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Perseverança

Gravura por Claude Lorrain, CC0, via Wikimedia Commons

A gente nunca pode desistir de buscar o entendimento...

Por André Naves

No mundo da literatura tem uma lenda tão asquerosa que me arrepia sempre que penso nela. Camões sofreu um naufrágio (na verdade, ele tripulava um barco que foi devorado pelo mar) …

Naquele clima de barata-voa, no corre-corre do “deus nos acuda”, ele correu para salvar “Os Lusíadas”, e deixou sua “amada” Dinamene, uma Alfonsina ancestral, ter como tumba a pacífica imensidão azul…

Se essa história torta sobreviveu a todos os cataclismas, ainda hoje sendo contada de boca em boca, é que muita gente acredita que essa incivilidade traiçoeira seja um ato de heroísmo travestido.

Eu, tão ufanista como qualquer Policarpo, sempre admiro as vantagens brasileiras, desde suas raízes também lusitanas. Admirar Camões já é pedir demais!

Sabe, não me importa que o cidadão escreva os maiores tesouros da última flor… Ele é um lixo de ser humano! Pelo menos ele perdeu um olho na confusão… Camões, o caolho d’Os Lusíadas, que deixou a covardia vencer e perdeu o mais valioso tesouro…

Mas a gente nunca pode desistir de buscar o entendimento… Lixo também aduba!

Ao que parece, ele se arrependeu. A partir daquilo, sua pena começou a homenagear o Amor. Igual um lobo, uivando para a Lua, ele parece, nos versos dos sonetos, procurar o olhar de sua Dinamene… Olhar submerso, salgado… Lágrimas e mar… Quanto do sal que tempera o mar são lágrimas portuguesas?

Gravura de Luís de Camões por François Pascal Simon Gérard (1770-1837)derivative work: Frédéric MICHEL, Public domain, via Wikimedia Commons

Se pelo menos o tempo voltasse… Mas ele é implacável! Tão grande Amor para tão curta vida! Séculos depois, um outro poeta português, esse sim, enorme em honra e sensibilidade, parecia dialogar com Camões, perguntando: “Valeu a pena?” …

Soneto 29 de Camões. De verdade! Nunca li nada tão lindo! O tema é conhecido… Jacó trabalhava para Labão. Amava Raquel. Depois de sete anos, Labão o fez casar com Lia… E Jacó perseverou por outros 7 anos buscando os favores de Raquel, e dizendo que, feliz, ainda trabalharia mais sete se “Para tão longo amor, (não fora) tão curta a vida!”

Camões, o caolho arrependido! Daria tudo para voltar no dia fatal. Lá seria perdido o maior poema épico ocidental desde a Antiguidade! Os argonautas se perderiam nas brumas do olvido… O velho do Restelo se calaria… O gigante Adamastor ruiria…

Nesse dia, Dinamene, como uma Raquel, como uma matriarca amorosa e bela, perdoaria… O perdão de quem enxerga.

No fim, ela teria essa beleza da mulher…

Perseverança e perdão!

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

André Naves é Defensor Público Federal formado em Direito pela USP, especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social; mestre em Economia Política pela PUC/SP. Cientista político pela Hillsdale College e doutor em Economia pela Princeton University. Escritor e professor

Colaboração da pauta:

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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