Do que tem se alimentado nossa alma nos dias de hoje?

Paulo Maia

O homem é, no todo, menos bom do que imagina ou deseja ser

Carl Gustav Jung

Hoje me encontro aqui, do alto do início da segunda década do que convencionamos chamar de século XXI, divagando sobre esse nosso momento. Sim, mais uma vez. Vejo e ouço muitos dizerem que o momento vai ensinar algo e que sairemos melhor. Isso é muito improvável e crer nisso pode denotar um pouco de infantilidade. A natureza humana não mudou um milímetro desde nosso surgimento na terra, e se não agimos de forma mais selvagem hoje, é por conta da cultura, que nos impõe regras e leis, e não de nossos instintos. Sem ela, somos ainda animais lutando por sobrevivência, vaidade, orgulho e poder.

Já escrevi anteriormente que a espécie passou por coisas piores na história e, no entanto, não se mostrou melhor. A sensação de que o comportamento humano “melhorou” em comparação a uma época passada, se dá mais pelos freios impostos em determinadas atitudes, através de formas repressoras implementadas ao longo de um período, e não porque de alguma forma “evoluímos”. É possível educar o ser humano na forma como o cânone universal entende como ideal? Sim, mas, como dizia uma piada antiga, se der um tapa muito forte em suas costas, o ser humano cai de quatro e não se levanta mais. Ou seja, a educação é aprendida e precisa sempre ser praticada desde o primeiro minuto em que acorda na busca de se criar, no mínimo, um hábito. Já a selvageria é inata e basta apenas um estalo para despertar. Está em nossas entranhas e, como diz um colega meu, se quer saber o quanto você pode ser letal, basta ver quando se está com pressa.

Os exemplos diários de gente tirando proveito da pandemia são inúmeros e demonstram não uma ruína humana, mas um comportamento padrão. E vem de qualquer lugar, de qualquer classe social, não importa a formação. Ricos, pobres, letrados ou ignorantes. E, principalmente, autoridades. Pois é. A questão é de natureza humana.

Imagem por Joel Burgess em Unsplash

Os gregos e o pensamento secular trouxeram essa ideia de que o ser humano poderia ser autônomo. O saber religioso, especialmente das religiões de origem abraâmica, veem o ser humano como insuficiente (no sentido de que sua existência ocorreu por Deus e depende Dele) e, o cristianismo implementou inclusive o conceito dos pecados. Muitas teorias filosóficas nascidas depois do século XVIII já começavam a ver o ser humano com uma certa insuficiência ontológica, especialmente na psicanálise. Mas no geral, vemos mesmo que darwinianamente somos animais que, para poder sobreviver no processo evolutivo, pegamos atalhos e criamos cultura e tecnologia como extensões de nossos membros para nos capacitar a tentar viver com o mínimo de dor e o máximo de prazer. E o desenvolvimento tecnológico é vista como “evolução” humana, quando na verdade, é puramente volume de conhecimento adquirido, como em camadas de saber.

Se nossa forma de vida chegou até aqui bem-sucedida, não foi se adaptando à natureza. Pelo contrário. Foi justamente alterando e criando um supra ambiente (superestrutura), buscando um mundo ideal, que nossa espécie segue viva, se espalhando progressivamente. A mais remota ancestralidade humana já nos provou que, para que se mantivessem vivos, tiveram que criar ambientes para suportar o clima, se alimentar e se proteger.

Quando paramos para pensar em tudo à nossa volta, nos surpreendemos pela vertigem que tem sido a história da humanidade até agora. Quer um exemplo banal? Estamos acostumados a imagens do espaço e especialmente do planeta Terra, a blue marble, como diziam os primeiros astronautas. Mas até a viagem do russo Gagarin, ninguém tinha visto a Terra e não sabíamos sequer que ela poderia ter esse tom azulado. Conhecimento e tecnologia avançam à velocidade da luz e logo deixa obsoleto o que se sabia até ontem. Mas nossa estrutura biológica e de funcionamento psicológico ainda é das estepes africanas de 200 mil anos atrás.

