Instinto materno. Será?

Claudia Alaminos

Será que existe instinto materno? Não? Ok, existe, mas só em situações bem específicas.
Vamos começar falando sobre o que é instinto? Fui procurar definições e olhem o que encontrei:

1. Impulso que faz um animal executar INCONSCIENTEMENTE atos adequados às necessidades de sobrevivência própria, de sua espécie ou de sua prole;
2. Impulso natural, INDEPENDENTE DA RAZÃO, que faz um indivíduo agir com uma finalidade específica;
3. Predisposição inata para a realização de determinados comportamentos caracterizados sobretudo por uma realização ESTEREOTIPADA, PADRONIZADA, PRÉ-DEFINIDA.

Daí podemos concluir que tudo o que é instintivo no ser humano é vinculado à nossa porção animal, irracional. O que explica alguém pular num rio ao lado de um jacaré para salvar seu filho ou se atracar com um assaltante armado para conseguir tirar sua filha da cadeirinha no banco de trás antes que ele leve seu carro? Isso é instinto.

Quando regidas pelo instinto não temos tempo para refletir, não temos dúvidas de como agir e normalmente não nos arrependemos do que fizemos, mesmo que tenhamos nos ferido ou corrido perigo.

Imagem por Kelli McClintock

Mas o ser humano não é lá um animal muito instintivo, natural. Somos seres culturais, com valores e crenças. Assim, na escala evolutiva, somos os animais menos regidos pelo instinto, que é algo primitivo.

A maternidade sofreu inúmeras mudanças durante o passar do tempo. Na Idade Média, por exemplo, as crianças tinham mães de leite, e por volta dos 7 anos saíam de casa para viver com outras famílias na condição de aprendizes. Então as mães na Idade Média não tinham instinto e agora nós temos?

Não é isso. O conceito de instinto materno parece ter sido construído mais recentemente. Algo que deve ter surgido quando a maternidade passou a ser sinônimo de completude e felicidade e, por consequência, passamos a ter que ser (ou aparentar sermos) mães perfeitas.

Então começamos a nomear nossas decisões como instinto. Ouvimos coisas assim o tempo todo: vou usar meu instinto para decidir amamentarei ou darei mamadeira ao meu filho, meu instinto de mãe diz que esta é a escola ideal, meu instinto me diz que não devo dar alopatia para meu filho.

Imagem por Benjamin Manley

Mas onde está o instinto nos fatos acima? Eles não surgiram instintivamente. Eles são decisões. E como mães devemos assumir que as tomamos visando o melhor para nossos filhos. Chamá-las de instinto é pura defesa e medo de errar.

Por que tentamos nos esconder atrás do instinto para não justificarmos nossas decisões? Se quisermos viver uma maternidade saudável e com menos culpa, temos que assumir que tomamos sim decisões, algumas certas, outras erradas. Que podemos mudar de opinião ou voltar atrás, mas que sempre, sempre, as tomamos com intenção de acertar, de fazer o melhor para nossos filhos.

Mães, nosso poder ao criar e educar uma criança é único, e nosso amor enorme. Atribuam menos decisões ao seu instinto, ajudem outras mães a tomarem contato com suas próprias decisões e valores, julguem menos quando não concordar com eles. Não abram mão de sua autoridade colocando-a na cesta do que vocês nem pensaram para fazer. Somos todas mulheres pensantes e apaixonadas, que erram e acertam

Abraços maternos

Claudia é mulher, esposa, mãe (de um rapaz e dois gatos), fonoaudióloga, psicopedagoga,
educadora parental em Disciplina Positiva, moradora do Morumbi e futura psicanalista.
Sem Educação nada é possível.
@claualaminos.

Imagem destacada da Publicação:
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