“Não Olhe para Cima” poderia se chamar também “Não Olhe para si mesmo”!

Paulo Maia

Filme de Adam McCkay com Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence parece subverter a receita hollywoodiana de sagas apocalípticas

Está nos cinemas brasileiros e também disponível no streaming, o filme “Não Olhe para Cima” (Don’t Look Up – Netflix 2021), de Adam McKay, com Leonardo DiCaprio, Jennifer Lawrence, Cate Blanchett e Meryl Streep, apenas para ficar com o time do alto escalão. Mas claro, para os contemporâneos e hyper midiáticos, o filme ainda conta com Ariana Grande, fazendo o papel, praticamente, dela mesma.

O filme, em minha opinião, é ótimo! E se me permite aprofundá-la, vejo que ele subverte a infantil perspectiva que acabei tendo de filmes que falam do fim do mundo, acho que muito por conta de anos vendo produções americanas sobre temas apocalípticos.

Se até agora você não sabe do enredo, trata-se de dois astrônomos, um professor (DiCaprio) e uma estudante de pós-graduação (Lawrence) que descobrem um cometa vindo em direção à terra que colidirá em 6 meses e, chocados claro, com a descoberta, levam a informação à presidente dos Estados Unidos (Streep), pois sendo a autoridade máxima, acreditam que ela possa acionar todo o seu poder e estrutura econômico-militar, para ver o que pode ser possível fazer diante de uma catástrofe que se torna cada vez mais eminente a cada minuto que passa.

É neste ponto em que tudo o que imaginamos de roteiro que possa nos entreter entre pipocas e refrigerantes se altera. E o que vemos a partir daí poderia ser entendido como algo distópico, meio nonsense e sem muita referência com a realidade. Pensamos então que o filme vai se desenrolar em uma comédia, porém nos minutos que se seguem, não achamos muita graça em nada e começamos a pensar que ele é ruim. E nos enganamos.

Então, é neste momento em que, embasbacado com o que nos entretém e quase se engasgando com a pipoca, percebemos que o filme é um retrato mais do que verossímil dos nossos dias atuais, especialmente para quem vive na América do Norte e aqui, nos tristes trópicos tupiniquins.

Sim, a idiotice dos tempos atuais toma a frente e se encarrega de nos mostrar que o filme só pode ser compreendido e apreciado, sob o prisma do que temos vivido nos últimos tempos, em qualquer aspecto no que se organiza nossa vida hoje, seja política, social, cultural ou economicamente falando. Nada escapa.  

Não vou comentar o filme propriamente dito. Deixo apenas minha sugestão para que assista. Você acabará vendo que nada mais do que a própria realidade é que pôde sugerir um enredo como o deste aqui, cuja idiotia é o elemento comum entre ele e o nosso dia a dia.

Há de tudo: negacionismo e manipulação em massa pelas autoridades; mídia festiva que doura a pílula em relação a notícias que possam “deprimir” e que dá preferência em divulgar a vida amorosa ou escandalosa de celebridades; ou a uma mídia séria, que deixa de ser séria quando percebe que seriedade pode levá-los a perder audiência e patrocinadores; um cientista que se envaidece por um momento de notoriedade e a uma aventura sexual que claramente arruinará seu casamento; a presidente que se preocupa prioritariamente em manter apoio político de forma esdrúxula e de agradar seu financiador, que por sua vez, se vê como um semideus tecnológico que promete salvar, se não a humanidade, mas com certeza, sua própria pele com a cara de pau de ainda convencer o mundo de que a colisão do cometa trará ao mundo o lado positivo por que vai gerar empregos!

A semelhança com o que nós vivemos não acaba ai! Generais e ministros ridículos e subservientes, para não falar em assessores patéticos e ignorantes, que vem da própria família da presidente! Ou especialistas em marketing indicando que você – e o que tem a dizer – somente será importante se o índice de seus ranqueamentos midiáticos forem adequados.

E tudo o que a população consegue fazer é polarizar entre grupos que negam (“Não olhem para cima”) daqueles que se desesperam e pedem que algo seja feito (“olhem para cima”). Aqui há uma total crítica sobre posicionamentos ideológicos à direita e à esquerda, simplesmente trocando a direção de “para cima” e “para baixo”. A destruição provável do cometa é a metáfora do que tal dicotomia pode fazer a nós todos.

Enfim! E tudo vira meme em tempos de redes sociais com direito a dancinhas e cancelamentos imediatos de quem não está sendo legal: saco na cabeça deles! Mesmo naqueles que em algum momento jogaram em pró da idiotia.

Há muito mais coisa que possamos traçar paralelos com o que vemos ao nosso redor ou nas telas de nossos mobiles, mas a coluna precisa acabar.

Destaco aqui o que mais me chamou a atenção para este filme, e que contraria o manual de sucesso blockbuster hollywoodiano: não há heróis.

Percebemos ao final de que, de fato, ninguém é digno de salvação nesta pirotecnia e falácia em que se transformou a modernidade. Parece também que não há peito que mereça medalha ou algum nome que deva ser reconhecido no panteão de nossa cultura. Não há o que preste o suficiente.

Concluímos, sem nenhum pingo de vergonha, que pateticamente criamos um mundo que nos imbeciliza na medida em que nele vivemos para gozar pela sua tecnologia, e também quando negamos ou mimetizamos toda a realidade que não se encaixa em uma vida idealizada por crenças ou pelo puro marketing que, insiste em nos vender a ideia de que viver pode e deve ser uma festa.

Nesta toada, se não chegarmos a sermos nós próprios, os responsáveis por nossa destruição, em algum momento, a sorte o será.

E com o fim eminente, talvez reconheçamos que não seja mais possível salvar a vida, mas quem sabe possamos, em uma prece ao redor de uma última refeição, mesmo para os mais céticos, como um cientista, o que vale não é exatamente ter alguma crença ou religiosidade, mas uma oportunidade redentora para confortar uma alma outrora pecadora, mas que ainda ama sua existência.

Não deixe de ver o filme! Algo me diz que você vai gostar. E se identificar.

Paulo Maia é publicitário, um pensador livre e morador do Morumbi que mantém sua curiosidade sempre aguçada

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