Matéria de capa

Corta pra ele!

“Põe que é exclusivo, minha filha. Dá trabalho pra fazer”. Carioca da gema e dono de alguns dos bordões mais famosos da TV brasileira, o apresentador Marcelo Rezende nos recebe na Record horas antes de entrar com seu ‘Cidade Alerta’no ar, para uma ‘exclusiva’ sobre carreira, política e violência no Morumbi. 

Nascido na Praça da Bandeira, perto do Estádio do Maracanã, Marcelo Rezende morou num cortiço no Leblon, depois na Tijuca e, mais tarde, na Ilha do Governador, onde passou toda a infância. Com o pai desempregado, sem grana ou casa pra morar, e passando por todos os perrengues que essas condições causam, o menino amargou um período que não esquece: foi morar dentro da escola do Serviço de Assistência ao Menor (SAM), uma espécie de Fundação Casa. Foi ali, bem cedo, que ele aprendeu o que era um crime. “Meu pai conseguiu um emprego que dava direito a uma casinha dentro da escola. Vivi dos seis aos 13 anos ali dentro. Minha vida social era toda lá, junto com bandidos, assassinos. Por isso eu digo que crime eu aprendi de berço, não precisa ninguém me ensinar”.

 
A profissão que exerce até hoje veio mais tarde, por acaso, aos 17. Numa visita ao jornal onde um primo trabalhava, Marcelo ofereceu ajuda ao diretor geral (sem saber quem era a pessoa) e acabou ganhando um emprego como repórter no outro dia. Ficou lá por mais ou menos um ano até ser demitido. “Foi a sorte da minha vida”, sorri ao lembrar. “Nesse dia o chefe de redação me disse ‘você nunca vai ser jornalista porque você não tem responsabilidade’. Aquilo bateu na minha cabeça como uma marreta e eu pensei ‘como é que um sujeito pode dizer pra um garoto de 18 anos o que ele vai ser na vida?’. Naquele dia eu botei na minha cabeça que ia me dedicar ao jornalismo.”
O que veio depois todos nós sabemos. Marcelo virou um dos maiores jornalistas investigativos do país e ficou conhecido por enfiar o dedo nas mais diversas feridas sociais. Ao longo das mais de três horas em pé apresentando seu programa, o Cidade Alerta, ele mostra um Brasil que muitos fecham os olhos e viram a cara para não ver, e escancara as mazelas do país de um jeito bem particular que inclui a fala pausada e as brincadeiras com os companheiros de equipe.
Numa tarde quente de quinta-feira, o encontramos num dos estúdios da Record para esta entrevista. Típico contador de histórias, Marcelo fala muito e tem um jeitão tranquilo e sossegado. Com uma garrafinha de água numa das mãos, chegou vestindo calça jeans e camisa xadrez, e ali, entre um gole e outro, falou por quase duas horas. Contou coisas pessoais, relembrou as profissionais, e só subiu o tom de voz e ficou com o rosto vermelho quando começamos a falar sobre política, violência, Copa do Mundo e, claro, sobre o Morumbi, porque, de contraste social ele entende. 
 
Desde o extinto ‘Linha Direta’, na TV Globo, você seguiu apresentando programas voltados ao jornalismo investigativo. Esse foi um caminho natural?
Eu acho que foi. No meio dele eu tive uma experiência que serviu pra eu descobrir o que gostava ou não, que foi apresentar o ‘Rede TV News’, um jornal clássico na Rede TV. Lá eu me senti uma jaguatirica na gaiola, amarrado na cadeira, lendo o que escreviam pra mim. Eu estava curioso pra saber como era fazer um jornal naquele formato e a curiosidade mata, né? Então eu ‘morri’ naquele período.
 
As brincadeiras feitas durante o ‘Cidade Alerta’’ são um jeito de amenizar a gravidade dos temas que você aborda?
Eu não queria fazer o ‘Cidade’ agora, foi um custo pra me convencer. São três horas e 20 minutos no ar! Esse deve ser o programa mais longo do mundo em que um sujeito fica em pé pra falar de jornalismo, e aquilo ali é a vida como ela é. Eu não ia ficar todo esse tempo mostrando que a torre caiu, que um morreu e o outro matou, acho um pouco de exagero, então disse que ia fazer do meu jeito. Na primeira semana ninguém entendeu nada (risos). Nessa de brincar, o primeiro que eu tinha na mão era o Percival de Souza, que eu chamo de ‘morto’. Depois apareceu o Luiz Bacci, o ‘menino de ouro’, e a Fabíola Gadelha, a ‘rabo de arraia’. O segredo do sucesso do programa é saber ir da leveza da brincadeira à coisa séria. É difícil? É, tem que ter um timing lascado e, se você me perguntar como é que eu faço, eu não faço nem ideia pra te responder.
 
