioridade, não pode se omitir no papel de conduzir esse processo.

Antes de qualquer coisa é preciso estar aberto ao debate, convocar discussões com os pais, envolver os alunos e capacitar os professores para lidar com situações de conflito. Muitas medidas preventivas podem ser adotadas. A melhor hora para reparar um telhado, é quando faz sol.

Por Marcelo Vitorino 

Marcelo Vitorino é consultor de comunicação digital, sócio da Presença Online e atua junto ao mercado corporativo, governo e terceiro setor. 

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