História

Casa de Vidro

Construída em 1951, a "Casa de Vidro” foi a primeira residência do Jardim Morumbi. Projetada pela arquiteta italiana Lina Bo Bardi, a residência guarda tesouros artísticos de diversos estilos, além da história de sua criadora que é considerada uma das mais importantes representantes do modernismo brasileiro.

Quando a arquiteta italiana Lina Bo Bardi desceu do pequeno avião DC-3 imaginou a cidade de São Paulo como estadia temporária porque seu sonho era fincar pé nas praias cariocas. Ela chegou ao Brasil no final da década de 40 acompanhada do marido Pietro Maria Bardi que recebera um convite irrecusável:fundar e presidir o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, o Masp. Bastaram três anos em terra brasileira para Lina demonstrar sua escolha pelos ares da capital paulistana e o fez de uma das formas mais convincentes:  projetou e construiu  uma casa si e seu marido. O projeto da arquiteta conseguiu transformar uma das vistas mais altas da antiga Fazenda de Chá Müller Carioba no Morumbi ao incrustar uma casa no topo de uma colina como se fosse uma joia em um anel. A residência do casal Bardi ficou pronta em 1951 e tinha formas incomuns para a época. Por ter uma área envidraçada grande chamou muita atenção de moradores e trabalhadores da vizinhança que a batizaram de “Casa de Vidro”. A residência dos Bardi se transformou em passagem obrigatória de personalidades do Brasil e do exterior. Ficaram famosos os almoços e jantares promovidos por Lina. Mas, certamente os atrativos não eram só os pratos exóticos baseados na culinária brasileira. O ambiente inte1ectual fomentado pelo interesse do casal pelas artes era um prato cheio para as pessoas que procuravam a ousadia e pioneirismo do movimento modernista do século 2O.  

 

A NAVE

Ao começar a subida de acesso cercado por um bosque,o visitante começa lentamente a ter a visão da frente da Casa de Vidro ainda escondida pela vegetação. Chegando ao topo da ladeira um pequeno pátio e um abismo à frente atraem a atenção por alguns segundos, mas logo a obra se apresenta imponente com formas retas e com suas finas colunas tubulares de sustentação que atravessam o piso interno de concreto da grande sala e vão acabar no teto. Parece até que uma nave pousou ali há anos e foi acomodando seu peso na terra fofa da Colina. Na garagem estão dois dos vários mosaicos de Enrico Galassi espalhados pela casa, estátuas egípcias e outras brasileiras. O caminho do visitante segue até uma escada construída em uma fina e elegante estrutura de ferro com degraus de pedra e bastante maleável por sinal. O balançar do corpo parece ser intencional como uma tentativa de chacoalhar ao vento qualquer preconceito ou tradicionalismo de cada pessoa que suba por ela. A porta de entrada não é barreira para o visitante observar o piso da grande sala todo coberto por pastilhas de vidro de cor azul e um solário que abre o centro da construção como se o construtor quisesse preservar a seringueira que surge pela abertura e ultrapassa a altura do telhado. As paredes pintadas de branco ressaltam a sensação de espaço e a claridade natural que entra pela grande área envidraçada que cobre toda a extensão da sala do piso até o teto e deu origem ao nome pelo qual é conhecida. Do interior da ala tem-se a visão de quase todo o bosque que cerca a construção. Através das frestas das árvores é possível enxergar os edifícios da vizinhança. Mas quem quer olhar para fora? A sala da casa já toma bastante tempo do visitante. As obras de arte se confundem com os móveis de uso diário dos ex-moradores. São cadeiras,poltronas e mesas projetadas por Lina, ao lado da lareira e de móveis fiorentinos do século 17 e há até uma estátua grega em mármore da deusa Diana,com 2 metros de altura, construída há mais de 2 mil anos. O teto nunca recebeu um lustre sequer, Lina não permitiria, e o branco das paredes só desaparece com as dezenas de quadros de inúmeros artistas brasileiros e estrangeiros. Uma mesa redonda de tampo de mármore também com a assinatura de Lina anuncia o que está por trás de uma porta de cor preta. A cozinha ainda conserva a aparência original, toda branca com uma extensa pia de aço inoxidável. A disposição dos banheiros bem decorados e os quartos com piso de pau marfim seguem qualquer norma de aproveitamento de espaço utilizada atualmente.  

 

PATRIMÔNIO HISTÓRICO

O projeto da casa foi executado em um terreno de 7 mil metros quadrados circundado pela Rua General Almério de Moura, Avenida Barão de Campos Gerais, Rua São Paulo e Rua Itororó. A casa simbolizou a base da criação arquitetônica e o estilo modernista de Lina, que trabalhou até os 77 anos de idade. A arquiteta teve sua carreira interrompida por um problema de saúde que a levou a morte no dia 2O de março de 1992.  Tombada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat) - juntamente com o bosque que a cerca, a Casa de Vidro foi transformada em abrigo de um acervo de obras de arte clássicas e criações modernistas. É impossível perceber choques de estilos. Isso demonstra a afinidade intelectual do casal Bardi, característica reforçada pela irmã da arquiteta, Graziella Bo Valentinetti. Ela viveu na casa durante 22 anos até a morte do professor Bardi no dia 19 de outubro de 1999,com quase 1OO anos de idade.  

 

DEDICAÇÃO AO MODO DE VIDA

Nascida em 1914, a romana Lina Bo Bardi formou-se na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Roma aos 26 anos de idade e logo trocou sua cidade natal pela inquieta Milão. Ela trabalhou com Gió Ponti, diretor das Trienais de Milão, da revista Domus e líder do Movimento de Valorização do Artesanato Italiano, Nesse período,Lina teve a referência fundamental de sua formação e atuação profissional. Durante a 2ª Guerra Mundial período em que mais se destruía do que se construía -, a arquiteta dedicou-se a vida editorial fazendo ilustrações para revistas e jornais. Chegou a editar uma coleção chamada Quaderni di Domus sobre artesanato e desenho industrial e, em 1943, assumiu a direção da revista Domus. Após o fim da guerra idealizou uma publicação que teve a proposta de levar o problema da arquitetura ao viver de cada um, de modo que cada pessoa pudesse analisar a casa na qual deveria viver, a fábrica onde deveria trabalhar e as ruas onde deveria caminhar. Esse assunto transformou-se em um lema que Lina jamais abandonou.  

 

LINA NO BRASIL

Em 1947 e casados há cinco anos, Lina Bo e Pietro Maria Bardi desembarcaram no Brasil. Não demorou para que a arquiteta iniciasse uma série de trabalhos que se tornaram importantes. Seu primeiro projeto arquitetônico criado e executado por completo foi o da Casa de Vidro. A sede definitiva do Masp inaugurada em 1968 veio em seguida e é a mais conhecida de suas criações. A arquiteta também transformou os galpões de uma fábrica desativada nas instalações onde desde 1977 funciona o Centro de Cultura e Lazer Sesc Fábrica Pompéia. No total de 145, seus projetos se estenderam a outros Estados como Bahia e Minas Gerais. Lina também criou trajes e cenografia para cinema e peças teatrais, além de jóias, utilizando pedras brasileiras. Ela destacou-se também no campo de desenho industrial pela criação de móveis, principalmente cadeiras.  

 

Instituto Lina Bo e P.M.Bardi
Te.l: 3744-9902
e-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

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