Mentira e dissociação

O uso da mentira como “segunda pele”

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Por Henrique Silva

O objetivo maior deste texto é o de oferecer uma reflexão provisória e inicial sobre as ligações entre o amplo fenômeno social e político das fake news e o uso “organizado e patológico” da mentira por determinadas pessoas.

No que diz respeito, mais especificamente, às fake news, ou mais recentemente denominadas de “desinformação”, não foram poucos os autores das Ciências Sociais que, nos últimos 40 anos, enxergaram a decadência do conceito de “verdade” e a consequente emergência de um período que alguns denominaram de “pós-verdade”. Teria sido no contexto dessa recusa em se buscar a verdade que teriam se expandidas as chamadas “narrativas”, que iam ficando, desse modo, para muitos, no lugar dos tradicionais discursos científicos e de formadores de opinião. Assistíamos a uma espécie de “inflação narrativa” que não fazia questão alguma de submeter-se a bases empíricas ou critérios institucionais mais amplos de atribuição de valor.

Notava-se, facilmente, que isso provocava um sentimento “triunfante” em muitas pessoas. Um misto de sentimento de “liberdade” e uma vontade de marcar posição destruindo ou recusando crenças oficiais e científicas, que teve como uma de suas principais consequências a enorme expansão do fenômeno do “negacionismo”. Também não preciso enfatizar que tal inflação de narrativas encontrava na expansão das tecnologias de comunicação e redes sociais o ambiente propício para ter “voz” e se autolegitimar. Então, fomos assistindo à noção de “verdade” se esmaecer e dar espaço à produção de distorções da realidade a partir de interesses, quase sempre perversos. E é nesse ponto que gostaria de enfatizar que a expansão destas distorções como uma nova regra social acabava fornecendo condições propícias e indutoras para a expansão de adoecimentos e quadros patológicos em termos de saúde mental.

E talvez a ponte entre este fenômeno social mais amplo das fake news e a questão da mentira patológica, que por vezes chega ao consultório, seja justamente a distorção delirante da realidade. Ou seja, ambos os fenômenos parecem se sustentar em mecanismos dissociativos, com um forte uso da defesa projetiva e apresentando alto potencial de destrutividade sobre seu entorno.

É neste contexto que podemos ver a expansão, portanto, do que posso chamar de uma “mentira organizada e patológica”, que adquire o papel de ser uma função do self, destinada a ficar como uma “segunda pele”, protetiva, entorpecedora, mas também possibilitadora de uma relação alternativa com a realidade externa. Claro que o custo de um processo assim seria o abandono da ideia de “verdade”.

A partir daí, teremos um self se apresentando a partir de suas “próprias verdades”, projetando medos e perseguições, agressivo, arrogante e negando a realidade externa.

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Vou elencar alguns pontos que considero interessantes para esta hipótese:

