Barcelona respira arte. Entre ruas históricas, arquitetura modernista e museus, a cidade revela diferentes capítulos da história da arte. O Museu Picasso ocupa um lugar especial: mais do que apresentar a obra de Pablo Picasso, permite compreender o caminho que o levou a se tornar um dos grandes nomes da arte moderna.
Viajar com meus filhos também é construir memórias. Eles já sabem que, em nossas viagens, haverá museus, exposições, obras de arte e histórias para descobrir.
Durante o Eurotrip 2026, entre tantos lugares que conhecemos juntos, o Museu Picasso foi um daqueles encontros que permanecem.
Chegar à Carrer Montcada, entrar nos antigos palácios históricos e percorrer suas salas é acompanhar, pouco a pouco, a trajetória de um artista que transformou a arte moderna.
Foi isso que mais me encantou: não encontramos apenas o Picasso consagrado, mas o caminho que o levou até ali.
Como mãe, gosto de proporcionar aos meus filhos experiências que vão além da fotografia. Como curadora, acredito que o valor de um museu está nas histórias que revela, nas perguntas que desperta e nas conexões que possibilita.
A amizade que deu origem ao museu
Por trás da criação do Museu Picasso existe uma história de amizade.
Jaume Sabartés, escultor, escritor e amigo íntimo de Picasso, conheceu o artista em Barcelona. Décadas depois, tornou-se seu secretário e confidente.
Essa relação esteve na origem do museu. Sabartés reuniu uma importante coleção de obras e trabalhou para criar, em Barcelona, um espaço dedicado ao artista. Inaugurado em 1963, o museu também recebeu importantes doações de Picasso.
A amizade aparece ainda na obra do pintor, que retratou Sabartés inúmeras vezes, entre pinturas e desenhos.
Um dos destaques é Jaume Sabartés com gola e chapéu, de 1939. Na obra, Picasso representa o amigo de maneira teatral, inspirado nos retratos espanhóis do século XVI.


Gosto dessa história porque ela acrescenta uma camada humana à visita: antes do museu, existiu uma amizade; antes do acervo, alguém acreditou profundamente naquele artista.
O olhar da curadora: a arte como território de perguntas
Para mim, o olhar de curadora é uma escolha de escuta. É desacelerar diante da obra e perceber o que existe por trás dela: o processo, o contexto, as referências e as escolhas do artista.
No Museu Picasso, essa percepção aparece na própria narrativa do acervo.
A grandiosidade de um artista não está apenas no reconhecimento, mas também no laboratório de sua formação.
Como o jovem Picasso exercitava o desenho acadêmico?
O que o levou a revisitar os mestres do passado?
Como experiências e memórias se transformaram em uma linguagem própria?
Essa perspectiva faz do museu um espaço vivo de diálogo entre gerações.
Uma visita que começa antes do Picasso
Inaugurado em 1963 e instalado em um conjunto de palácios históricos no bairro da Ribera, o Museu Picasso reúne mais de 4 mil obras. Seu grande diferencial é permitir acompanhar de perto os anos de formação e juventude do artista.
A experiência foge do óbvio.
Em vez de apresentar apenas o mestre consagrado, o percurso nos convida a voltar no tempo:
Ao menino. Ao estudante. Ao filho. Ao artista que ainda descobria sua própria linguagem.
Antes do Cubismo, havia um menino
Picasso nasceu em Málaga, em 1881, e mudou-se para Barcelona em 1895, aos 13 anos. Filho do pintor e professor de desenho José Ruiz Blasco, cresceu cercado por arte e estudos acadêmicos.
Nas primeiras salas, essa base técnica impressiona.
Obras como Primeira Comunhão (1896) e Ciência e Caridade (1897) revelam um jovem profundamente ligado à tradição.
Quando pensamos em Picasso, logo nos vêm à mente as formas fragmentadas do Cubismo, movimento que desenvolveu ao lado de Georges Braque e que transformaria a arte moderna.
Diante de suas primeiras obras, porém, percebemos algo essencial: antes de romper com as regras, Picasso as dominou com maestria.
Essa é uma das passagens que mais gosto de mostrar aos meus filhos: toda grande transformação exige, primeiro, uma sólida formação.
O encontro com Las Meninas
Chegamos, então, ao momento que torna a visita especialmente singular: o encontro entre Velázquez e Picasso.
Em 1656, Diego Velázquez pintou Las Meninas. Séculos depois, em 1957, Picasso voltou a essa obra — não para copiá-la, mas para conversar com ela.
Durante meses de investigação, produziu 58 trabalhos relacionados à série. Reinterpretou a composição, alterou proporções e traduziu a obra para sua própria linguagem.
Picasso não apagou Velázquez. Ele dialogou com ele.
Essa é uma das grandes lições da arte: uma obra pode atravessar séculos e continuar gerando perguntas.
Velázquez nos faz questionar quem olha e quem é olhado.
Picasso retoma essa indagação e a transforma.
Diante dos dois, somos convidados a perguntar: como o nosso próprio olhar transforma aquilo que vemos?
O que fica depois da visita
Saí do Museu Picasso pensando que o mais bonito não foi apenas ver obras de um dos grandes artistas do século XX, mas compreender sua trajetória: o menino que desenhava, o jovem que dominou a técnica, o artista que rompeu com a tradição e o homem que continuou experimentando ao longo da vida.
É por isso que insisto tanto nos museus durante as viagens.
Quero que meus filhos levem mais do que fotografias. Quero que levem referências, histórias e curiosidade.
Que entendam que a criatividade também nasce da memória, do estudo, da observação e da coragem de enxergar o mundo de outra maneira.
Porque viajar é conhecer lugares. Mas viajar com arte é aprender a enxergar.
Talvez esse seja o maior presente de um museu: não apenas mostrar o que um artista viu, mas ampliar nosso olhar, despertar perguntas e revelar possibilidades onde antes víamos apenas uma obra.
Fotos cedidas por Amanda Sanzi























































