Skip to content
Moçambicana, é apresentadora do programa Primeira Página na Televisão de Moçambique (TVM) e traz aqui suas reflexões sobre a vida contemporânea.

Família, eu vou subir ao altar!

Design Dolce Morumbi sob imagem em Pexels

Quase nunca alguém pergunta verdadeiramente à noiva: “Estás bem? Tens a certeza do que vais fazer?”

Pouco se fala sobre o sentimento, a sensação de casar e sobre todo o burburinho que isso causa durante o processo. Eu mesma, querida leitora e querido leitor, só de mergulhar nesse cenário já sinto o estômago a dar cambalhotas desgovernadas, como se do meu próprio “sim” se tratasse.

E se eu, que apenas escrevo sobre o assunto, já me sinto assim, imagine quem verdadeiramente está a viver esse processo?

Para quem está de fora, o que se vê é o desgaste financeiro, o cansaço do tempo investido, os exageros nas compras, as guerrilhas familiares, os ajustes intermináveis no vestido, os kulungwanas (sons, feitos também em momentos de alegria). Mas quase nunca alguém pergunta verdadeiramente à noiva: “Estás bem? Tens a certeza do que vais fazer?”

E por que perguntariam?

A partir do momento em que ela diz “sim” ao pedido, já não cabe na nossa mente a mera possibilidade de desistência, confusão ou dúvida. Afinal, ela já aceito. E pronto.

Mas será que todas vão para o altar com certezas absolutas?

Será que o “sim” dito naquele momento foi totalmente sincero, ou foi um “sim” guiado pela pressão da surpresa e pelos olhares expectantes do tão celebrado noivo?

Design Dolce Morumbi sob imagem em Pexels

Sinceramente, pergunto-me se toda essa pressão durante o processo de preparação não abre espaço, em algum momento, para uma vontade silenciosa de desistir.

Porque há quem diga que são vários os momentos em que o pensamento de “desistir e fugir” aparece, quase como um presente vindo do obscuro.

Tanto que, na nossa sociedade moçambicana, há quem diga que nem se devem partilhar muitos detalhes dos planos de casamento, porque o diabo é astuto e fará de tudo para destruir a futura união.

E, verdade seja dita, várias tribulações realmente acontecem ao longo do percurso.

Mas seriam essas tribulações criadas pelo nosso subconsciente, pelo medo de que tudo dê errado, como se estivéssemos inconscientemente a chamar trovões negativos para impedir o brilho ensolarado do enlace matrimonial?

Ou seriam apenas acasos da vida e meras coincidências?

É difícil saber.

No final, o que mais se ouve é: “Preparar um casamento não é fácil, preparem-se.”

Dificilmente se ouve alguém dizer — salvo raras exceções — que foi um processo leve.

E se é tão desgastante para a noiva, será que em algum momento ela realmente desfruta disso?

Ou vive o dia do casamento quase como um ato político, algo que precisa cumprir para não enfrentar possíveis represálias familiares?

Pode ser confuso.

E não, não estou aqui a abrir espaço para desistências emocionais. De forma alguma!

Estou apenas a abrir espaço para refletirmos sobre o quão complexo pode ser o caminho até ao “sim” legal. Mesmo quando tudo parece perfeito, é possível que dúvidas apareçam — e isso não significa necessariamente que se deva dar asas a esse sentimento.

Mas, quando elas aparecem, como lidar com isso?

Com quem conversar?

Design Dolce Morumbi sob imagem em Pexels

Será justo puxar também o noivo para esse turbilhão emocional, quando ele próprio pode estar igualmente pressionado?

Há ainda quem diga que toda essa confusão não passa de falta de preparo psicológico e financeiro — que, quem tem essas duas bases não transforma o casamento num campo de batalha emocional.

Será verdade?

E será justo terceirizar as nossas dores e confusões dessa forma?

Sinceramente, espero que todas as noivas — e futuras esposas de muitos — consigam encontrar equilíbrio nesse processo e não se afundem em medos inexistentes… ou talvez existentes.

Que estejam firmes, não importa como.

Porque sim, o dia do “sim” é lindo e mágico.

Mas depois desse dia vem a realidade do “sim”: as conquistas, as derrotas e o dia a dia que se constrói até que a morte vos separe.

Por isso, não tome decisões de forma leviana, nem para agradar a outros. Faça por você.

E ainda assim, acredite: dúvidas podem surgir — e isso é humano.

Mas alimentar dúvidas infundadas, Rainha, não…

Isso pode destruir todo o sonho de um “sim”.

Seja forte e decidida.

Mesmo quando os trovões aparecerem, aprenda a transformá-los a vosso favor.

O caminho do “sim” pode ser complexo, mas não precisa ser duro.

Acredite.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Erica Paiva vive em Maputo, Moçambique e é bacharel em direito e tem uma atuação ativa na área de comunicação, cultura e no social. Considera a escrita uma forma de se comunicar com o mundo, levando suas reflexões acerca dos contrastes da sociedade em seu cotidiano. Seus textos buscam compreender a alma humana e, ao mesmo tempo, devolver-lhe um pouco de beleza, reflexão e esperança

Demais Publicações

Nunca coube na caixinha das obviedades

Quando descobrimos que nossas singularidades não são desajustes, mas o reflexo de quem fomos e do que viemos realizar

Negócios não acontecem por acaso

A importância de estar nos ambientes certos

Ninguém constrói um império sozinho — e ninguém deve destruí-lo sozinho

Por que o futuro de um patrimônio depende do preparo da família?

O Brasil no tabuleiro

Em um cenário de pressões comerciais, inteligência e eleições, uma reflexão necessária sobre o papel do Brasil na mesa das grandes potências globais

O mito da palavra escrita e o poder da narrativa

A escrita nos deu a permanência, mas a oralidade nos deu a presença — no fundo, continuamos sendo seres que se reúnem em círculo para ouvir uma história e tentar dar sentido ao caos

Desacelerem a IA ou a humanidade está em risco?

Os próprios líderes da indústria começam a questionar a velocidade da corrida. O problema é que ninguém quer ser o primeiro a parar

Custa caro ser autêntica (e vale cada centavo)

A beleza mais potente é aquela que não pede licença para refletir a nossa verdadeira personalidade

Amém

Aí o inferno começa

Machismo começa na omissão

Na obra "Todo Mundo Conhece um Homem Perigoso", Pipo R. Ananias recorda situações pessoais para explicar como a violência de gênero se perpetua através do silêncio

Painel Dolce Morumbi

As Mais lidas da Semana

Publicidade Dolce Morumbi

dolce-mulher-publ-22-segredos-da-mulher-confiante-post-inst
PlayPause
previous arrow
next arrow
arte-painel-dolce-abtours_1_11zon
PlayPause
previous arrow
next arrow
Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

Seções