Cidadão do Morumbi

Paternidade contemporânea

Os homens, por questão histórica e cultural, mantiveram por muito tempo o papel de provedor da família e, por conta disso, tinham pouco tempo para brincar, criar e dar atenção aos filhos. Esse seria o papel oficial da mãe. 

Com as mudanças socioculturais, a mulher saiu do âmbito das obrigações da casa e da prole para trabalhar também, assim como o homem passou a compartilhar cada vez mais todas as responsabilidades com a família.
 

pai Eistein Oliver

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Em alguns casos, eles assumiram 100% o papel que antes era delas e hoje criam sozinhos os filhos, sem a presença da mãe. E, diferente do que muitos podem pensar, uma criança que cresce longe da figura materna não encontra, necessariamente, problemas no futuro. Segundo a psicopedagoga Cynthia Wood, a referência feminina pode ser de uma avó ou da madrinha. “Algumas meninas se abrem com seus pais e a figura da mãe acaba nem fazendo tanta falta. É aí que os pais acabam sendo ‘pães’ e conseguem resolver todas as questões muito bem com as filhas”. 

 
Dolce conversou com alguns desses “superpais” para saber quais os principais problemas que eles enfrentaram para criar os filhos e a lição que tiraram dessa função.
 
 
"Até meus filhos crescerem e se tornarem independentes, a minha prioridade foi cuidar deles. Só após vê-los trabalhando  e conquistando independência foi que decidi voltar a viver a minha própria vida. Meu maior desafio foi o financeiro e a conciliação com o tempo, porque eu tinha que trabalhar e cuidar deles. Mesmo assim, acho que naquela época foi mais fácil, porque não havia tanta criminalidade. No final, tudo vale a pena: ver meus filhos criados, com suas famílias é a minha maior felicidade”.
 
Antônio Faustino
84 anos, ficou viúvo com 43, com três filhos, de 16, 8 e 6 anos. 
 
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"Nunca tive medo porque não estive sozinho em momento algum: quem tem família e zela por ela nunca está só. A revolta por ter perdido a minha esposa daquela forma não foi meu lema. Quem me guiou foi a esperança. Minha família e a companheira que tenho até hoje foram imprescindíveis, para mim e para meus dois filhos. Hoje eu me orgulho e sei que sirvo de exemplo para eles. Todos que participaram de alguma forma dessa minha missão mereceram e merecem minha eterna gratidão."
 
Amadeu Guerra
Ficou viúvo após a família ter sido vítima de um assalto; criou um casal de filhos, na época com 11 e 8 anos.


 
 
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pai Eistein Oliverpai Eistein Oliver
           com Michelle, Stephanie e Kevin
 
“Os filhos são presentes de Deus e os pais devem dar o que importa a esses presentes: amor!”

O dentista Eistein Oliver, de 48 anos, cria os três filhos desde que se divorciou, há cerca de 4 anos. “Meus filhos sempre foram muito apegados a mim e eles decidiram ficar comigo. Na época, a Michelle estava com 8 anos, Stephanie com 13 e Kevin com 18 anos”, conta. O superpai relata não ter sentido medo quando se viu sozinho com os filhos, mas precisou aprender as funções e se organizar para não deixar faltar nada a nenhum dos três. “Eu levava na escola, cuidava da alimentação, vestia, cuidava da saúde, não esquecia do lazer e isso tudo sem deixar de lado o meu trabalho, pois eu tinha de manter as finanças da casa em ordem”, relembra, e garante ter conseguido tudo isso administrando o próprio tempo. “Com muito amor e carinho o tempo vai passando e a gente supera as dificuldades”, completa Eistein.
Para Eistein, cuidar de Kevin é mais fácil do que está sendo criar Michelle e Stephanie. Quando as meninas precisam comprar algo do universo feminino, o paizão recorre às vendedoras das lojas. “Tem coisa que só mulheres entendem e aí peço ajuda! Eu não me sinto um superpai por ter ficado com a responsabilidade de cuidar deles. Claro que dividir a responsabilidade seria o ideal. Mas faço tudo com muita alegria e eles sabem disso. Eles sabem que não sou perfeito, mas têm certeza do meu amor!”
Eistein Oliver faz parte de um grupo que vem aumentando a cada dia. Responsáveis por cada passo do filho, alguns pais até contam com a presença das mães, mas os homens se tornam cada vez mais presentes na criação dos filhos – e não só com o dinheiro dos estudos, dos cursos, mas agora com muito carinho, diálogos, amizade e conselhos.

 


 
pai Ademilson Bueno

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pai Ademilson Bueno
            com Isabella 
 
“ Dos problemas que enfrentei e enfrento, acho que o maior foi ter de aprender a dizer não à minha filha. Tinha muito medo de perdê-la”.
 