Você se prepara de alguma forma antes de entrar no ar, faz alguma oração, por exemplo? 
Não. (Fica pensativo) Você está querendo saber se isso me impregna ou me deixa pesado?
 
É, você fala de assuntos pesados por três horas! Alguma coisa ainda te abala?
Sim, pra mim três questões são difíceis de lidar: qualquer coisa que envolva criança, mulher e idoso. Com isso eu não me abstraio. Pô, eu tenho cinco filhos! Se você imagina que um cara que tem um distúrbio desse, seja um maníaco ou um pedófilo, vai se recuperar, esqueça! Nesses casos eu sou a favor de duas linhas: ou você deixa o cara o resto da vida na cadeia ou você o elimina, não há outra solução. Então se eu disser que saio do programa e vou dançar no baile, eu estou mentindo. Minhas terapias pra esquecer esses assuntos são as seguintes: eu leio muito, cozinho e trato de vinhos – estudo, compro, coleciono e bebo, aliás acho que bebo mais do que o resto (risos).
 
Há pouco você escreveu um livro que conta algumas das suas histórias ainda como repórter. Como foi esse processo?
O livro foi ideia de um rapaz que trabalha comigo, o Clóvis, porque eu não queria fazer. Foi ele que deu a ideia pra eu escrever sobre os bastidores de algumas reportagens famosas que fiz, como o caso do maníaco do parque. E eu senti prazer em fazer aquilo. Depois do livro pronto, algumas pessoas comentaram comigo ‘pô cara, não sei como você não morreu’, porque um dos casos era meio complicado. Aí eu lembrei que eu me desliguei tanto escrevendo o tal episódio que uma hora eu também falei ‘caramba, esse cara vai acabar morrendo’, e aí que fui me tocar que o cara era eu (risos).
 
Você fez o livro em quanto tempo?
Uns seis meses, mas ele foi muito maltratado pela Editora Planeta.
 
Por que?
Porque eles lançaram o livro e não tiveram convicção de quanto o livro venderia, e aí o livro explodiu. Quando chegou na época do Natal, eles tinham tirado pouco livro pra demanda que tinha e as gráficas já estavam com seus prazos de fim de ano e não tinham como fazer mais livros. Enfim, a Planeta estragou muito a venda do livro, foram muito primários no meu modo de ver, tanto no marketing quanto na comercialização.
 
 
NO ‘REDE TV NEWS’ EU ME SENTI UMA JAGUATIRICA NA GAIOLA. EU ESTAVA CURIOSO PRA SABER COMO ERA FAZER UM JORNAL NAQUELE FORMATO E A CURIOSIDADE MATA, NÉ? ENTÃO EU ‘MORRI’ NAQUELE PERÍODO.”
 
Mas, a experiência em si foi bacana...                                                                                               
A experiência foi, mas você sabe que, mais do que o prazer de fazer o livro foi o prazer de ir lançá-lo. Você não tem ideia do número de pessoas que estavam lá. Eu acho que eu tenho aqui, vou te mostrar... (diz, pegando o celular e procurando os vídeos e as fotos dos lançamentos feitos em algumas cidades). Você viu a quantidade de gente? Ninguém conseguia acreditar, nem eu (risos).
 
E vem outro?
Sim, eu já estou escrevendo um de ficção policial. Já estou no segundo capítulo, mas agora ando meio hibernado, com preguiça. Eu estava escrevendo, mas resolvi parar, não estou com pressa para lançá-lo. Eu estou com uma ideia de relançar o ‘Corta pra Mim’ no meio do ano com fotografias, encartes com arquivos meus, do ‘morto’ do Percival, do Bacci, da Fabíola... Mas, o formato ainda não está muito claro na minha cabeça.
 
Você morou no Morumbi por quanto tempo?
Toda a minha vida desde que vim pra São Paulo até me separar, há três anos.
 
