Reencontro com o Morumbi

Estava há uns dias longe do Morumbi e tomei um susto quando voltei ao bairro. No táxi, o motorista me aconselhou a fechar as janelas e disse que estava seguindo por um caminho mais longo para evitar cruzamentos perigosos.

O detalhe é que o preço da tarifa já estava acertado antecipadamente. A Maria, que trabalha lá em casa, também contou uma história parecida. O motorista do táxi se recusou a entrar em Paraisópolis. Disse que a corrida terminava na Giovanni e ela teria de seguir a pé o restante do caminho.
No prédio, entre tantas correspondências, havia uma convocação para a assembleia extraordinária do condomínio, e o tema principal era a aquisição de novos equipamentos de segurança e adoção de medidas restritivas de circulação. Logo, os amigos começaram a contar histórias de assaltos em diferentes pontos do bairro, em ruas movimentadas e ermas, em casa e no bar, de dia e de noite. Eu entrei em pânico! Não tinha visto nada, não testemunhei nada de anormal no meu trajeto e não tinha assistido ao noticiário sobre violência no bairro nos últimos dias. Mas os relatos me assustaram tanto que me senti impotente diante do risco “terrível” de atravessar ruas urbanizadas de um dos bairros mais ricos da maior cidade do País.
A sensação de insegurança é um componente perverso do medo. Ela nos paralisa. Nos tira do prumo e torna real algo que é apenas uma percepção. O barulho da moto, uma pessoa correndo na rua ou a aproximação de algum desconhecido fazem o coração disparar e dão início a um processo difícil de controlar. A angústia do medo nos torna ainda mais vulneráveis e faz da casa um refúgio desejado. 
Portas trancadas e vigilância reforçada. Pagamos caro para bancar um serviço privado que é obrigação do estado. Um amigo me disse certa vez que jamais se renderia ao poder paralelo. Não seria refém de uma “autoridade” forjada pela enorme incapacidade dos nossos governos de gerir a segurança pública e garantir o supremo direito de ir e vir. Nos regimes de exceção, o toque de recolher é uma ferramenta para conter as “possíveis” ameaças à segurança do “estado”. O nosso toque de recolher é voluntário definido pelo medo, como do taxista que se recusou a entrar em Paraisópolis às sete da noite.
Vejo os nossos líderes comunitários lutando por mais policiamento, não é Rosa Richter?
Vejo nossos vizinhos se escondendo do mundo nas blindagens dos carros e edifícios.
Vejo uma comunidade amedrontada e cansada de reivindicar o supremo direito de viver a vida.

 

 

Comentários (0)

500 caracteres restantes

Cancel or

REVISTA DOLCE

Edições anteriores

Veja as edições anteriores da revista Dolce Morumbi