Para o diretor comercial Ademilson Bueno Pires, de 55 anos, a guarda da filha não foi uma decisão, mas uma surpresa. “Quando ela estava com quatro anos, me separei, e foi a mãe quem decidiu deixar a Isabella comigo. Primeiro veio a insegurança, pois não me julgava capaz e todos os dias novos medos surgiam”, relembra. Hoje com 14 anos, Isabella é uma menina meiga, carinhosa e atenciosa. Mas o pai acha que poderia ter feito melhor. Ademilson nem se casou de novo por ter decidido se dedicar integralmente à filha. “Me preocupo demais em tentar saber se eu estou mesmo conseguindo suprir a falta da mãe. Chego também a me questionar se não teria sido melhor para Isabella se eu tivesse refeito minha vida e ter tido uma nova companheira para que ela pudesse ter convivido com uma figura feminina”, confessa.
Ademilson precisou enfrentar uma barra ainda maior com a filha por ela ter sido discriminada pelas mães dos amiguinhos da escola, que proibiam o contato entre eles logo após a separação. Segundo ele, foi necessário mudar a menina de escola para uma onde ninguém conhecesse a história dela. “Mas com o passar do tempo fui tomando consciência de que tudo que fiz por ela eu fui aprendendo com ela mesma. Tive muito a ajuda da minha filha, que se mostrou forte. Hoje, nos tornamos parceiros em tudo”, orgulha-se o diretor comercial.
Quando questionamos Ademilson sobre como lidar com os “assuntos de menina” sem a presença da mãe, o superpai respondeu sem pensar: “Não sei dizer se a mãe dela saberia desenrolar com mais facilidade, pois nem mesmo eu sei se os desenrolei de forma correta. Só o tempo vai dizer se minha ajuda na composição da personalidade de minha filha foi correta até agora. Eu diria que sim, pois tenho uma filha maravilhosa, meiga, compreensiva, amorosa e feliz!” E quando olha para trás, Ademilson acredita que foram tantas dificuldades superadas até aqui ao lado da filha, que sabe que tudo que ainda estiver por vir, os dois enfrentarão juntos. “Tenho muito orgulho quando ela me diz que sou o melhor pai e mãe do mundo e quando ela me chama de ‘papai’ e não de ‘pai’. Acho que não tenho do que me arrepender”, finaliza emocionado.

 

 
 
pai Fábio Paranhos

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pai Fábio Paranhos
           com Sofia
 
“Ter filhos é uma viagem sem mapa, sem guia e você deve aproveitar as experiências de outros viajantes!”
 
A história de Fábio Paranhos, de 50 anos, é diferente dos outros pais que conhecemos aqui. Ele não foi escolhido para ficar com as crianças, nem foi pego de surpresa pelo fato da mãe ter ido embora. Fábio decidiu que era hora de ser pai e resolveu adotar a Sofia, na época com três anos de idade. “A adoção sempre esteve em meus planos. Acho que é também uma forma de planejamento familiar válida, que casais ou pessoas solteiras podem lançar mão para construir suas famílias”, conta Fábio, pai de Sofia, hoje com 18 anos. O consultor em treinamento e desenvolvimento garante não ter sentido medo quando tomou sua decisão. “Acho que pai e mãe têm sempre sua parcela de medo quando decidem ter filhos, mas não foi medo o que senti, e sim o peso da responsabilidade por ter alguém tão dependente de mim”, relembra. 
Para Fábio, os papéis paternos e maternos no desenvolvimento de uma pessoa não são exercidos exclusivamente pelo pai e pela mãe. Em determinados momentos, parentes, professores e até mesmo amigos podem preencher essas funções tranquilamente e Sofia pôde crescer sem a imagem de uma mãe, que não fez falta para a menina – que hoje já se tornou uma mulher. “Não estou dizendo que o pai ou a mãe não são relevantes. São sim, assim como os avós, os tios, os outros membros da família. Mas, na minha opinião, uma criança que cresce sem a figura dos avós não se desenvolve pior ou melhor que outra”. 
E quando os “assuntos de menina” surgem, Fábio não passa aperto. “Sempre procurei ter um relacionamento bem franco e honesto com a minha filha, criando um laço de confiança não com a criança que ela era, mas com a mulher adulta que seria, e quando preciso peço ajuda para a vovó, para a titia, para a prima ou para o Google!” , diverte-se. 
As pessoas que estão passando por um momento complicado na criação dos filhos não devem ter medo de perguntar, de dividir suas dúvidas com outros pais e mães. “Para os que pensam em adotar, como eu fiz, procurem grupos de adoção e participem de reuniões. Ter filhos é uma viagem sem mapa, sem guia e você deve aproveitar as experiências de outros viajantes, mesmo que eles tenham viajado em outras épocas!”, conclui.
 

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