E do Morumbi que você conheceu até hoje, o que mudou?
Quando eu fui morar no bairro ele não tinha tanto prédio, nem violência. Não era nem de longe esse Morumbi que você não consegue ir à esquina. Ali houve uma ocupação desordenada do solo, porque hoje se tem dois palmos de terra o cara vai lá e constrói um prédio. Fico só imaginando o quanto deve rolar de dinheiro pra isso acontecer... Hoje, se todo mundo resolver sair do Morumbi ao mesmo tempo, nunca mais a pessoa vai sair de dentro do carro, vai travar tudo. O bairro cresceu, mas sem um olhar urbano. 
 
É isso que dizemos, não adianta você construir 60 prédios se não criar uma rua. 
Pois é, e quando foram construir aquela Av. Hebe Camargo, deixaram um poste no meio, quer dizer, bem coisa de administrador brasileiro, tudo porcalhão. E aí você tem a segunda maior favela de São Paulo, que ao invés de tentarem tratar, urbanizar e criar projetos pra que ela vá sendo substituída por áreas mais urbanizadas, com postos de saúde, laborterapia, quadras de esportes e colégios para as crianças da comunidade, não... Cada vez mais você vê Paraisópolis se expandindo e com uma população acuada entre a violência dos criminosos e a violência da polícia. Então, dos 100% que moram ali, você tem 96% de pessoas querendo viver e 4% de criminosos que fazem do Morumbi o inferno que é hoje.
OS GOVERNANTES BRASILEIROS SÓ TÊM UM OBJETIVO: SE PERPETUAREM NO PODER. UNS POR VAIDADE E A MAIORIA POR CORRUPÇÃO. A POLÍTICA NO BRASIL É UMA PROFISSÃO, NÃO É UM GESTO DE CIDADANIA.”
 
Você acha que aquele perfil de bairro bucólico está desaparecendo?
O bairro tinha paz de espírito. Mas os governantes brasileiros só tem um objetivo: se perpetuarem no poder. Uns por vaidade e a maioria por corrupção. A política no Brasil é uma profissão, não é um gesto de cidadania. E você vê o reflexo disso no Morumbi. Ali está instalada a sede do Governo do estado mais rico do país, num dos bairros mais importantes e ricos da cidade; e tem esse índice de criminalidade. A pergunta é: será que quem está na sede do governo, como secretários e comandantes de polícia, não está vendo o que acontece? É lógico que vê. O bairro está assolado pela violência, com uma coisa que é o traço mais perverso que eu conheço desse momento no Brasil: as pessoas não precisam mais ser sequestradas efetivamente. Elas já estão sequestradas nos seus medos, nas suas casas cheias de trancas, nos seus receios de suas crianças irem à rua. 
 
Soube da conversão para mão única no ladeirão?
Aquilo ali é uma coisa inacreditável! Eu subia e descia o ladeirão a pé e hoje ele virou sinônimo de assalto e morte. Aí o governo encontrou ‘a melhor solução’: fazê-lo ser mão única pra baixo. É mais ou menos igual quando o cara encontra a mulher na sala com outro, aí ele vai lá e troca o sofá de lugar. É exatamente isso.
 
Mas agora a postura é outra, temos visto casos em que se faz justiça com as próprias mãos. Tá todo mundo esgotado.
De quando essa onda começou até hoje, nesta entrevista, foram cinco casos. Isso já é uma tendência e eu te digo uma coisa: a maior responsabilidade não é da polícia, é da justiça. Porque os senhores juízes e desembargadores não se revoltam contra as leis que existem e eles deveriam assumir essa luta. Nós estamos saindo do caminho da legalidade para o atalho da barbárie e isso é a pior coisa que pode acontecer, porque vai virar um faroeste. Todo mundo precisa se conscientizar que precisamos viver em paz, mas como nós, cidadãos normais e comuns, podemos viver em paz num país que nos explora como poucos no mundo? Como é que você pode imaginar, citando o bairro do Morumbi com uma Paraisópolis no meio, um país que quer fazer Copa do Mundo? Você não tem escola, saúde, transporte, pré-maternal, creche e absolutamente nada normal de um país que se diz o 7° PIB do mundo, você não tem nenhum retorno disso. O dia que abrirem a caixa preta do BNDES explode o país.
 