Imagem por Steve Halama em Unsplash

Se faz importante localizar nossa narrativa histórica. Para nós, seres humanos, é importante destacar um ponto de observação. Movemos pelo mundo e pela vida através do vetor de uma localização. Raciocinamos com o tempo e o espaço. Passado, presente e futuro existem em nossa substância e medem nossa vida tanto em qualidade como em quantidade. Apreendemos as coisas que vemos e sentimos, produzimos conhecimento e significado. E então, nos identificamos e assim nos posicionamos na imensidão do horizonte.

Mas o que isso tudo pode significar diante de nossa capacidade de mudar coisas? O que poderia ter acontecido à espécie sem um delírio em busca de algo além da sobrevivência? Talvez pouco ou nada. Ou o suficiente para que o ser humano reivindique este mundo para si, e dessa forma, subjugar todas os demais seres vivos e entender que pode manipular qualquer coisa para encaixar em seus sentidos. Ou fazer seus sentidos adaptarem se a qualquer coisa.

E o conhecimento produzido até agora ajuda, sem dúvida, em grande parte, na nossa jornada da vida. Mas nem tudo é certo e seguro, afinal, a ambição é um terreno que não percebemos estar até nos destruir. A linha que separa o que pode ser considerado suficiente do que é excedente a uma determinada condição é invisível e se altera conforme as situações em que nos encontramos. Somos a falta e o excesso da nossa própria natureza. Somos criaturas capazes de feitos fantásticos e extraordinários, assim como também dos maiores horrores que somente nossa mente é capaz de imaginar e de nossas ações engendrar.

Imagem por Steinar Engeland em Unsplash

O mal-estar que sentimos, especialmente na modernidade, é uma condição da existência. Pode ser uma força que nos faça sair do lugar e assim agir sempre em busca de uma situação melhor para nossas vidas. Mas temos que ter em mente que o ser humano não é nem o bem, nem o mal. Somos o que somos e caminhamos com a certeza de que não conseguiremos deixar de evitar entrar em conflito conosco, jamais. Somente os paranoicos conseguem fugir de si mesmo. E mesmo assim, apenas de vez em quando.

Não sou religioso, mas nestes tempos, a oração da serenidade, reivindicada pelo teólogo Reinhold Niebuhr pode ajudar. Sabe, aquela que pede ao Senhor, serenidade para aceitar aquilo que não posso mudar, coragem para mudar o que me for possível e sabedoria para saber discernir entre as duas? Mas tem um antigo dizer dos índios americanos que particularmente gosto muito: “dentro de mim há dois cachorros: um deles é cruel e mau; o outro é muito bom. Os dois estão sempre brigando. O que ganha a briga é aquele que eu alimento mais frequentemente”

Conhecemos melhor as pessoas diante de situações nas quais se exige coragem.

Paulo Maia é publicitário, um pensador livre e morador do Morumbi que mantém sua curiosidade sempre aguçada

Imagem destacada da Publicação

Imagem por DAVIDCOHEN em Unsplash

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Comentários

  1. Paulo… Pauloooo, o que posso dizer sobre o seu texto: apenas que real e presente. Um belo texto que parece mais um desabafo.

  2. Paulinho, Luis Miari. Tá bom meu amigo.
    Quando a tempos falávamos que “passar uma chuva” seria uma coisa passageira, jogo rápido, porém, hoje, vivemos uma precipitação atmosférica daquelas onde é tanta água que esperamos, esperamos e nada da chuva passar. Infelizmente hoje após acharmos que algo de bom poderíamos tirar disso tudo infelizmente nem uma coisa, a chuva não passa e o ser humano continua do mesmo jeito.
    Forte abraço!

    • Luisinho! Sem dúvida, meu amigo! Estamos passando por momentos difíceis e precisamos estar bem atentos à realidade. Há pessoas que merecem nosso respeito, mas há outras que devemos desconfiar de suas intenções! Abraços


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