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O que eu queria dizer pro meu pai e nunca tive coragem

O “velho” era daqueles caras especiais. Uma pessoa de um amor infinito, mas muito contido em expressar suas emoções. Escondia por trás da casca rude uma enorme sensibilidade. Era carinhoso do jeito dele, e prover a família era a melhor forma de mostrar os seus sentimentos.  Com as filhas era mais afável. Não raro, pegava as meninas e dava um abraço apertado que fazia inveja aos filhos. Com os meninos, o carinho tinha prazo de validade. Bastava trocar as calças curtas para ganhar o status de “homenzinho” e perder os afagos que até hoje me fazem tanta falta.
A partir daquele momento, começava a preocupação do pai com a formação do filho. Descobri com ele os limites impostos pela vida. Ele era objetivo nos ensinamentos e apontava com firmeza os caminhos por onde eu deveria seguir. Ele me deu a luz nos primeiros passos. Foi meu guia no começo dessa estrada, e colhi os frutos.
Pai, eu nunca te agradeci, né? Ou acho que não fui tão contundente nos meus agradecimentos. Ou nunca os meus agradecimentos foram suficientes. Ou faltou coragem para dizer tudo aquilo que eu gostaria, me desmanchar em elogios ou simplesmente falar de amor pra você. O carinho meloso que eu tinha com minha mãe não conseguia ter contigo. Onde foi que essa barreira surgiu? Por que eu não te agarrei mais vezes e beijei sua testa? Por que não alisei mais vezes os teus cabelos brancos? Por que não te peguei no colo quando você queria colo? Pai, me desculpe por ter ido tão longe na estrada que você me indicou a ponto de me afastar tanto de você e, nessa distância, ter me ausentado quando era importante a minha presença. Talvez eu tivesse medo de estar por perto na hora em que você fosse embora. Como se de longe eu pudesse sentir menos dor.
A dor da perda não diminuiu com o tempo, mas a vida me deu uma nova oportunidade de te agradecer. Em cada conversa que tenho hoje com o meu filho você está presente. Faço minhas as suas palavras e replico os seus ensinamentos. Foi a maneira que eu encontrei de te dizer obrigado. Me esforço para não falhar na tarefa. Talvez não consiga ser tão firme. Como você conseguia?  Talvez eu não consiga ser tão objetivo. De onde vinha toda a sua sabedoria? Talvez, pai, eu nunca venha a ser tão grande como você.
Mas, ao refazer o seu caminho, eu tenho agora uma preocupação, entender como a barreira se forma e o que fazer para impedir que ela me afaste do meu filho. Não sei se estou sendo egoísta ou se apenas não quero que ele sinta a mesma dor que sinto hoje. Pelo menos, estou mais corajoso e quero que você saiba, onde quer que esteja, que o tamanho do meu amor por você é infinito. A sua benção, pai...          

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