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Moçambicana, é apresentadora do programa Primeira Página na Televisão de Moçambique (TVM) e traz aqui suas reflexões sobre a vida contemporânea.

Ingratidão ancorada

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Paremos de criar expectativas em relação aos ganhos dos outros

Querido leitor, querida leitora, sendo eu africana, cresci a ouvir várias frases culturais e, entre elas, uma que, infelizmente, muitas pessoas levaram ao pé da letra:

“Onde come um, comem dois.”

A família sempre apoia a outra.

“João deve ir estudar para melhorar a vida da família.”

Quer dizer, coloca-se a responsabilidade numa única pessoa de prover para toda a família ou de ser a esperança da boa vida de todos.

E a pergunta que não quer calar é: será justo?

Vezes sem conta, após o sucesso desse mano João, alcançado por esforço e mérito próprio, ouvimos os familiares gritarem:

“Hoje que está rico já não somos nada. Ontem, quando não tinha nada, éramos pessoas. Já tem dinheiro e corrompeu-se.”

Mas será que realmente se corrompeu?

Ou simplesmente, como diriam os melhores escritores, a família eram os insubstituíveis que o João deveria carregar até ter a sua carta de euforia?

Será que o facto de ser o mais bem-sucedido ou financeiramente estável significa que o João deve alimentar toda a sua família?

E a questão do esforço pessoal?

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

A ideia não deveria ser todos unirem os seus ganhos e capacidades e, no fim, criarem um império?

Ouvimos exemplos, como o da mulher do Cristiano Ronaldo, que, segundo relatos da imprensa, foi exposta pela própria família, com declarações de que, apesar de todo o luxo, ela não ajudava ninguém.

E, obviamente, de acordo com os tabloides, acabamos por demonizá-la.

Mas será que ela seria assim tão fria ao ponto de não deixar passar um único centavo?

Ou estaríamos aqui diante de vampiros financeiros, onde o foco é apenas pedir, pedir e pedir, sem aproveitar as oportunidades para crescer?

Então imagina: se nas cidades modernas isso acontece, imagina cá em África.

Sinceramente, é triste.

Famílias acabam por ser quebradas porque mano, tio ou João se recusam a ajudar os seus entes queridos menos favorecidos.

E pior ainda: quando esses mesmos “coitados” tiveram oportunidades semelhantes às de João, mas, por diversas razões, não seguiram o caminho certo, acovardaram-se e, no fim, ficaram com a esperança: “Ah, mano João vai ajudar, juro?”

Talvez seja necessário reavaliarmos o conceito de ajuda.

Porque cá em África, quando se trata de familiares, muitas vezes parece mais uma obrigação do que propriamente algo que nasce do coração.

Temos sobrinhos, primos e até irmãos a odiarem os seus familiares porque estes “se recusaram a ajudar”.

Mas será assim tão simples?

É preciso entender que o João também tinha e continua a ter os seus sonhos e desejos.

E isso não deve ser anulado por obrigações sociais ou consanguíneas.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Temos de respeitar o processo das pessoas e parar de exigir delas aquilo que nós próprios nem sequer temos disposição para proporcionar a nós mesmos.

Precisamos de parar com o vício do vitimismo e com o vampirismo dos bens materiais dos outros, simplesmente porque acreditamos que eles são o nosso elo dourado.

Foquemo-nos nos nossos projetos.

Na nossa educação.

No nosso esforço.

Naquilo que cada um de nós pode e deve fazer para alcançar as suas próprias metas de felicidade, sem depender constantemente dos outros.

Entendam uma coisa: ninguém nos deve obrigação alguma nesta vida.

Principalmente no mundo emocional.

Paremos de criar expectativas em relação aos ganhos dos outros.

Porque o sucesso de alguém pode abrir uma porta, mas atravessá-la continua a ser responsabilidade nossa.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Erica Paiva vive em Maputo, Moçambique e é bacharel em direito e tem uma atuação ativa na área de comunicação, cultura e no social. Considera a escrita uma forma de se comunicar com o mundo, levando suas reflexões acerca dos contrastes da sociedade em seu cotidiano. Seus textos buscam compreender a alma humana e, ao mesmo tempo, devolver-lhe um pouco de beleza, reflexão e esperança

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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