Redação: mocinha ou vilã

Por Marcelo Cesar Cavalcante

Não são raras as vezes em que o professor de redação presencia situações de pavor ou de fuga quando propõe uma redação aos seus alunos. Olhares enviesados, desculpas inimagináveis, narizes torcidos e momentos de angústia perante o que dizer diante da folha de papel em branco ou da tela do computador iluminada. É que por muito tempo, a redação serviu como instrumento de punição para a turma mais irrequieta ou agitada. Servia como uma moeda de troca: “Ou vocês fiquem quietos, ou vou dar uma redação no final da aula valendo nota”, dizia o professor com o poder de fazer calar uma turma inteira.

Outra prática recorrente era o fato de a redação ser utilizada de modo descontextualizado, como pretexto para a correção de “erros gramaticais” e, nesse caso, a angústia do aluno aumentava na medida em que o professor devolvia o texto “hemorragicamente” tingido de vermelho. Que desespero!

O próprio autor deste texto foi vítima desse ensino coercivo e coercitivo da redação e os exemplos acima são apenas alguns de uma lista longa, a qual já foi estudada por pesquisadores e acadêmicos que denunciaram esta prática traumatizante e torturante da redação de outrora. O ensino tradicional da redação acabou por imputar-lhe a pecha de vilã.

Felizmente, o tempo passou! E, como dizia o poeta Camões: “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”.  E, seguindo as mudanças históricas. sociais, culturais, econômicas da sociedade, preocupado com desenvolvimento integral e valorizando o ensino das competências socioemocionais do educando, o Colégio Anglo Morumbi, sempre à frente de seu tempo, antecipou-se à BNCC e, em 2012 aderiu ao programa O Líder em Mim que transforma diariamente a vida de alunos e o cotidiano escolar. Com uma metodologia embasada no livro “Os 7 hábitos das pessoas altamente eficazes”, de Stephen Covey, os alunos são levados a refletir sobre formas diferentes de enxergar as situações e, assim, conseguem alcançar resultados diferentes e consistentes nos aspectos de liderança. O Colégio Anglo Morumbi foi a 1ª Escola Farol do Brasil, o que significa o reconhecimento internacional pela excelência de seu trabalho no ensino de liderança.

Sempre fiel em seus três pilares (o acadêmico, o socioemocional e a inovação), o ensino de Produção de Texto no Colégio Anglo Morumbi assume uma concepção interacionista, funcional e contextualizada da linguagem “em situações de atuação social e através de práticas discursivas, materializadas em textos orais e escritos.” (ANTUNES,2003).

Isso significa dizer que as relações interpessoais são realizadas por trocas simbólicas caracterizadas pela linguagem. É por meio da linguagem verbal que as pessoas trocam informações, compartilham crenças, opiniões, conhecimentos, constroem sua identidade e (re)conhecem a identidade do outro. A linguagem é o primeiro elemento de mudança que deve se configurar à nova realidade e ao novo perfil de um sujeito de direitos e deveres, responsável e cidadão ético. Essa nova configuração da educação exige não só a formação de conhecimento e informação, mas também é mister o desenvolvimento de processos formativos que levem à mudança de comportamentos, atitudes, mentalidade e valores dos diferentes sujeitos incluídos no processo educativo.

Dessa forma, mais do que aprender técnicas de escrever textos, a disciplina Produção Textual busca formar nos alunos uma competência argumentativa, que a Profª Vera Maria Candau (2013) a define como:

Uma competência importante que deve ser desenvolvida na formação de um sujeito de direitos é o uso da palavra e a capacidade argumentativa, para ter condições de defender com consistência seus direitos e os das outras pessoas e grupos. Fazer uso da palavra e não da força, da persuasão e não da imposição é uma habilidade importante a ser cultivada. Todas estas capacidades empoderam o sujeito, desenvolvem sua autoestima e autoafirmação como cidadão(ã) comprometido(a) com o bem comum e o sentido do público.

A todo o momento nos encontramos em situações de argumentação em que opiniões, valores, crenças, ideologias diferentes podem acabar gerando algum tipo de conflito. Nesse sentido, defendemos que a primeira mudança rumo à formação da cidadania deve ser na linguagem, ou seja, na forma de comunicação com o outro. Dessa forma, é preciso desenvolver uma capacidade argumentativa que substitua a violência física e simbólica pelo poder do convencimento, da persuasão e não da manipulação e aniquilação do outro.

Portanto, o ensino de Redação e as práticas de linguagem se situam no campo da estratégia, da influência e da ação.

Partindo do princípio de que a escrita, por ser uma atividade interativa, implica uma relação colaborativa entre duas ou mais pessoas, o ensino de Redação- sobretudo nos anos finais do Ensino Fundamental- trabalha com situações reais de comunicação relacionadas aos diversos contextos sociais em que os interlocutores estão envolvidos. O ensino se dá por meio de gêneros textuais presentes no cotidiano sociocomunicativo dos usuários da língua- passando pelo gêneros orais, aos gêneros escritos surgidos com o advento das modernas tecnologias e redes sociais até os gêneros e tipos característicos dos processos seletivos para acesso às Universidades- como Enem, Fuvest, Unicamp, Unesp e outras. Contudo, as semelhanças e diferenças do tipo de redação nos processos seletivos do ensino superior é assunto para outro texto.

Dessa forma, os alunos aprendem a realizar um planejamento estratégico, com um objetivo a ser alcançado; mobiliza recursos linguísticos e argumentativos para atingir a finalidade da comunicação e negocia sentidos para garantir o efeito pretendido no receptor. Os alunos aprendem que a produção textual é um processo de adequação, de mobilização de estratégias para atingir a finalidade do ato comunicativo. Por essa razão, são utilizados diversos tipos de linguagem multimodais que são acionadas no momento de interação entre os interlocutores.

Assim como na vida, os alunos percebem que os sentidos da linguagem são interdependentes, são negociados entre os sujeitos envolvidos na comunicação. Com efeito, os alunos vão desenvolvendo a autoconfiança, a autoestima e a segurança na produção textual uma vez que percebem que a escrita envolve etapas de planejamento, operação e revisão.

Em suma, a disciplina Produção Textual tem como finalidade primordial transmitir ao aluno uma imagem de “mocinha”, de “heroína”  que vai lhe ajudar a ter sucesso e realização tanto no seu desenvolvimento pessoal quanto profissional, pois, defendemos o seguinte preceito: “Quem domina a língua, conquista o mundo”.

 

Referências:

ANTUNES, Irandé. Aula de português: encontro e interação. São Paulo: Parábola Editorial, 2003.

 CANDAU, Vera Maria(org.) Educação em Direitos Humanos e formação de professores. São Paulo: Cortez, 2013.

CAVALCANTE, Marcelo Cesar & SILVA, Rita de Cássia. ARGUMENTAÇÃO: UM DOS PILARES PARA A FORMAÇÃO DA CIDADANIA. Revista Filosofia, Ciência e Vida. Disponível em: Portal do Saber.

Marcelo Cesar Cavalcante é Professor de Produção de Textos, nos Anos Finais do Ensino Fundamental, do Colégio Anglo Morumbi.

 

 

R. Diogo Pereira, 324
Vila Suzana, São Paulo – SP
Telefone: (11) 3740-1000

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