Uma viagem fascinante pelo mundo da literatura

Eu sou do tempo em que a gente conhecia o mundo pelas beiradas. Aprendi a reconhecer as grandes cidades por fotos publicadas nas revistas semanais e a aprofundar meus conhecimentos da vida pelas páginas dos livros de grandes autores. Não havia naquele tempo a realidade crua e tão escancarada do mundo on line.
Se hoje queremos descobrir como vivem os moradores em Sarajevo basta dar uma clicada no mouse e percorrer as ruas virtuais dos sites de buscas. Foi-se o romantismo e perdeu-se o sonho.
Mas essa versão fantasiada da realidade sempre me fascinou e aguçou a minha curiosidade. Criei o hábito da leitura ainda menino, com os livros didáticos obrigatórios no antigo ensino primário. “Justino, o retirante” foi meu primeiro livro. Até hoje não consigo entender como uma publicação que trazia um forte componente social foi aprovada pelos censores da ditadura militar. Vieram os clássicos dos nossos maiores escritores, “O cortiço”, “Senhora”, “Tronco do Ipê”, “O Alienista”, “Iracema”, “O Feijão e o Sonho”, uma lista tão vasta que não conseguiria terminar aqui. Leitura obrigatória das provas bimestrais que ajudou a formar meu repertório.
Guardo alguns exemplares surrados dessa época de descobertas na minha biblioteca particular. E me orgulho de não ter tido preconceito ideológico, lia com prazer enorme as aventuras do comunista Jorge Amado na Bahia dos coronéis, da mesma forma que devorava a obra polêmica do reacionário Nelson Rodrigues.  
Da “Engraçadinha” de Nelson para a “Lolita” de Nabokov foi um passo natural e a partir daí não parei mais de viajar. A viagem fascinante pelo mundo da literatura me levou por caminhos surpreendentes e me levou a regiões desconhecidas do planeta. Sentia-me um desbravador e me encantava a cada descoberta.
Eu lia de tudo, almanaques, livros de história e gibis. Um mundo mais lento, que andava na velocidade da nossa leitura e era grande demais pro tamanho dos nossos sonhos. Quando finalmente consegui viajar até alguns desses lugares distantes, procurei pelas minhas referências bibliográficas. E foi aí que o meu mundo caiu.
A realidade não tinha o glamour dos livros. Os personagens que encontrei nas ruas estavam longe da pluralidade narrada pelos meus ídolos de infância. Onde estavam as fontes de inspiração daquelas obras imortais?
Um questionamento que conduziu ao meu maior aprendizado. Na frustração, entendi que a qualidade do escritor está na capacidade de enxergar além do senso comum. De ver o mundo por um viés próprio e de ter o talento de conquistar o leitor com a sua versão da realidade mesmo que se discorde totalmente daquilo que está escrito do prefácio ao ponto final.
Com os gênios aprendi que ser tolerante pode ser revelador e que tentar entender o outro pode ser um exercício de paz. Aprendi que cada história se revela nos detalhes e que é preciso ir até o final para entender todo o contexto.
Dessa aventura literária tirei uma lição de vida: Assim como na literatura, não dá pra enxergar o mundo apenas pela orelha do livro.                                                                

*nota do autor: Esse texto é dedicado a dois gênios da literatura que morreram no mesmo dia: Günter Grass e Eduardo Galeano, a esse uruguaio que adorava o Brasil um carinho especial e um agradecimento por ter tentado traduzir, de forma tão contundente, nossa tão complexa cultura latino-americana.

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