Certo e errado

O que é certo e o que é errado, Papai?  Nunca uma pergunta tão simples e direta feita pela Gabriela, minha filha de sete anos, foi tão difícil de responder.

 Tenho me preparado para qualquer questionamento dela que chegou naquela fase áurea dos descobrimentos. Pedi um tempo, fui na internet, consultei o dicionário, mas acho que só comecei a encontrar a minha resposta numa conversa informal com um amigo. 
“Precisamos fazer a coisa certa”, ele me disse assertivamente. A “coisa certa” a qual se referia era sobre um problema em que ele foi afetado diretamente e cobrava a solução que julgava ser a mais correta para o seu caso. Naquele momento o meu amigo mostrava uma visão muito particular sobre o que é certo e o que é errado e me ajudava a encontrar a resposta que eu tanto procurava para a minha filha. 
Por dever de ofício, sou obrigado sempre a lançar dúvidas sobre o verdadeiro sentido da “coisa certa”. Tenho a obrigação de ser certeiro, exato e não posso falhar nas minhas argumentações sob pena de perder o maior bem que um jornalista pode ter: a sua credibilidade.
A questão do certo e errado me levou a um questionamento sobre as atitudes “politicamente corretas”. Até que ponto ao adotá-las, sem ponderações, estamos sendo realmente honestos? Até que ponto adotar padrões de pensamento que, de antemão, já sabemos que serão aceitos pela sociedade é a melhor maneira de contribuir para uma sociedade mais crítica? Até que ponto adotar um conjunto de posturas já aceitas e definidas como padrão é o melhor caminho para construir uma estrutura social mais coerente e capaz de buscar as melhores alternativas para o seu próprio desenvolvimento?
Diferentemente das leis que surgiram para definir os limites das relações interpessoais e salvaguardar os direitos individuais em nome do bem coletivo, as ações politicamente corretas surgiram para supostamente proteger bens naturais e determinados grupos de indivíduos de agressões e preconceitos. É uma atitude legítima, mas que traz como consequência uma forma igual de pensar e agir em diferentes situações. O risco do pensamento único é cegar a sociedade e na história recente da humanidade já vivemos momentos terríveis causados por essa cegueira coletiva.       
Enxergo hoje uma crise de produção intelectual, no Brasil e em todo o mundo. Nossos grandes pensadores morreram ou estão envelhecendo. E a chegada de uma nova geração que se pauta pelos resultados me deixa desesperançado com o nosso futuro. Vou dar um exemplo na minha profissão. Quis ser jornalista desde muito cedo, primeiro porque queria ser uma “testemunha ocular da história”, como anunciava o repórter Esso, nos anos 60. Depois, porque me inspirava nos grandes e imortais jornalistas que fizeram a história da imprensa brasileira. A cobertura da Guerra de Canudos pelo intrépido repórter Euclides da Cunha deu origem a um dos maiores clássicos da nossa literatura, da inteligência de Nelson Rodrigues nasceram crônicas que chocaram a sociedade e ajudaram a transformá-la, Machado de Assis, Carlos Drumond de Andrade e Fernando Sabino, entre outros, contribuíram, com suas crônicas em grandes jornais, para produzir qualidade de texto e fazer um país inteiro pensar. 
Na faculdade me encantei com a sagacidade de grandes repórteres que marcaram história como Davi Nasser e suas revelações bombásticas, na revista O Cruzeiro, ou Valério Meinel e as investigações do Caso Claúdia. Já nas redações, tive a felicidade de trabalhar com alguns gênios indomáveis que usavam a caneta e o papel como armas em defesa da cidadania e da liberdade de expressão.
Os tempos mudaram, as lutas são outras e a juventude traz novas bandeiras. Graças a Deus. Mas a sociedade é a mesma, formada por diferentes indivíduos que não podem perder de vista o seu papel de agentes transformadores dessa própria sociedade. Se queremos preservar a pluralidade de ideias e evitar os efeitos danosos do pensamento único precisamos cuidar para que nossos filhos aprendam, desde já, a enxergar e entender o mundo em toda a sua complexidade. Por isso Gabriela, um dia você vai entender como foi tão difícil responder a sua pergunta.
 
Definição do vocábulo «certo»:
Que não tem erro, que é verdadeiro: um cálculo certo. / Infalível, que não pode enganar nem faltar; sabido. / Fixado com antecedência, determinado, aprazado: reunião com dia certo. / Certificado, que tem a certeza: estou certo do que digo. / Certeiro; que não erra: um golpe certo. / Exato: o relógio está certo. / Um, algum, qualquer (indeterminado): certo dia; certa pessoa; quando chegou a certa distância. / &151; S.m. Coisa em que se pode confiar: deixar o certo pelo duvidoso. / &151; Adv. Certamente, com certeza.
Reprodução do dicionário Aurélio on line.  
 

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