Passou do ponto. E agora?

Como as manifestações pacíficas se tornaram ondas de terror que sacodem as nossas cidades, desafiam as autoridades e nos assustam a cada dia. Na edição passada da Dolce eu falei aqui sobre as manifestações que inundaram o país. 

Fiz uma comparação com os atos políticos promovidos pelas gerações passadas e destaquei a importância da participação dos jovens nas mudanças necessárias para o País. Mas o movimento ordeiro de muitos deu lugar ao vandalismo de poucos e eu resolvi voltar ao tema. Quem são os vândalos que estão por trás das máscaras e tocas ninjas nas ruas de nossas cidades? A identificação de um jovem da classe média paulistana na depredação do prédio da Prefeitura deu a primeira pista. Aquele jovem de 20 anos destruiu a fachada de uma joia arquitetônica de nossa cidade. Aquele jovem, um estudante de arquitetura, não pensou duas vezes antes de destruir um pedaço da nossa história que ele mesmo deveria ter a preocupação de preservar. 

Mas aí vieram os saqueadores de uma loja de carros no Rio e os salteadores que limparam vitrines em Porto Alegre, Belo Horizonte e Campinas. Pronto, já estava definido: os arruaceiros eram bandidos que saíram de favelas para aproveitar a onda de protestos e promover a baderna em benefício próprio. É o problema do pensamento único. Amparados no nosso pré-conceito queremos logo taxar as pessoas. Dar-lhes um rótulo para entendê-las e expiar nossas culpas. 

Só que vieram os protestos no Leblon (na zona sul do Rio) para mudar a história de novo. Aqueles mascarados usando roupas caras e bem nutridos eram tão, ou mais, violentos que os demais. Promoveram uma quebradeira sem sentido e sem bandeira pelo puro prazer de destruir o patrimônio do outro. De frente para os jovens do Leblon percebi o quanto os vândalos ficaram mais perto de nós. Provavelmente alguns frequentam os mesmos lugares que costumamos ir. Talvez, até, possamos conhecer um ou outro pelo nome de batismo. É assustador saber que protegido pela turba, esse jovem conhecido vira um anônimo e se transforma numa máquina de terror capaz de atos de pura selvageria.

A força da turba impulsiona os instintos violentos e, de repente, os nossos meninos viram bichos, prontos para transgredir da pior maneira possível. Como pai, fico preocupado. Sou dessa geração que tem medo de ser chamada de careta. Temos medo do sentimento que possamos despertar nos nossos filhos. Ficamos reféns do comportamento liberal e nos perdemos diante dessa liberalidade. Qual a nossa parcela de culpa no comportamento dos arruaceiros? Temos responsabilidade nisso? Ficaríamos horas aqui a discutir os modelos de educação dos nossos filhos e a avaliar nossos erros e acertos. Mas não temos esse tempo. Neste momento estamos em casa torcendo para que todo protesto seja pacífico e que o telefone não toque enquanto os nossos filhos estiverem na rua.   

 

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