Falar em Copa do Mundo, você tem acompanhado a construção dos estádios?
Ah, o do Amazonas, por exemplo. Estão fazendo um lindo estádio por lá, bilhão de reais, e sabe qual é a média de público do campeonato do Amazonas? Quinhentas pessoas. Vai fazer uma matéria em torno do Itaquerão. Já meteram dois bilhões naquele monstro. Anda por cima de helicóptero, eu já andei. Ali onde as crianças estão andando e brincando descalças, vai com um técnico e colhe aquela lama pra ver o que tem de bicho destruindo a vida daquela criança. Recolhe a água do córrego e manda analisar. Acompanha a vida dentro daquela comunidade uma semana, ela está do lado do Itaquerão, que vai parecer lindo na Copa do Mundo. Sabe o que me lembra? Esses tais de Cingapura, que o Maluf inventou. Você tem um prédio fininho e colorido na frente e atrás uma favela, o prédio é só pra esconder o resto. Essa é a questão central do problema. E eu ainda abro o jornal e leio que o governo vai colocar as forças armadas nas ruas pra conter as manifestações. 
 
O que você acha que ficou de positivo delas?
Absolutamente tudo! Nós já estamos numa guerra civil, 45 a 50 mil mortos todos os anos. Temos mais de 20 mil soldados sendo treinados à exaustão pra conter a manifestação do povo brasileiro. Nós vamos voltar pra ditadura? Eu não posso ir à rua? Disseram que não podia ir pra rua mascarado, mas o cara vai pra rua do jeito que ele quiser! Esse não é o problema. O problema é aplicar a lei que já existe em cima daqueles que querem quebrar tudo, são quantos? Duzentos no meio de uma população de 100 mil que quer se manifestar. Ok, vai lá e prende os 200. As leis já estão aí, só precisam ser aplicadas com rigor, coisa que não é.
 
“AS MANIFESTAÇÕES MEXERAM COM A CONSCIÊNCIA DE TODOS. NÓS MOSTRAMOS QUE NINGUÉM AGUENTA MAIS. O DESCONTENTAMENTO JÁ ESTÁ NA ALMA DO CIDADÃO, É UMA FERIDA SANGRANDO.!”
 
 
Naquela semana de junho você acompanhou as manifestações passo a passo.
Aquilo mexeu com a consciência de todos nós, classe média. Nós mostramos para os governantes que ninguém aguenta mais. Ninguém vai poder desestabilizar um descontentamento que já está na alma do cidadão, é uma ferida sangrando. Eu quero fazer uma manifestação, vou lá e reúno 30 pessoas na rede social. Eu tenho que dizer pro governo aonde eu vou fazer manifestação? Eu não tenho que falar nada, oras! Eu sou livre pra fazer o que eu quero. Aqui no Brasil tudo é casuístico, feito sem reflexão. Querem fazer lei que não pode usar máscara, que não pode levar vinagre, que tem que avisar 48h antes que eu vou do norte pro sul... Isso é um absurdo!
 
Com a Copa batendo à nossa porta, as eleições no final do ano, promessas de novas manifestações... Como você imagina 2014?
 
Eu acho que vai ser um ano de emoções misturadas. Você vai ter uma série de governantes com os joelhos roxos de tanto clamarem aos céus pedindo a Deus que o Brasil ganhe a Copa pra eles sobreviverem. Você vai ver uma população, que somos nós, cansada. Evidentemente que o futebol emociona a todos nós, se o Brasil vencer vai ser uma alegria pra todo mundo. Mas eu, pela primeira vez, estou com uma desconfiança. Mesmo com essa alegria, as pessoas vão protestar. Ninguém aguenta mais sair de casa sem saber se volta. Ninguém aguenta mais ver o cara ir assaltar e ainda dar um tiro na cabeça de quem já entregou o que tinha. Ninguém aguenta mais abrir o jornal e todo dia ver um político envolvido com roubalheira. E isso se exacerba e aumenta o potencial de revolta porque a internet chegou de forma avassaladora e mostra tudo isso. Não vejo 2014 como um ano muito pacífico.
 
E por que você acha que a população continua errando na escolha de seus candidatos?
Porque temos a questão da distribuição de renda. Quando estão chegando as eleições, os políticos começam a inaugurar um monte de coisa. Em ano de eleição eles precisam do dinheiro do povo pra fazer creche, comprar carro, fazer escola. Aí as pessoas que moram em lugares completamente desassistidos, veem um posto de saúde, acreditam que aquilo vai ser permanente, porque solucionou um problema pontual. O Brasil é uma questão de educação, né? Nós ainda vamos levar um bom tempo pra formar essa massa crítica. Isso só se aprende indo pra escola.  

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