  1. Em primeiro lugar, o ambiente social em que vivemos é cada vez mais dessimétrico, ou seja, flagrantemente excludente em termos econômicos, competitivo à exaustão, individualista em termos sociais e ameaçadoramente autoritário em termos políticos, propiciando um solo muito inseguro para a constituição ou manutenção de uma consistente integração de self e a consequente conquista de um sentimento de pessoalidade, restando a muitos indivíduos forjarem para si modos de existência mais particulares ou grupais, baseados justamente em processos dissociativos;
  2. A partir daí, encontramos, então, o contexto para uma espécie de “tempestade perfeita”, ou seja, para a expansão de alguns fenômenos, como: o medo do colapso e da catástrofe pessoal; um grau de dissociação que permite a construção delirante da realidade externa; o uso maciço da projeção da persecutoriedade que assola o mundo interno; um excesso pulsional agressivo que transborda na forma de ódio; a necessidade de aniquilamento do outro, que surge como diferente e ameaçador, etc. Aniquilação do outro que, insisto, vai ficando no lugar da catástrofe pessoal, tão temida e projetada sobre o outro, para se experimentar sentimentos narcísicos reconfortantes;
  3. Aquilo que o indivíduo traz de vulnerabilidade “se encontra” com uma forma social ampla de responder ao medo do colapso e surgem as condições propiciadoras e estimuladoras de uma organização defensiva baseada na dissociação e na “mentira organizada e patológica”. E esta pode se sustentar sobre alguns modos de operação e estratégias de construção simbólica específicos visando a construção de uma narrativa que sufoca a vulnerabilidade que acomete a pessoa e entorpece o seu self, favorecendo uma relação distorcida com a realidade externa. Exemplos destas estratégias podem ser: um esforço de “racionalização” para construir uma cadeia de raciocínio persuasiva; um esforço de “universalização”, onde o particular é visto como interesse de todos; um esforço de “narrativização da tradição” reforçando o sentimento de pertença; um esforço de “deslocamento de objetos ruins” para o ambiente; um esforço de “simbolização da unidade”, com o uso de certos rituais símbolos para o reforço do sentimento de integração e de identidade; um esforço de “diferenciação” em relação ao outro; enfim, um esforço de “expurgo do outro”, visto como um inimigo perigoso e que deve ser alvo de ataque, para que se experimente, então, alguma segurança contra a vulnerabilidade pessoal, os medos e o sentimento de inexistência;
  4. É muito razoável que tais pessoas, no consultório, se apresentem acompanhadas por significativas dificuldades com relação ao processo analítico. Por exemplo: uma difícil entrada no mundo interior e infantil; uma fala evacuatória e desprovida de significados; uma forte dificuldade de associação em meio a um discurso fortemente organizado e lógico; uma quase impossível introspecção tranquilizadora, etc. Enfim, surge à nossa frente um self bastante enrijecido e sustentado em uma construção delirante da realidade externa, com um discurso de difícil permeabilidade e troca. O ar do consultório, então, fica como que envenenado por palavras “tóxicas”, e não é raro perceber-se a presença de um quadro de entorpecimento alienante que traz por trás de si esse mecanismo dissociativo que, ao fazer uso da mentira, cria uma proteção contra o trauma, que ameaça irromper;
  5. Logo se percebe, na situação analítica, que se trata de um self que não busca mais mediações na sua relação com o mundo e se sustenta basicamente em identificações extremadas, maciças. Isso pode nos ajudar a entender a rigidez de seu self e de sua construção delirante da verdade. Surge uma “verdade” que se apresenta de forma arrogante e prepotente mas que, justamente por isso, cria facilidades ao processo união a “grupos de iguais”, ou seja, de pessoas que também compartilham dessa vulnerabilidade, medos e ressentimentos;
  6. A “mentira”, portanto, vai surgindo de forma organizada e patológica, revelando um caráter dissociativo do self e um forte efeito entorpecedor sobre a relação com a realidade externa. Desse modo, ao sustentar-se em algum grau de dissociação com a realidade externa, este tipo de mentira surge como possibilidade de afastar não somente em relação à realidade externa, mas de si mesmo e das próprias questões traumáticas. A “mentira organizada” surge como auxílio a escapar-se à angústia e do trauma. Nesse momento, saltam aos olhos dois usos da mentira que estão para além de seu tradicional uso manipulativo, de controle e perverso. Trata-se de sua função de “negar a realidade” e tornar-se a “realidade psíquica”; e da função de “metáfora”, que forja uma realidade sugestiva, permitindo melhor acreditar-se nesta “verdade”, com promessas de recompensas narcísicas triunfantes, finalmente;
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Temos, então, mais do que o simples uso de um conteúdo mentiroso para se obter vantagens ocasionais, um “processo de mentir”, como nos diz Christopher Bollas. Um processo que reorganiza a realidade e leva a pessoa a viver uma experiência tamanha de liberdade, justamente a partir da dissociação do self.

Talvez isso nos ajude a entender a razão pela qual, nos tempos atuais, a reivindicação de uma delirante ideia de “liberdade absoluta” seja tão forte. O fato é que só se experimenta a tal “liberdade absoluta” num quadro delirante, mediante o processo dissociativo. Ou seja, em situações assim, há um confuso jogo de palavras entre a loucura e a sanidade, pois a “loucura”, para esta pessoa, seria exatamente aquilo que seria trazido pela verdade, enquanto a mentira lhe traz um manto de “sanidade”. Ou seja, os “loucos” são os que, até esse momento, se achavam “sãos” e “normais”. Há uma inversão propiciada pela dissociação e reorganização da realidade. Bollas, em seu capítulo sobre o “mentiroso”, no livro “A Sobra do Objeto”, nos traz uma possibilidade de entender todo este processo quando nos diz que, nessas situações, mentir é colocar vida no vazio.

O fato é que, com este “processo de mentir”, a mentira deixa o mero status de “fantasia” para se tornar uma “relação alternativa com a realidade”, fundamental à existência. São situações em que Bollas nos diz que o teste de realidade passa a ser a mentira. É ela quem permite alguma relação segura com o mundo.

Mas, “segura” em relação ao que? Do que é que o mentiroso tenta escapar ao distorcer a realidade?

A angústia, em suas formas muito primitivas e carregadas de ameaças colapsantes e catastróficas.

