Fatos, boatos e versões

Fatos, boatos e versões
A solicitação de amizade piscou na tela do meu Facebook e eu não acreditei. Havia mais de trinta anos que eu não tinha notícias da minha prima Lucinha. 

A última vez que ouvi falar dela foi quando me disseram que ela teve um surto psicótico e estava em tratamento psiquiátrico.
 
Qual não foi minha surpresa ao perceber que ela agora estava lúcida. Não só se lembrava de vários momentos da nossa infância, como tinha uma boa memória recente. Perguntou sobre meus filhos e me falou dos filhos dela. Contou que era muito feliz no casamento, no trabalho e que era uma mulher realizada. Com muito tato, disse que estava contente com a nossa reaproximação, pedi desculpas pelo afastamento e disse que tinha ficado feliz ao saber que o tratamento tinha sido um sucesso. Ela demorou a responder e quando retomou o bate-papo disse que nunca se submeteu a qualquer tratamento. Eu gelei e decidi abrir o jogo. Contei a minha versão da história e pude perceber que ela se divertia com cada detalhe da minha narrativa. Ai fui eu que não entendi nada. Mas ela esclareceu:

-Olha primo, não houve nada disso. Como você sabe minha mãe sempre foi muito religiosa e jamais admitiria que uma filha dela pudesse ter um filho fora do casamento e o pior, ter um caso com um homem casado. 

Era demais pra ela, por isso inventou toda essa história de surto psicótico e internação psiquiátrica para justificar o meu sumiço. Eu e o pai da minha filha viajamos pra longe. Vivemos um tempo fora. Ele se divorciou e nós estamos casados até hoje criando juntos os nossos filhos. Fique tranquilo eu estou bem e como te disse muito feliz.

Nos despedimos prometendo que nossas famílias se encontrariam em breve. E ela ainda brincou: -primo você é jornalista, vê se da próxima vez você checa bem as suas informações.

Há uma máxima no jornalismo que diz que o bom repórter tem que ficar ligado 24 horas pra não deixar escapar a verdade. Na história da minha prima eu cochilei, aceitei o boato e fui enganado pela versão. Se tem algo que aprendi nesses 30 anos de profissão, é que a verdade nem sempre é forte o suficiente para ser ouvida e se impor como deveria.

Como diz outra máxima jornalística, quase sempre a versão é melhor do que o fato. Para algumas pessoas, se for para sustentar uma opinião é melhor usar a versão e esquecer o fato. Felizmente, para o bom jornalista a versão nunca se sobrepõe ao fato e ela deve prevalecer mesmo que contrarie interesses.

Este ano que termina foi especialmente difícil para a verdade. As redes sociais espalharam boatos e versões com uma velocidade impressionante durante a corrida eleitoral. Vi pessoas de boa fé participando dessa corrente e referendando o jogo político articulado pelos “boateiros de plantão”, alguns reproduzindo as chamadas “fontes confiáveis” e se esmerando em encontrar “informações” favoráveis ao seu time político. O eleitor teve comportamento de torcedor de arquibancada e repercutiu notícias plantadas, reproduziu textos fantasiosos e deu força a histórias contadas pelos amigos dos amigos. Cada um escolheu sua versão e fez questão de brigar por ela. Chegou uma hora que ninguém sabia ao certo onde estava a verdade, o que era factível e no que deveríamos acreditar. Foi neste momento que corremos um grande perigo e vivemos um período especialmente difícil para quem tem como dever de ofício reproduzir o fato.

Quando a verdade sucumbe ao boato todo mundo perde, o eleitor que não consegue enxergar a verdade e os candidatos que deixam de apresentar suas propostas para se defender das maledicências. Mas acima de tudo, perde a imprensa livre que só consegue sobreviver e se perpetuar no ambiente democrático, o mundo em que eu quero estar com os meu filhos, um lugar onde há respeito pelo contraditório e onde ninguém é agredido por defender seus pontos de vista. Em tempo, eu amo Cuba e Miami, já desfrutei desses dois paraísos separados por pouco mais de cem quilômetros de um mar de águas “calientes” e por um enorme abismo ideológico. Respeito o passado e defendo as conquistas do mundo moderno e agradeço a minha profissão por ter permitido apertar a mão de Fidel Castro e de Bill Clinton.
 
 
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