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Os ciclos da vida

Eu me acostumei a dividir a vida em espaços temporais. O início e o fim de cada fase são marcados por pequenas ou grandes viradas. E em cada uma delas fui uma pessoa diferente. 
As mudanças que ocorreram foram para o bem em alguns aspectos e para o mal em outros tantos. Mudei na forma e na essência. Desapeguei de antigos conceitos, revi crenças, aprendi e desaprendi com a vida. E quando acho que já sei de tudo e já vi de tudo, lá vem a vida de novo me para surpreender. Gosto de usar as idas e vindas da maré como metáfora da nossa existência. Uma hora na alta, outra na baixa. E o que aprendi com os ciclos é que temos que nos preparar sempre para cada nova onda.
Há quase quinze anos iniciei um ciclo em São Paulo. Cheguei empolgado com as novas possibilidades e desafiado a entender a metrópole gigante. Me lembro que a minha primeira providência foi comprar um guia de ruas, daqueles grandes de capa azul (não existia o GPS e nem o Google Maps). Colei o mapa da cidade na parede do quarto e o olhava atentamente como se pudesse decifrá-la através da sua geografia. Hoje já descobri que a cidade é dinâmica e não segue padrões. A cada dia os bairros ultrapassam seus próprios limites, incorporam novas áreas e criam novas fronteiras. São Paulo me ensinou a entender seus códigos e me mostrou, na prática, que a sua mais completa tradução vai muito além da Ipiranga com a São João. 
O Morumbi foi a minha casa na maior parte desse ciclo. Fui testemunha das suas transformações, muitas delas registradas aqui nas páginas da Dolce. Da janela de casa vi ruas surgirem, árvores desaparecerem e prédios brotarem numa velocidade impressionante. O antigo bairro das fazendas - “aquele lugar distante” como muitos paulistanos insistem em definir o Morumbi - agora está mais perto de São Paulo. Em quinze anos, o bairro cresceu, está mais urbano e mais afogado nas mazelas da metrópole. A boa notícia é que os moradores estão mobilizados e se unem na busca de soluções comuns.
O ciclo paulistano da minha vida me fez crescer. Ampliou minha visão de mundo, me fez ascender profissionalmente e me ofereceu ganhos pessoais que jamais poderia imaginar nos ciclos anteriores. Aqui nasceram meus pequenos “paulistinhas”, ardorosos defensores dessa terra que um dia foi chamada de “terra da garoa” e que hoje sofre com a seca. Rios foram reduzidos a filetes de água e as ameaças de desabastecimento são a consequência mais imediata das agressões causadas pelo desenvolvimento selvagem da cidade. Talvez um novo ciclo esteja se iniciando em São Paulo. Uma nova fase que vai revelar os resultados das agressões ambientais cometidas ao longo de tantos anos.
É assim a vida, os ciclos vêm e vão. Podemos até evoluir de uma fase para outra, adotar novos hábitos e posturas diante do nosso cotidiano. Mas não há como mudar os passos que deixamos no caminho. Eles são as marcas do que fizemos e cada decisão que tomamos irá repercutir por toda a nossa existência. Para o bem ou para mal. No individual ou no coletivo. São Paulo, talvez esteja agora pagando o preço do seu histórico “Antropofagismo urbano”. E reconhecer os erros pode ser o primeiro passo para enfrentar essa nova onda.                    

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