O primeiro namorado

A minha filha mais velha me apresentou o primeiro namorado aos 15 anos. Lembro-me até hoje do dia, da hora e do que eu estava fazendo quando conheci o “Marcelinho”.


Confesso que não sabia o que fazer – Acho que todo pai demora mesmo a entender o crescimento da filha, ou talvez a ficha nunca caia. Mas tentei sublimar e fazer pose de pai moderno, daqueles que acham natural conhecer o primeiro namorado da filha.
– E aí, como é mesmo o seu nome?  – É uma tática pra mostrar o lugar dele e, de certa forma, dizer que ele não tem nenhuma importância na vida dela.
– Você gosta de futebol? – Se não tem como lutar contra o inimigo, junte-se a ele e crie afinidades.
– Ah, é vascaíno... Não sei se ela te disse, mas todo mundo aqui em casa é Flamengo doente. A minha filha já nasceu vestindo a camisa do Flamengo e se recusa a cumprimentar qualquer inimigo que carregue uma cruz de malta no peito – golaço, mais direto e definitivo, impossível. Essa é pra intimidar mesmo, ver se ele foge, de uma vez, dessa família de fanáticos.
– Ah, você não liga muito pra futebol... nunca foi ao estádio?
– Onde você mora? Perigoso chegar tarde lá, né? Não deixa pra pegar o ônibus muito tarde não – Se não tem como acabar com o sofrimento, pelo menos tente diminuir o tempo de exposição à dor.
– O que, filha? Você disse pra mãe dele que eu ia levá-lo em casa?
– Você vem comigo no banco da frente. Como é que é? Vai pegar mal se os outros souberem que teu pai te leva num banco e o namorado vai no outro?
E se o caminho até a casa do namorado é cheio de túneis, prepare-se para o pior.
– Que barulheira é essa aí atrás? – Aqui não tem tática que dê resultado, o jeito é tapar os ouvidos e nunca olhar pelo retrovisor.
Um mês depois fui buscar minha filha numa festa da escola. Horário básico, 5 da manhã.
Ela caminhava com dificuldade quando se aproximou do carro. Fingi que não notei. Mas quando ela entrou tive de perguntar o que havia bebido. Ela ainda tentou dizer que só tinha tomado refrigerante, antes de sujar todo o meu carro. Precisei ter uma conversa séria, daquelas de pai pra filha.
Ela me contou o que tinha acontecido. O “Renatinho”, eu não tenho certeza se era “Marcelinho” mesmo, vinha tentando avançar o sinal, insistiu várias vezes, e ela resistiu ao assédio. Ele se irritou e foi à festa com outra menina.
As “amigas” da minha filha disseram que ela merecia mesmo perder o namorado, já que era “careta” demais, sequer bebia, apesar de “já” ter mais de 15 anos.
Nesse dia, fiz questão que ela dormisse no meu colo e lhe disse que, se ela quisesse tomar porres, usar drogas ou fazer sexo com quem quer que fosse, teria de ser por uma iniciativa pessoal, faria porque estava querendo fazer ou experimentar e precisaria ter a consciência dos riscos que estava correndo, e jamais faria qualquer coisa só por seguir os “conselhos” dos outros.
Naquele dia choramos muito e nos abraçamos como há muito tempo não fazíamos. Eu nunca mais vi o “Renatinho”, ou “Marcelinho”, pouco importa o nome. Mas nunca me esqueci que o primeiro namorado da minha filha foi o mais importante da minha vida.

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