As bodas do albatroz

O albatroz é uma ave monogâmica. Depois de adulto, esse pássaro se relaciona com vários outros. Mas depois que se decide por um parceiro, fica com ele até o fim da sua vida – que pode durar pelo menos 50 anos. 

No mês de julho passado, minha mulher e eu nos sentimos um pouco albatrozes: exatamente no dia 25 daquele mês completamos Bodas de Ouro.

Chegamos aos 50 anos de vida em comum. Na verdade, se computado o tempo de namoro e noivado (naquele tempo ainda havia isso...), são 54 anos. Muitos amigos nos perguntam como isso foi ou é possível. Costumo responder que é um caminho de muitas retas, curvas, atalhos e encruzilhadas, mas que se as escolhas forem certas, chega-se lá com relativa facilidade. Como mal havíamos saído da adolescência quando decidimos nos casar, trilhamos nosso caminho errando e aprendendo juntos. Se isso, por um lado, gerou algumas inseguranças e conflitos, por outro lado nos deu a vantagem de criar uma profunda parceria com fortes raízes afetivas e uma maravilhosa história de vida. Acredito que isso é fundamental para que uma relação amorosa tenha uma longa duração. Hoje, temos a convicção de que as dificuldades superadas a dois criam anticorpos existenciais que fazem o casal resistir às tentações de desistir da jornada e ajudam a desenvolver os componentes mágicos e necessários da empatia, cumplicidade e concessões negociadas. Nem vimos o tempo passar. Penso que, se você não fica contando os anos, não percebe a passagem deles. Alguns amigos perguntam: “E o amor? Sobrevive tanto tempo, apesar das rotinas, mesmices e maus humores ocasionais?” Resiste, principalmente por causa deles. São justamente essas coisas, às vezes irritantes, que nos fizeram e fazem entender que nenhuma relação amorosa é um conto de fadas. Em alguns momentos até nos faz acreditar que sim, mas logo acordamos para uma realidade que precisa ser enfrentada, administrada e vencida. Depois, chegaram os filhos e a magia se completou. Foi uma nova, trabalhosa, mas maravilhosa fase em nossas vidas. Mas não a última: com a chegada dos netos, houve um recomeço de emoções – com a vantagem de agora termos menos responsabilidades e muito mais direito a bajulações, mimos e travessuras. Nosso amor sobreviveu a 50 anos, sim. E transformou-se em algo muito mais forte, envolvente e resistente. Criou quase uma interdependência entre nós. Apesar disso, cada um manteve e mantém sua individualidade. Por opção, quase sempre passeamos e viajamos juntos, mas cada um conserva sua liberdade de ir e vir sozinho, quando desejar. A questão é que sempre preferimos mesmo estar juntos. “Então, essa é a fórmula?” Não, não é. Cada casal deve construir seu próprio jeito de amar e de continuar junto. Nós tentamos e construímos nossa fórmula que, graças a Deus, vem dando certo. De resto, talvez seja necessário apenas que cada um dos parceiros tenha um pouco da alma do albatroz.a

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