Sem tempo para sonhar

Paulo Maia

Eu e Minha Visão

Hipnotizado pelas luzes
Viajei nas nuvens
Que eram cores em vida

A paisagem tão exótica
Tão lúcida, tão lógica
E um som tão inibido

De repente como num instante
As luzes me ofuscaram a visão
Tão gelada era a escuridão

As cores que eu via e sentia
Transformaram-se em negro
E o meu apelo era…

Só por isso senti medo
Vivia cada minuto uma hora
A hora de que o nada importa

Hipnotizado pelo sol
Senti a mais estranha sensação
O mundo dava voltas
E eu parado estava seguro

Seguro eu e minha visão
Somente eu e minha visão

Último Momento

Não me conte mais nada
Esconda sua risada
Desperte no seu peito uma dor
Um pouco mais de sal
Nesse nosso mingau
Mas não tão desse jeito com pavor

O sol já vai se pôr
Cadê o nosso amor?
Nossa hora por um instante de calor
A história e seu olhar
“O Velho e o Mar”
Lua quarto minguante sem temor

Atravesse o oceano
Viva bem mais esse ano
E diga seu adeus ao horror
Escreva uma carta
E diga se maltrata
Um fogo acendeu seu valor

No nosso apartamento
No último momento
E deite-se comigo on the floor
Não pode ser depressa
Se existe mais conversa
Há sempre um perigo de amor

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Limites

Trancado no quarto escuto os gritos de horror
A escuridão apagou as cenas de amor
E o meu passado esperou
E o meu tempo se acabou

A rosa não se abriu, murchou: acabou-se o instante
Há sempre um vazio no interior dos livros da estante
E a paciência se esgotou
E o mundo todo se entregou

Vivendo e correndo eu vou aprendendo a mentir
Os caminhos que me ensinaram, vivo a omitir
Mas o que me leva é a canção
E o meu corpo é todo vibração

Quando espero algo acontecer, o tédio me dói
As lembranças do meu saber, a cidade constrói
A fonte de energia é meu viver
O futuro é poesia, quem vai saber?

E o passado agora, o que importa?
Passou-se as horas, fecha-se a porta

Sem Tempo Para Sonhar

Estou sentado aqui vendo o sol se pôr
Enquanto o mundo grita toda a sua dor
Os carros passam longe de onde eu estou
Por perto só a grama onde meu corpo repousou
Ah! Quem me dera ser livre
Estar de fora de tudo que existe
Mas não tenho tempo para sonhar

A vã filosofia na qual se acreditou
Acabou com a alegria de tudo que ficou
Todos os nossos valores em dúvida estão
Também nossos conceitos sem raízes no chão
Ah! Quem me dera ser mágico
Para acabar com tudo que é trágico
Mas não tenho tempo para sonhar

Resolver problemas usando o que eu sei
Somente seria possível dentro da minha lei
Mas para relembrar, eu vejo o sol nascer
Enquanto o mundo berra pelo direito de vencer
Ah! Quem me dera ser imortal
Estar de fora daquilo que é normal
Mas não tenho tempo para sonhar

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Corpo Ferido

O que eu posso dizer a você? Tudo é cinza e nada é seguro
Minha vida se prontificou a desenhar todo o meu futuro
Minha promessa de paz de espírito, é transporte ao meu pensamento
Dou-lhe todos os meus sentidos: claro, auditivo e atento

É o corpo ferido e nada mais
Faça seu tempo (enquanto há tempo)
Faça viver!

Estou no fim das últimas linhas de mais uma página da minha história
Sentimentos, amores, verdades, fazem parte de toda a memória
Eu conheço todo o infinito que para mim não surpreendeu
É o traço da minha vontade em aceitar tudo o que não é meu

É o corpo ferido e nada mais
Faça seu tempo (se houver tempo)
Faça viver!

Corro, eu morro, eu vivo, eu canto
O mundo precisa de mais um poeta
O discurso é o que importa para toda a minha coleta
Na verdade eu não posso dizer o que sinto nesse universo
Dar sentido a quem entender por mais longe que se esteja perto

É o corpo ferido e nada mais
Faça seu tempo (dentro do tempo)
Faça viver!

Um Homem

Um homem caminhou demais, sentiu o cansaço, se abateu
Caminhou demais, olhou seu passado e sofreu
Não aguenta mais
Que fim o levou?

Um homem urrou demais, a dor o abalou, caiu
Gritou demais, chorou, secou seus poros
Não aguenta mais
Que fim o levou?

Depois na calmaria recitou seus versos de amor a uma mulher
Sua amada
E declarou paz à vida
Mesmo sem nada a viver!

Um homem que lutou demais, viveu e viveu
Mas se esqueceu de se livrar das grades da ilusão
Da estrada, da paixão
Que fim o levou?

Bebeu o sangue negro de todos os anos e disse não à solidão
Uniu-se à mulher
Mesmo sem nada a viver!

Este homem amou demais e olhou para o futuro e cuspiu
Sonhou demais, morreu mesmo assim, neste fim
Mesmo sem nada a viver!

Paulo Maia é publicitário, um pensador livre e morador do Morumbi que mantém sua curiosidade sempre aguçada

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