Para quando o amanhã voltar

Paulo Maia

O rosto refletido mostrava um grande ar de alívio. Ela dava seus últimos retoques na maquiagem e checava se a roupa escolhida estava de acordo. Era a volta ao escritório enfim, depois de muito tempo de confinamento. Passou pela copa e apressou Lucas para terminar seu leite. Ele voltaria à escola também. Estava ansioso para reencontrar com os amigos pessoalmente. Já estava acostumado com o mundo virtual, mas a sanha humana por contato e sociabilização era tamanha, considerando que já havia passado muito tempo desde a última vez que brincou com eles!

A pequena Sofia já estava pronta! Ela também ia para a escola pela primeira vez e estava mais curiosa do que ansiosa. Tinha começado a frequentar algo parecido a um jardim da infância quando a quarentena chegou, mas não houve tempo para entender o que estava acontecendo. Desde então ela se acostumou a ver o irmão a “ter escola” pelo vídeo do computador. Muito difícil para entender e desde então ela ficara intrigada em como era aquela vida na qual o irmão já sentia falta! Menina esperta o suficiente tanto quanto os seus cinco anos permitem.

Ela, a do rosto refletido, já organizara tudo ao seu redor e aguardava pelo marido que pegava seu paletó para todos irem ao estacionamento juntos.

O elevador para no meio do caminho e mais um casal entra. Ele ainda usa máscara, apesar do registro da última infecção ter sido há mais de um ano e a última morte há meses. Mas comenta que não quer se arriscar. Claro, todos concordam. São vizinhos e os tempos são de paz e regozijo. O casal fica no térreo e a família vai para o estacionamento. As crianças ficarão no caminho do trabalho deles.

Imagem por Jezael Melgoza

O retorno a certos hábitos e a uma rotina quase esquecida traz estranheza ao começo do dia, mas a alegria do recomeço além da esperança da renovação e de que tudo será diferente e melhor, faz que com que eles troquem sorrisos depois de colocar as crianças no banco de trás.

Na saída do prédio ligam o rádio do carro que nessa hora traz o noticiário matutino justamente no momento em que dão bom dia e boas-vindas ao velho normal, longamente esperado. As notícias dão o tom de um momento aguardado pelo mundo todo. Um momento indescritível e que vem com uma força imensa. Afinal, o saldo do confinamento foi melancólico e às custas de muito estresse emocional, perdas financeiras, materiais e tragicamente pelas vidas ceifadas na pandemia agressiva.

Lucas fica primeiro e Sofia na sequência, agora animada pela movimentação das crianças e feliz ao reconhecer a prima que lhe fará companhia. Beijos de despedidas e algumas lágrimas do rosto da mãe não são notadas face à gritaria das crianças.

Tudo certo. Vamos ao trabalho! Ele deixa ela em frente ao prédio do seu escritório e segue para o seu no trânsito já bastante pesado, mas sem reclamação, pois essa é a vida que se queria de volta. Ela, então, entra no lobby e encontra com amigas e amigos do trabalho e também com aquelas pessoas novas que ela tinha vista apenas por vídeo conferência. Sim, sempre há algo que vemos diferente ao vivo. A realidade joga cores em gradientes cinza no que normalmente não vemos na tela do computador ou do celular. E mais uma vez a alegria toma conta entre comentários de como todos estão bem e como todas estão lindas. Que bom! Houve muito preparo na produção para voltar ao convívio do grupo. Estética e emocionalmente falando.

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O escritório parece diferente. Está muito mais limpo e mais bonito também. Todos os tipos de acessórios e instrumentos para a manutenção da higiene estão espalhados junto com cartazes e avisos para os novos padrões, pois um trauma se instalou entre nós e, assim, tudo precisa ser cuidadosamente livre de qualquer risco de novos contágios.

Ela se acomodou na cadeira, ligou o computador, colocou o celular de lado, ajeitou o porta-retratos deles com os filhos e o outro do lado, com os pais. Sorriu, pois, pensou que logo mais iria almoçar com as amigas, ligar para a mãe e contar em todos os detalhes como foi recomeçar e ao final do dia tomaria um chope no happy-hour e ainda voltaria a tempo de ir ao cinema com o marido para depois jantarem e voltar para casa e descansarem logo após fazerem amor em uma celebração à vida que, enfim, voltava para que pudessem retomar os planos de suas vidas e de seus sonhos.

E, no momento em que seu rosto se ilumina com toda essa perspectiva, Sofia, ainda de pijama e segurando um coelho de pelúcia já meio desajeitado e sem cor, entra na sala chamando pela mãe, choromingando, reclamando que Lucas não a deixou ficar com ele para a aula de vídeo!

Ela toma um susto, dá um suspiro e volta a si. Vira-se para pegar Sofia no colo, no momento que vê o marido ainda de camiseta e calção que usara para dormir ir à cozinha para pegar um café. São quase nove e meia da manhã e ela com Sofia no colo grita por Lucas pedindo para ele ficar um pouco com a irmã para que a mãe possa começar seu home office!

Imagem por Jessie McCall

O marido volta com a caneca de café, indiferente à balburdia que, para ele, já era um sinal de rotina. Ela pergunta se ele não vai se barbear ou tomar banho, no que ele responde que, naquele momento, não. Sua justificativa era que não tinha nenhuma “conference” para fazer e não via motivos para se arrumar. Ela apenas escutou sabendo que não haveria qualquer reação que pudesse fazer diferença. Ela mesma se olhou e deu de ombros. Pisava o chão de meias e ainda vestia o moletom que usou para dormir.

Voltou para o quarto da Sofia, improvisado de home-office, com ela no colo, já mais calma. Foi até a janela e lá estava seu rosto refletido novamente no vidro. Pegou algumas pontas do cabelo e cheirou. Pensou: “preciso lavar hoje, sem falta!”

Agora fitava a paisagem do alto do décimo andar e disse a si mesmo que ainda retornaria àquele devaneio. Queria estar preparada. Para quando o amanhã voltar.

Paulo Maia é publicitário, um pensador livre e morador do Morumbi que mantém sua curiosidade sempre aguçada

Imagem destacada da Publicação: 
Imagem por Emiliano Vittoriosi

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