Sobre tirania, coitadismo e outros monstros que trazemos para casa

Claudia Alaminos

Há alguns anos eu recebi no consultório uma garotinha, muito inteligente, mas que ia muito mal na escola e já estava sob risco de perder o ano. Na época era a quarta série, hoje seria o quinto ano. No primeiro contato fiquei impressionada em ver como a menina era articulada, falante e com um repertório bem amplo para os seus 10 anos. Comecei a avaliação e o que percebi era que faltava tempo de estudo para ela. Ela pegava o conteúdo com facilidade, mas não assimilava porque não estudava, não treinava o que era dado.

Na devolutiva, disse para a mãe que a menina precisava mais tempo de estudo e que, para que não perdesse o ano, talvez fosse importante a contratação de um professor particular. Expliquei que naquele momento emergencial eram mais importantes estas medidas do que a entrada em terapia psicopedagógica.

Imagem por Allison Griffith

Para a minha total surpresa a mãe ficou revoltada. Chegou a alterar o tom de voz e disse que não ia fazer a filha estudar em casa. Que lugar de estudar era na escola e que a menina não seria ESCRAVA das tarefas e estudos.

Iniciei nossa conversa com este caso real para introduzir um assunto que, ao meu ver, tem estado cada vez mais em pauta quando a conversa é estudar. Pelo que tenho visto, o mito da infância (e da adolescência!!!) feliz passa pela máxima que as crianças não deveriam ter tempo para estudar fora da escola. Que as horas que passam lá deveriam ser suficientes para que, ao fazer algum tipo de avaliação, a criança fosse bem sucedida. Caso isso não ocorra, a culpa, segundo os pais, é sempre do professor que não deu uma boa aula ou que cobrou algo que não deu em classe. Escuto sobre isso diariamente.

Outra questão é que a escola tem que ser interessante, que tem que oferecer atividades que agradem os alunos, sob pena deles não prestarem atenção e não fazerem o que lhes é pedido. E novamente a culpa cai sobre a escola. Os pais dizem: “meu filho não fez a tarefa ou não foi bem na prova. Também, tendo computador, vídeo game e outros eletrônicos à disposição a escola pede para ele ler livros, decorar fórmulas…” Esta tem sido a justificativa que vem legitimar a repetição deste comportamento por crianças e jovens.

E agora, como mãe e educadora eu pergunto: que pessoas deixaremos para o mundo? Gente que só se mobiliza por prazer? Gente que não quer responsabilidades e não cumpre com suas obrigações? Gente que acha que está sempre sobrecarregada porque TEM que ir ao futebol, ao ballet, à natação ao inglês, à aula de guitarra ou bateria e por isso NÃO TEM que estudar em casa?

Desculpem o tom, mas estou perplexa. Não me conformo que esta geração está sendo educada desta maneira. Eles buscam sempre um meio de obter sucesso sem esforço e o resultado disso será uma sociedade birrenta e arbitrária já que estas crianças e jovens só conhecerão um meio de conseguir as coisas, fazendo manhas e birras. E, desta maneira, podem escolher dois caminhos, se fazendo de vítimas ou sendo tiranas.

Imagem por Bruno Cervera

Participei de uma conversa com pais e alunos do ensino médio e, para a minha grata surpresa, a fala de alguns jovens destoou da fala da maioria dos pais. Alguns deles disseram com todas as letras que conseguem, que podem, que agora é o momento de se preparar para conseguir uma vaga numa boa universidade. Que é possível ir a festas e passear com a turma, mas que não dá para fazer isso o tempo todo. Estes já aprenderam que os louros do esforço não vêm de imediato, eles requerem perseverança e paciência, certamente começaram este processo nos anos iniciais da escola. Isso é amadurecer.

Este é um momento de luta concreta para alcançar um sonho. Temos que apoiá-los, muitas vezes ficar em casa com eles para levar um lanchinho no quarto ou simplesmente fazer um afago e perguntar se precisam de algo.

Uma sugestão? Não abandonem seus filhos num prazer que estanca, não legitimem este comportamento colocando a responsabilidade do sucesso deles sempre no outro. Eles podem, podem muito e são mais fortes e inteligentes do que podemos supor.

Abraços maternos

Imagem por Anthony Tran

Claudia é mulher, esposa, mãe (de um rapaz e dois gatos), fonoaudióloga, psicopedagoga,
educadora parental em Disciplina Positiva, moradora do Morumbi e futura psicanalista.
Sem Educação nada é possível.
@claualaminos.

Imagem destacada da Publicação:
Foto por Andrew Neel

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