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Amizades e depressão

Eles se conheceram na escola e logo começaram uma amizade improvável. Eram tão diferentes que aquela relação tinha tudo pra dar errado. Um era forte, gostava de esportes e fazia o tipo popular. O outro era franzino, não podia exagerar nos exercícios físicos por causa da asma e estava sempre calado num canto.

Havia ainda a herança de diferenças históricas que poderia tê-los colocado em lados opostos da balança social. Um era negro, o outro era branco. Um era árabe, o outro, judeu.
E até no futebol torciam para times diferentes. 
Mas nada abalou aquela amizade que se fortalecia com o tempo. No estádio sentavam um ao lado do outro. Celebravam igualmente as datas religiosas e juntos refutavam qualquer incitação racista. Entraram no mesmo curso na faculdade, e na formatura um agradeceu ao outro pelo diploma. 
Acredito que amizades forjadas na infância tendem a ser mais duradouras. O universo infantil estimula a socialização, e a criança que não se deixa influenciar pelos rótulos dos adultos não percebe tantas diferenças. 
Já ouvi de um amigo que as amizades sinceras só são possíveis até os treze anos. A partir daí temos a tendência de estabelecer padrões éticos e morais que definem se vamos ou não aceitar um novo amigo. 
Na juventude, geralmente, nos aproximamos de quem tem os mesmos gostos. Confundimos amigo com parceiro. Parcerias costumam ser movidas por interesses comuns e não resistem a novas descobertas. Na parceria, o afastamento é simples e indolor. E de repente já estamos em novo grupo, construindo novas parcerias.
Na vida adulta, a situação é ainda mais complexa. Amizades tendem a se tornar relacionamentos movidos pelos mais variados interesses. Os relacionamentos podem ser mais fortes ou menos intensos, mas, igualmente, não costumam resistir à distância. Basta se afastar do convívio para o relacionamento perder força até se tornar algo vazio, sem qualquer vínculo. 
Li outro dia um artigo em que cientistas concluíram que estar perto dos amigos ajuda no tratamento da depressão. É quase uma contradição da vida moderna. Pois a tendência nas relações é de que haja um afastamento natural e um isolamento cada vez maior do deprimido. A depressão é uma doença social em que o paciente precisa ter por perto quem se disponha a estabelecer parcerias e seja solidário o suficiente para engatar um relacionamento. Um tipo de pessoa bem difícil de encontrar. 
Sobre os amigos de infância citados no começo deste artigo, um deles morreu recentemente. O outro estava no velório e ficou o tempo todo ao lado do caixão como se estivesse ainda compartilhando com o amigo os momentos felizes que tiveram ao longo de mais de oitenta anos de amizade.

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