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Os dois pais

Não se surpreenda com o que vou dizer: toda criança tem dois pais. E é preciso ter isso em mente para valorizar e comemorar em dobro o dia dedicado a eles. Deixem-me explicar.
O primeiro pai é aquele que trabalha de sol a sol e por isso mesmo perde preciosos momentos e acontecimentos da vida do filho. Deixa de comparecer a festinhas na escola, campeonatos, comemorações e, com frequência, chega bastante tarde em casa e até no aniversário do garoto – muitas vezes quando a festa já acabou e os convidados já se retiraram.
Por essas e outras, esse pai é constantemente censurado pela parceira e quase sempre também pelo filho, ainda que este só expresse sua frustração pelo olhar triste ou pelo silêncio ressentido. Silêncio, aliás, que esse mesmo pai também mostra quando, em casa, à noite ou nos fins de semana, está preocupado com assuntos financeiros ou do trabalho. É esse pai que, pelos mesmos motivos já citados, mostra-se, com frequência, mal-humorado, impaciente, reclamão ou sem disposição para brincar com a criança.
Felizmente há um segundo pai: aquele que, quando o filho já está dormindo, aproxima-se do berço ou da caminha dele e, em silêncio, pede perdão pela sua rabugice e sua impaciência durante o dia, pela sua falta de parceria e pela incompreensão de que seus problemas são de gente grande e que a criança não os entende nem tem culpa deles.
Esse segundo pai é aquele que, também com frequência, pega o filho no colo, dá banho nele, conta-lhe histórias para dormir, o acompanha nas batatas fritas, angustia-se quando surge uma febre ou um espirro, emociona-se quando recebe um beijo ou um abraço apertadinho, assiste a desenhos na TV com ele e o leva ao cinema para assistir à aventura do herói idolatrado pelo filho. Na verdade, pode até ser que esse pai-de-duas-faces não saiba, mas o verdadeiro herói idolatrado é ele mesmo. Apesar de tudo ou por causa de tudo.
A presença de ambos é inevitável. Quando atuantes com discernimento, justiça e equilíbrio, esses “dois pais” são necessários porque se um deles mostra o caminho da fantasia, do carinho e da emoção, o outro pode mostrar o quase sempre difícil caminho dos limites, da disciplina e da realidade – tudo sem excessos nem radicalismos.
Dito isso, aqui vai um recado aos pais: curtam seu dia como heróis que vocês são. Mais do que nunca, sejam amigos, companheiros e cúmplices daqueles (as) que passam todos os dias, ano após ano, à espera da sua volta do trabalho – para que, enfim, possam dormir em paz e ter belos sonhos.
Provavelmente com você.                                         

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