E o lugar de uma angústia assim é o das nossas experiências infantis mais remotas, quando, diante de um solo inseguro de confiabilidade e proteção, cruel e perigoso, tivemos de começar a colocar em cena o uso exacerbado de uma defesa por parte da fantasia para se alcançar algum consolo compensatório. Vamos experimentando formas alternativas de relacionamento com a realidade, únicas possíveis de ainda nos trazer alguma sensação de estar vivo. A mentira, então, vai surgindo e se organizando como aquilo que possibilita a neutralização de ameaças catastróficas com a recriação da realidade, tornando possível habitar o mundo, desde que ele possa ser reorganizado.

No que diz respeito ao manejo clínico, será muito útil atentar aos significados daquilo que é experienciado na contratransferência, afinal de contas como confiar na narrativa do paciente? Como escapar ao estado confusional, de ambiguidades, que experimentamos? Muito do ambiente primário do paciente será projetado na análise, especialmente na forma de privações, abandono e vivência de “loucura”, escondidos e disfarçados sobre o manto da raiva em relação ao outro, ou da ideia fantasiosa de alguém que se tornou “forte” desde cedo. Aí perceberemos que as tentativas de criar um mundo só para si começou muito cedo.

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Vemos, então, o quanto a mentira pode ser essencial para se experimentar alguma segurança que, ao deixar a verdade do lado de fora, cria como que uma “segunda pele” que serve como uma espécie de compensação para as falhas na constituição de um eu-pele. A mentira passa a ser, então, uma “função do self” que só vai tornando ainda mais difícil qualquer encontro com o self verdadeiro, o que possibilitaria algum processo transformacional na análise.

Qualquer aproximação com o self verdadeiros significaria uma aproximação com o colapso, a catástrofe, ou seja, com a privação experimentada, não pensada e transformada em trauma, deixando fantasmas na forma de ameaças de aniquilamento, abandono e castração. Então, a mentira organizada serviria como proteção à percepção de uma realidade que recrie a catástrofe, o trauma.

A “segunda pele” forneceria, assim, uma possibilidade de relação com o mundo, ainda que de forma absurdamente distorcida, maciçamente projetiva e potencialmente destrutiva.

E a nossa posição na clínica?

É sobre esta “segunda pele” que se debaterá nossa atitude clínica, buscando torná-la desnecessária para que a pele original, machucada e frágil possa emergir em toda a sua vulnerabilidade para, quem sabe, algo ainda poder ser feito em termos de um fortalecimento da integração e da confiança em relação à realidade externa e os objetos passem a ser percebidos objetivamente em suas possibilidades. Sob modos muito específicos, a psicanálise se apresenta como um local de resistência da “verdade”. Não de uma verdade transposta de um para o outro, mas uma verdade construída e encontrada a partir de si mesmo, no encontro com o outro. A psicanálise ainda é este lugar guardião da possibilidade de uma verdade que seja sentida como pessoal, fruto de minhas experiências no mundo, e não um produto ambicioso de minha fantasia, movida pelos meus mais aterrorizantes medos. De uma forma ou de outra, a mentira está sempre sob a mesa no setting analítico. E quando nos aproximarmos de nosso self verdadeiro nos aproximaremos um pouco mais da possibilidade de construir nossa verdade, na relação com o mundo. Afinal, somos o produto de nossos encontros com os objetos no mundo. Se isso falhar, um dos caminhos possíveis será o de cair na mentira patológica e organizada como forma ainda de experimentar algum sentimento de existência. Esse será nosso convite aos que fazem da mentira a sua segunda pele… a pele possível para viverem no mundo.

Henrique Silva é Psicanalista, Historiador e MSc. em Ciências Sociais, Coord. do “Grupo de Estudos Sobre a Obra de Winnicott” e do “Ciclo Anual de Seminários Winnicott”. Contatos: (11) 94392.3776 / [email protected]

@henrique_silva_psi

Jantar Solidário Associação Criança Brasil

A Associação Criança Brasil convida seu parceiros, doadores e vizinhos de alguma de nossas unidades para um jantar de confraternização e parceria. 

Será uma oportunidade de conhecer as pessoas que fazem a Criança Brasil e conversarmos sobre nosso trabalho e como contribuir com nossa missão.

Data: 05/06, das 18:30 às 22:30.

Local Restaurante Maremonti Vila Olimpia.

Rua Elvira Ferraz, 250

Convite individual R$200,00 

Parte da renda será revertida para a Criança Brasil 

As vendas estão sendo realizadas por esse link:

https://criancabrasil.colabore.org/jantarmaremonti

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