O ciclo da vida

Eu olhei para o meu filho de 4 anos e o vi pensativo, com o olhar distante e sem prestar muita atenção no que eu falava.
- “Filho! Filho!”, insisti até que ele enfim respondesse:
- “Oi papai!”.
- “O que você está pensando?”
- “em nada, papai!”.
A simplicidade das respostas contrastava com aquele jeito enigmático de quem está refletindo sobre algo que desconhece. As crianças têm essa magia de se desligar do mundo sem o receio de estar perdendo algo importante. 
Nessa correria de hoje é difícil imaginar que alguém possa se desconectar completamente do mundo, por mais que isso seja necessário algumas vezes. Ficar sem pensar em nada, mesmo por alguns instantes? Talvez aos quatro anos a gente consiga. Você se lembra dos seus quatro anos? Experimente fazer um exercício de memória e tente recuperar as lembranças da sua infância, pode ser revelador. Fiz a conexão pela lente de um monóculo, numa das raras fotos que tenho dos meus primeiros anos de vida. A imagem é de um garoto de calça curta fazendo pose de “homenzinho”. Eu me reconheci naquela cena antiga. Era uma época de descobertas, eu tinha acabado de aprender a ler e devorava as palavras (comecei a ler aos quatro anos. Meu pai achava que tinha obrigação de ensinar os filhos a ler cedo. Do jeito dele, me ensinou a identificar as letras, a juntar as sílabas e a formar as palavras). Na inocência daqueles quatro anos eu estava aprendendo a viver e formando as bases da vida adulta. Os gibis e os pequenos livros de aventuras ampliavam o vocabulário, a visão de mundo e trazia junto as primeiras inseguranças. A passagem do tempo me assustava, não queria falar de futuro, mas adorava um passado que eu ainda nem tinha escrito. Tinha medo da velhice, de doença e de que meus pais morressem.
Quando meu filho me pergunta hoje porque os avós estão no céu, porque a gente fica doente ou porque eu vou ficar velhinho, desconverso porque não consigo responder. Nessas horas percebo o quanto aquele menininho ainda vive em mim e como ele ainda se sente inseguro diante da nossa irremediável condição humana. Trago comigo muito mais dele do que eu podia imaginar. O menino está presente em pequenos gestos, nas pequenas reações diante dos obstáculos diários e, principalmente, na minha inesgotável capacidade de sonhar. O menino de quatro anos se alimentava de sonhos, era curioso e humilde na sua vontade de aprender. E esse aprendizado é o que me ajuda hoje a entender e orientar o meu filho. Tenho a presunção de saber o que ele pensa, tento antecipar os seus questionamentos, oferecer a ele as melhores respostas e a partir desse conhecimento prévio tento ajudá-lo no seu crescimento. Meu filho está diante de mim e nele me vejo. Ele é um pedaço de mim. Ele sou eu aos quatro anos de idade.
- "Papai, papai, você está me ouvindo?"
- "sim filho"
- "No que você está pensando, você parecia tão distante, papai?"
- "Um dia você vai saber onde eu estava, filho".

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