O mundo está cada vez mais besta

Paulo Maia

Meu caro leitor e minha cara leitora, não temos vontade, às vezes, de dar aquela “viajada” momentaneamente? Tomar um pileque ou fumar alguma coisa que possa nos fazer flutuar alguns centímetros do chão? Sairmos um pouco de cena no momento, afinal convenhamos, não há nada de bom acontecendo. Segure-se! Hoje estou azedo. Risadas?

Tragicamente ainda temos a pandemia ceifando vidas e desenganando muitos que sofrem com suas sequelas. Triste, muito triste! E seguimos tocando a vida, meio que tendo que olhar a tragédia de lado, pois apesar de tudo, a vida não parou e temos que continuar seguindo de um jeito ou de outro.

Parece que o tal do novo normal prometido pelo marketing de boca aberta não tem trazido nada de novo mesmo. Apenas nossa cretinice enrolada com uma boa dose de egoísmo em, por exemplo, escolher qual vacina tomar em meio a um grito paranoico de um doido querendo, ao custo da estupidez alheia – e de violência explícita –, se manter no poder. E lembrar que há alguns meses, vacina era algo pela qual torcíamos e sua tangibilidade não tinha data!

Observo no rosto das pessoas, em suas disposições e principalmente nas expressões de suas palavras, um precipício a alguns metros além da retórica pela segurança de nossa saúde. Apenas alguns poucos mantém uma certa lucidez para o momento tendo muito cuidado com o que pensa, pois otimismo exacerbado é visto com desconfiança. Nesta área estou entre a frase de Confúcio que diz que “o pessimismo torna os homens cautelosos, enquanto o otimismo os torna imprudentes” e a de Voltaire, desbocado, que nos alerta que o “otimismo é a mania de sustentar que tudo está bem quando tudo está mal”. Mais risadas, não?

Mas junto com a morte, a pandemia trouxe mais lenha para jogarmos na fogueira das vaidades humanas. Trouxe mais desconfiança na cabeça dos que buscam por conspirações que dizem estar ocorrendo debaixo de nossos narizes. E tem deixado também mais sem cor a já sem graça a vida que levamos.

Não estou culpando só a pandemia por ter deixado a vida mais besta, é claro! Mas acho que ela tem mostrado, a quem leva a vida a sério, que diante da tragédia, as tolices que achamos importantes nos deixa ridículos e miseráveis. E um pouco de resignação e humildade nos faria bem.

Gerações anteriores, como a minha, mas sem ainda os rótulos tolos que existem hoje, reclamavam do uso da camisinha no sexo. Mais os homens, claro. Se dizia que parecia estar chupando bala com a embalagem. Vejam! Os tempos estão tão bestas, que me pergunto se, hoje, eu poderia estar escrevendo isso. Pois é. Muitas vezes tenho a impressão de que viver hoje é chupar uma bala com sua embalagem. Está tudo tão sem sal, nem açúcar, porque ambos fazem mal. Vivemos sem tempero e tendo de engolir tudo ainda meio cru.

A vida passou a ser apreciada pelo que pode ter de virtual. Aqueles que ainda fazem algo no real, o fazem para ser consumido pela tela do celular. Vamos, ou melhor, íamos a um evento ao ar livre, mas boa parte do tempo, passávamos “filmando” como prova de nossa presença e para guardarmos para a posteridade. O real só tem graça, só vale, se visto virtualmente por um dispositivo tecnológico. A velha fotografia, em si um artefato de luxo da memória, não tem mais espaço na tecnologia cujo desenvolvimento há muito deixou de ser para atender às nossas necessidades. O vetor hoje é outro. Dia a dia inventamos uso para as quinquilharias que surgem a todo momento. E se não for assim, corremos o risco de sermos nós o descartável, por não mais sermos necessários na equação do mundo tecnológico.

Além da fatalidade que a pandemia trouxe a muitos a as restrições àqueles que ainda sobrevivem, ela talvez tenha apenas nos mostrado que muitas da vicissitudes que aprendemos a idolatrar nas últimas décadas e a considerá-las como “estar atualizados” ou com espírito sempre jovem trata-se, na verdade, de uma condição ridícula e, quando conseguimos ficar um pouco mais sóbrios e menos tontos (leia-se mais velhos, ou dourando a pílula, mais maduros), vemos o embuste em que nos encontramos. E com um agravante: vemos que não é possível voltar para trás.

Quando o mundo lá fora enfim, nos chamar para brincar de novo, não avistaremos mais um parque de diversão, mas uma espécie de reality show, que terá de tudo, menos reality, mas no qual se espera que você se sobressaia de uma pegadinha constrangedora cujo intuito é mostrar que não há limites para a humilhação e o ridículo.

Um clique em um link indesejado embutirá em você um malware que apagará sua memória e então, você se tornará seu próprio clone e vagará misteriosamente entre clouds de uma dark web intermitente.

Diga-me sua opinião com sinceridade. O mundo não está cada vez mais besta?             

Paulo Maia é publicitário, um pensador livre e morador do Morumbi que mantém sua curiosidade sempre aguçada

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