“Ataque dos Cães” nos ganha pelos seus detalhes

La Dolce Vita

Paulo Maia

Detalhes costuram o sentido de toda a trama com uma sutileza que aos poucos nos enche de curiosidade pela psicologia de cada personagem

Ataque dos Cães” (The Power of the Dog, 2021 – Netflix), da diretora neozelandesa Jane Campion, foi o vencedor de melhor filme de drama no último Globo de Ouro e já desponta como um grande favorito ao Oscar deste ano. O filme, com Benedict Cumberbatch, Kirsten Dunst, Kodi-Smit McPhee e Jesse Plemons, baseado no romance homônimo de Thomas Savage, de 1967, é uma sublime história de dois irmãos fazendeiros em Montana, Estados Unidos, no ano de 1925.

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Sublime, porque é recheado de detalhes que não nos passam despercebidos. São eles que vão costurando o sentido de toda a trama com uma sutileza que aos poucos nos enche de curiosidade pela psicologia de cada personagem.

E estão em todos os lugares: nas imagens, nos gestos e nos diálogos. Já de início, escutamos Peter Gordon (McPhee) se perguntando que homem ele poderia ser, se não ajudasse sua mãe, e que tudo que ele quer, após o falecimento do pai, é a felicidade dela.

Mais tarde, vemos ele meticulosamente, usar folhas de partituras musicais para criar flores de papel que vão ornamentar a mesa do restaurante de uma hospedaria onde sua mãe trabalha. As mesmas que serão objeto de zombaria de Phil (Cumberbatch), um dos dois irmãos vaqueiros que chegam para uma refeição. Justamente o que se mostra ser o chefão, se impondo inclusive com seu irmão mais velho George (Plemons), e demonstrando toda sua valentia a qualquer um que possa perturbar seu momento de refeição.

Logo mais vemos que o centro da trama se dará entre Phil, Peter e sua mãe, Rose (Dunst). Acontece que George se casa com Rose, união que não é bem aceita por Phil, que a repudia e a maltrata, diminuindo-a e humilhando-a sempre que pode. Isso a faz se sentir infeliz, incomodada na fazenda, outrora apenas o lar dos irmãos, abusa da bebida e chega a desfalecer em um momento mais crítico.

Porém, e apesar de zombarias e da desaprovação da mãe, Peter acaba se aproximando de Phil, e, mais uma vez, são os detalhes que nos convidam a seguir o fio da meada para, aos poucos, entender todo o movimento da aproximação, e ver, ao final, todo seu significado e sentido.

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Antes, faço aqui um comentário, entre parênteses, para servir de contraponto ao que quero trazer como observação.

O faroeste no cinema americano foi, durante décadas, sob o olhar mais cínico, palco de exibições de valentia, demonstrações de coragem diante de adversidades e afirmação de conquistas de territórios pelo homem branco. Sempre em nome de justiça, um valor sempre inestimável pela sociedade.

E uma coisa também sempre foi muito definitiva em seus enredos: a indubitável sexualidade de seus personagens. Afinal, no épico do herói no Far West americano, seu final deveria ser recompensado com o amor da “mocinha” ou pelo menos, com uma gratidão dela pelo “bem” que sua saga realizou. Em muitos clássicos, o romance entre os protagonistas, na verdade, estava em segundo plano.

E temos que entender que este gênero fez muito sucesso em uma época que desejava ver histórias de heróis, e não sobre a psicologia dos personagens ou a demonstração de sentimentos que não fossem puramente ódio ou amor.

Somente hoje é que pode ser possível contar uma história que vá além de tiros e socos em um saloon sob a música inconfundível de um piano.

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Mas o tipo de história de “Ataque de Cães”, somente é possível ser contada, voltando ao meu ponto de vista, na sutileza de detalhes quase mudos, que se apresentam diante de nós, atiçando nossa curiosidade para, aos poucos, desvendar toda a trama

Ao contrário do também muito bom “O Segredo de Brokeback Mountain” (2005), de Ang Lee, onde a história principal recai sobre a paixão e o caso ardente de dois caubóis, este não explora a homossexualidade dos personagens como objeto do enredo. Ela apenas surge para indicar o fio condutor da aproximação deles para nos revelar quem é quem em um jogo de poder, influência e dominação. Olha ai! Surge como um detalhe que conduz a trama, não como um drama principal da história.

E é neste sentido que vemos que o bruto vaqueiro, que enfrenta seu irmão e impõe ordens aos empregados, que mesmo laureado com certa formação acadêmica, faz questão de não ceder a qualquer capricho alheio, nem mesmo tomar a um banho para sentar-se à mesa de um jantar, pode sucumbir diante de seu oponente frágil, aparentemente inepto ao mundo dos que lidam com gado, mas que demonstra uma atenção a minúcias (até quando consegue enxergar o mesmo que Phil nas colinas em frente à fazenda) que, no final das contas, é o que fará a diferença e o manterá a salvo, de uma ordem social marcada por machismo e as brutalidade. E assim, o possibilitará também, salvar sua mãe de uma vida infeliz.

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O romance e a adaptação para contar a história em duas horas de filme, mostra que a obstinação pela sobrevivência é nossa característica ancestral. E por ela, desenvolvemos todo um sistema de significado que irá justificar todo e qualquer ato que venhamos a realizar para garantir que estejamos ainda aqui quando o dia amanhecer. Nós e todos os que amamos.

Que bom que ainda fazem filmes para adultos.

Paulo Maia é publicitário, um pensador livre e morador do Morumbi que mantém sua curiosidade sempre aguçada

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