Casa de Pedra do Morumbi

São raras as vezes que nós, moradores de uma metrópole, somos surpreendidos por algo.

Gigante, uma cidade como a nossa, abriga personagens, ideias, humores e protestos expressos, de preferência, debaixo dos holofotes da mídia. Com as notícias em velocidade cibernética, sobra pouco espaço para descobertas inusitadas como esta – a casa de pedra do Estevão.
 

Isso existe? Em São Paulo? É mais ou menos assim que se sente quem, por acaso, mergulha na casa do Estevão. E, saindo de lá, é dessa forma, com uma intimidade quase abusada, que nos referimos a ela. Ou a ele, sei lá ... O crédito merece, porém, ir além. Estevão da Silva Conceição, baiano de Santo Estevão e morador de Paraisópolis desde a década de 1980, é jardineiro em um prédio de alto padrão na região e arruma tempo, sabe-se lá aonde, para produzir uma dessas manifestações urbanas que deixa qualquer paulistano de queixo caído. Melhor começar do começo.


Quando se mudou para cá, Estevão achou o ambiente muito sem vida, sem cor. “ Queria fazer alguma coisa para que isso aqui ficasse mais bonito, mais alegre” conta, tentando explicar o inexplicável. Pra deixar mais alegre poderia ter ligado um rádio, plantado umas margaridas ... Mas ele resolveu pregar ferros de passar roupas no “hall de entrada” da casa . Perto dali, um aparelho de telefone. Achou umas bolinhas de gude que combinavam, e lá foram elas pra parede, junto com algumas moedas, xícaras, estrelinhas de madeira, pires, medalhinhas de santo, pedaços de porcelana, garfos, facas, e o que mais poderia compor com essa tão harmoniosa combinação, que acabou tomando praticamente todas as paredes da moradia. Milhares de pecinhas, peçonas e elementos afins depois, o resultado é uma construção como nenhuma outra – nem em Paraisópolis, nem em lugar nenhum – parecida, apenas, com o Parque Güell, em Barcelona, uma das principais obras do genial arquiteto Antoni Gaudi (1852-1926). Como uma boa história leva a outra, Estevão foi descoberto pelo Centro de Estudos Gaudinistas, que organizava as festividades de comemoração dos 150 anos de nascimento de Gaudi, e lá foi ele no ano de 2001 para a Espanha participar dos eventos.


A fama, porém, persiste até hoje. A semelhança de estilo é incrível, mas mais incrível ainda é que o “nosso Gaudi” nunca tinha ouvido falar no catalão até pouco tempo atrás. Muito menos tinha qualquer tipo de contato com sua criação. O senso estético, o equilíbrio e o resultado são, porém, impressionantemente parecidos, tanto que levaram Estevão a ser convidado pelo Shopping Jardim Sul em 2005 para criar uma das vacas participantes da exposição Cow Parade. Assim nasceu “Cowdí”, uma das mais bonitas e comentadas vacas do badalado evento.


A casa enche os olhos dos visitantes e faz a alegria dos filhos do artista e da esposa, Edilene, que pacientemente mantém o espaço em ordem para receber as visitas, gente que chega atraída pela vontade de conhecer o lugar. A experiência é, de fato, única. Visitar todos os compartimentos da casa, que foi crescendo para cima em cômodos acessados por escadinhas íngremes, exige espírito aventureiro e olhar atento para não perder nenhum detalhe. As almas curiosas, porém, não esquecem nunca mais. Isto aqui existe mesmo? 

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