Anatomia da quarentena

Paulo Maia

O mundo exterior como o conhecíamos mudou de uma hora para a outra. De repente eventos, ida a shopping centers, cinema, reunião em festas ou churrasco com amigos, restaurantes, parques, etc. acabaram! Fazê-los virtualmente é insípido, inodoro e incolor. Acabou, não tem mais. Ou não é mais recomendado. Ou até mesmo está proibido. Sair na rua só de máscara. Ao voltar para casa, deixar calçados na porta, álcool gel nas coisas (quando pode, claro), e água e sabão nas mãos, parte dos braços e rosto. E não de qualquer jeito! Tem que ser como ensinam nas centenas de vídeos que correm pela Internet. A diversidade de estilos, tipos e formato de máscaras nos definirá como espécie e nos dividirá em castas daqui para a frente.

A vida ficou estranha e a gente não vê e não se encontra mais com as pessoas como antigamente. Vemos aqueles que vivem conosco na mesma casa – e até demais! Descobrimos que, principalmente deles, precisamos de distância de vez em quando para podermos ter saudade e carinho para voltar a conviver. Buscamos no manual do mundo civilizado e não conseguimos encontrar como tratar a convivência ininterrupta. Descobrimos que Sartre tinha razão ao afirmar que o inferno são os outros. E que esses outros não são os estranhos para mim!

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Quem ainda tem trabalho e o faz em home office, mergulha profundamente nele e acabou descobrindo que nesta dinâmica, se trabalha mais ainda e fica sabendo que seus chefes e corporações gostam! Ficam felizes com sua dedicação menos espartana e mais neurótica justamente por não ter nada a fazer, se não trabalhar. Então você se pergunta: o home office não é algo novo – era até algo “descolado”, de gente que pode se dar ao luxo de trabalhar em casa – por que não era tão producente assim? O isolamento e o mundo lá fora, agora sem a menor graça e com um mostro microscópico, fez a diferença assim? Ou então é o tédio interno que já não sei mais como lidar que me impele ao trabalho até o pescoço?

Entretenimento. Descobrimos que há, sim, um limite para a diversão. Maratonas de séries e filmes; videogames; televisão com suas reprises e noticiário monocórdio e, só! Ler ainda é um exercício de poucos que conseguiram chegar lá. Não há mais revistas para se folhear. Mas temos a internet na qual podemos “navegar” pelas redes e se emburrecer em posts e discussões cheias de fúria, ignorância e intolerância desenfreada, travestidas na estupidez da política pública e das nossas supostas crenças e verdades recheadas em emojis e imagens bregas e de gostos extra duvidoso. E olha, claro que também há muita coisa boa na Internet que pode nos entreter e ao mesmo tempo nos enriquecer com cultura, civilidade e bem-estar. Mas assim como leitura, são poucos também os que conseguem ver para além da paisagem turva.

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Dizem que há um novo normal e que a vida não voltará como antes. Que vamos ser diferentes; que vamos trabalhar de forma diferente; que vamos consumir de forma diferente; que vamos amar de um jeito diferente, enfim, e que o diferente também não será como era antes. Algo de estranho nele vai acontecer também. Apenas nossas bobagens permanecerão as mesmas. Esta é a única certeza que temos.

Com a sensação de que agimos como criminosos desconfiados de que vamos ser pegos em flagrante, assustados, nervosos, ansiosos e embriagados de tanto o que os outros tem a dizer que o silencio da madrugada fria dos últimos dias, quebrado apenas por algum canto de um passarinho bem distante, traz calma entre a falta de um pensamento e outro que insistentemente tenta se apossar de nossa mente.

Paulo Maia é publicitário, um pensador livre e morador do Morumbi que mantém sua curiosidade sempre aguçada

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