Basta de violência!

Num dos verões mais quentes da história de São Paulo eu não saí de casa. Fui mais um refugiado procurando abrigo por trás das grades do meu condomínio. 
Fiquei trancado, me escondendo da violência que insistia em bater na minha porta. As histórias de assaltos contadas por amigos próximos trouxeram angústia e medo. Fui egoísta e agradeci a Deus por não ter sido comigo ou com a minha família. Mas podia ter sido comigo, com você ou com qualquer outro morador do nosso bairro, em qualquer lugar e a qualquer hora do dia, da noite ou da madrugada.  
Ouvi relatos de assaltos em casa, na rua, no estacionamento do shopping e do supermercado. Vi amigos sendo espancados, correndo de bandido na rua e humilhados dentro do carro. Sofri com cada um deles e sonhei com soluções mágicas para a segurança pública. Não sou afeito a ações como as dos justiceiros que espancam e amarram bandidos em postes, não podemos nos render à barbárie e temos que acreditar sempre nas intervenções efetivas. Se as Unidades de Polícia Pacificadora que tanto sucesso fazem no Rio de Janeiro dariam certo em São Paulo eu não sei, não sou especialista no assunto, mas para a realidade das favelas cariocas os resultados foram animadores e mostraram que existem caminhos inteligentes e criativos para tratar a questão.
Enquanto, as autoridades não encaram o problema da segurança pública como prioridade temos que mudar as nossas rotinas e tomar cuidados especiais para a nossa proteção e de nossas famílias. Quis comprar um carro blindado e mudar de bairro para fugir de tanta violência. O medo nos cega e nos torna reféns dos nossos fantasmas. Nos tira a capacidade de racionalizar e ofusca nossa visão de dignidade. Esquecemos do nosso papel na sociedade e das armas que temos para exigir os nossos direitos.
As manifestações dos moradores nas redes sociais mostram que todos sofremos juntos e que só unidos poderemos encontrar os caminhos da paz. Temos sim, direito a paz e devemos sim exigir proteção. Devemos isso aos nossos antepassados que lutaram pela implantação do estado de direito. Que não sucumbiram à tentação da justiça pelas próprias mãos nem defenderam a violência como remédio para combater a violência. Que sobreviveram à exceção para deixar como legado uma sociedade civilizada.
Não podemos perder de vista o nosso conceito de civilidade sob o risco de nos tornarmos tão selvagens quanto aqueles que nos atacam com suas armas nas noites escuras do Morumbi. Acredito que temos que, também, fazer a nossa parte e contribuir como cidadãos para reverter esse quadro e poder voltar a viver com mais segurança.

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