As vozes das ruas

20 de junho de 1983. Eu recém tinha atingido a maioridade, estava na faculdade e acalentava os sonhos comuns da juventude. Tinha consciência política e queria mudar o mundo.

Naquela época, a nossa luta era pela restauração da democracia (a ditadura só terminaria dois anos depois) e, mesmo sob a repressão, íamos às ruas na esperança de que nossas vozes fossem ouvidas e o nosso grito sufocasse o som dos coturnos e baionetas. Eram tempos difíceis, tínhamos medo sim, mas os ideais de libertação nos impulsionavam.

Trinta anos depois vejo os jovens nas ruas com a mesma energia daqueles tempos e, em alguns momentos, repetindo os mesmo bordões (o povo unido jamais será vencido!). Os jovens agora cobram soluções para a deficiência de serviços básicos, protestam contra a corrupção, os políticos, os gastos públicos e acrescentam uma lista quase interminável de outras reivindicações. A questão não é o que motiva a participação de cada um, mas o significado dela. O que essas vozes querem dizer? O que o seu grito significa? 

Encontrar essas respostas é um desafio para os governantes e toda a classe política. Se ouvirem o recado das ruas estarão dando uma lição de maturidade e poderão, de verdade, iniciar as mudanças que tantos anseiam. Mas se abraçarem as causas pela simples oportunidade ‘eleitoreira’, estarão apenas adiando o próprio funeral político. 

As manifestações são formas legítimas de expressão Democrática e os protestos recentes me levaram de volta no tempo.

Nessa viagem ao passado me vi de novo nas ruas, empunhando a bandeira e gritando a plenos pulmões as palavras de ordem. Agradeço aos jovens que em 20 de junho de 2013 estavam nas ruas do Brasil. Vocês são a prova de que as lutas da minha geração valeram a pena. 

Eu mudei em 30 anos. O país mudou em 30 anos. Mas, é reconfortante ver que a imensa capacidade de sonhar da juventude permaneceu a mesma. Aqueles, como eu, que foram as ruas nos anos 80 pedir por eleições diretas, os cara-pintadas que derrubaram um presidente nos anos 90, e os jovens que agora promoveram a ‘revolta dos 20 centavos’, temos motivos de sobra para comemorar. Podemos nos orgulhar do que fizemos e ter esperança de que as próximas gerações estarão prontas para dar os passos necessários para a nossa sociedade evoluir ainda mais. 

 

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