Retrato em preto e branco de tons cinzentos

Paulo Maia

Existe verdade? O que ou como ela seria exatamente? Posso conhecer efetivamente algo de forma verdadeira? O que interpreto de um fato, pode ser considerado conhecimento? Perguntas que podem (e devem) ser encaradas com uma certa profundidade filosófica e ao mesmo tempo banais, dependendo do relativismo que se imponha a elas, mas que não deixam de ser intrigantes e provocativas.

Há pelo menos 2500 anos que alguns de nossa espécie se debruçam sobre a questão da verdade e tecem longas teorias e vastos sistemas que buscam mapear o que chamamos de conhecimento. Muitos acham que já temos conclusões suficientes e provas contundentes, porém há os que consideram que estamos ainda no curso da investigação e outros, mais céticos, de que não vamos chegar a lugar algum e que esta discussão é inútil e uma grande ilusão provocada pela razão.

Segundo o filósofo, matemático e físico francês, Blaise Pascal (1623-1662), “a razão engana os órgãos do sentido afirmando coisas que eles não podem tocar; e os órgãos do sentido se vingam da razão, fazendo com que ela veja coisas que não existem”. Queremos crer que conhecemos, mas há sombras no fundo de nosso ser, dos nossos sentidos, que ora duvidam, ora acreditam e nos confunde o tempo todo. A declaração de outro filósofo, também francês e mais recente, Michel Foucault, “O homem é uma invenção recente”, indicava que surgia ali pelo século XVI uma “disposição de saber” centradas na noção do homem. Nascia a subjetividade. Ou, pelo menos, com sua descoberta, segundo Merleau-Ponty (mais um francês!), tornava-se desde o século XVII, a garantia do conhecimento.

Essa intuição nasce com o “eu penso, logo existo” de Descartes – esses franceses, heim?! – que faz como ponto de partida de toda a certeza, até mesmo da existência do mundo, ainda que como representação, como um modo de tornar o mundo novamente presente como objeto, tanto do conhecimento como da ação humana: nasce a ciência moderna. Porém, Heidegger – ufa! Até que enfim um alemão! – dirá que essa concepção de mundo surge quando o próprio mundo torna-se, ele mesmo, uma concepção. Mas com isso o homem se isolou: ficou totalmente só. Um dos pilares para o Existencialismo, que trará Sartre, francês, claro, dizendo que “ninguém nasce sujeito, mas torna-se sujeito através do uso de sua liberdade”, portanto, “o homem precede a essência”.

Colocando a filosofia um pouco de lado, vemos que essa questão do conhecimento, do que é possível (ou se é possível) conhecer, o que pode ser verdade e se ela mesmo existe produz pouco eco em um mundo em que se briga pelo “direito” a ter uma “liberdade de expressão”, rachando o casco da nau em que se encontra a humanidade, permitindo justamente a inundação de verdades fabricadas, as populares “fake news”, e manipulação de opiniões através de teorias de conspiração. São elas que podem nos fazer náufragos?

São assuntos dos dias de hoje, especialmente em tempos de bolsonarismo (a versão jeca do trumpismo), mas que não são, nem de perto, fenômenos novos. Táticas para se manter ordem social ou criar pânico, medo e convulsões em multidões através de construção de narrativas enviesadas faz parte da forma como governantes ou líderes agem desde os primórdios da civilização. E não precisamos ir tão longe na história, basta estudar as tentativas de se criar narrativas de heróis, reescrevendo a história com interpretações das elites governantes, como foram Stalin apagando ícones da revolução soviética de fotos oficiais quando estes foram considerados traidores. E, cruelmente, foram “apagados” da vida também, assassinados pela ditatura do proletariado!

Pedro Américo, Public domain, via Wikimedia Commons

A historiografia brasileira tem também sua mácula de reviravoltas interpretativas. Praticamente desde sua descoberta, a história do Brasil é recheada de interpretações de grande engodo, na verdade. E talvez a mais famosa e cômica tenha sido a dos acontecimentos sobre a nossa própria independência. Na busca de se ter um povo orgulhoso do nascimento de sua nação, foi preciso construir um enredo heroico e grandioso para simbolizar a ocasião. Parece-me que os fatos que realmente ocorreram não conseguiriam trazer o resultado desejado, muito pelo contrário, só criaria embaraço e vergonha, justamente a um povo que até hoje, ainda se sente inferiorizado diante do mundo civilizado.

O relativismo e as liberdades prometidas -e muitas vezes, garantidas – que teorias sociopolíticas relegaram ao mundo ocidental, ainda que tenham permitido o desenvolvimento de ideias e visões de mundo que trouxeram evidentes benefícios no nosso dia a dia, instalaram também a secularização e diversos outros mecanismos interpretativos de como cuidar “de nossa vida”, criando mais abismo, não apenas material, mas principalmente em como idealizamos a vida.

Mas não escrevo isso para provocar algum mal-estar. Pelo menos, não fora minha intenção. Apoio-me na declaração de Pascal que coloquei acima para evitar concluir qualquer coisa. Mas como qualquer um da espécie, sofro do mesmo mal dos demais e, portanto, não consigo controle em relação aos meu sentidos ou a movimentos que meu cérebro faz na produção de pensamentos e sistemas de significado. O que me faz lembrar do austríaco Freud (que nasceu em um lugar da Europa que nem existe mais, o império austríaco, em que se encontra hoje a República Checa): constranger nossos instintos básicos nos faz civilizados, porém melancólicos. Não há saída. O oposto não nos faria mais felizes, mas dementes!

Mas há uma batalha diária que devemos a nós mesmos. É buscar sintonia com a realidade no que ela tenta nos dizer com sua concretitude fria e indiferente. Criar falsos mundos e interpretações equivocadas não nos salvará, muito menos seguir a que outros nos apresentam como “verdades”. Estas sim, podem com mais certezas, nos levar à ruína e à destruição.

Talvez não tenhamos que ser grande coisa, mas viver como um tolo, parece me ser uma degradação. Procurar conhecer e tentar achar uma relação do que você descobriu com o que ocorre na realidade, pode ser uma tarefa em vão e não nos levar a lugar algum em relação a isso ter algum significado, mas nos tira da inércia da imbecilidade e pode trazer algum gosto pela vida. Além do fato inegável de que foi desta maneira que a espécie tem tido sucesso na sua sobrevivência!

Viver como um imbecil e acreditando em coisas que não se encaixam ou sem paralelo no real, pode tornar mais impossível a tarefa de criar qualquer sentido para a vida.

Paulo Maia é publicitário, um pensador livre e morador do Morumbi que mantém sua curiosidade sempre aguçada

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