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Quando a escrita se torna espelho

Imagem em Pexels

Entre reflexões e prosa poética, Lara Ferry apresenta um livro sobre vulnerabilidade, solidão e a coragem de se expor por meio da arte

Expor-se virou um gesto político e artístico?

Em A privacidade é um luxo que o escritor não pode ter, Lara Ferry conduz o leitor a uma jornada introspectiva em que a escrita se torna um espelho — não apenas de quem escreve, mas também de quem lê. A obra rompe a linearidade tradicional e se estrutura como um mosaico de fragmentos poéticos, cada um revelando uma faceta do pensamento, do sentir e do existir. É um livro sobre os silêncios que habitam o íntimo, sobre o amor que se desfaz e sobre a necessidade de continuar criando mesmo quando o caos parece tomar conta. 

Em uma forma híbrida entre ensaio, poesia e diário, a autora costura reflexões sobre a solidão, a autocobrança, o fazer artístico e o tempo. As passagens transitam entre o concreto e o abstrato, ora com observações ácidas sobre a rotina e as expectativas da vida moderna, ora com confissões pessoais que expõem a fragilidade e a força de quem se propõe a olhar para dentro. Há textos que falam sobre o medo de ser esquecida, sobre amores que deixaram marcas, sobre a inquietude de buscar sentido em um mundo cada vez mais ruidoso — e sobre como, para quem escreve, o papel é o último refúgio possível. 

Quero sentir muito e quero sentir tudo, deve ser bom sentir essa conexão real, e não apenas essa mania de escritor de inventar como seria o sentir, para sentir tem que sentir, ora. Mas hei de me entregar à vulnerabilidade e andar nua pelo desconhecido. Lá fora, o vento me chama e sussura promessas que ainda não sei decifrar, mas antes de sair para o mundo meus pés hesitam na beira, o eco do ontem prende meus tornozelos, eu sei que é preciso sair, rasgar o que visto e me despir de minha pele antiga, se eu quiser caminhar completamente nua
(A privacidade é um luxo que o escritor não pode ter, p.37)

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Em meio a essa tessitura de sentimentos, o leitor encontra uma artista que se permite ser contraditória, humana e imperfeita. Lara não busca respostas — ela as desarma, oferecendo perguntas em troca. A publicação funciona como um diário aberto, em que cada fragmento parece escrito na fronteira entre confissão e performance, intimidade e criação. É uma leitura que dialoga com o universo da juventude contemporânea, mas também com todos os que já se sentiram deslocados de si. 

“Mais do que contar histórias, quis registrar inquietações, perguntas e reflexões sobre existir. Escrever esse livro foi dar voz ao que antes habitava à sombra e, ao mesmo tempo, abrir um diálogo com quem talvez sinta o mesmo. O diferencial é a franqueza da voz. A obra é crua, íntima e experimental, mas ainda assim acessível. Ele convida o leitor não apenas a consumir literatura, mas a se reconhecer nela”, reflete a escritora.  

A privacidade é um luxo que o escritor não pode ter se revela como um manifesto sobre vulnerabilidade e coragem. É uma obra sobre o ato de se despir e, nesse processo, encontrar beleza no inacabado. Mais do que um livro sobre escrever, é uma publicação sobre sentir e sobre a ousadia de transformar a própria vida em arte. 

A privacidade é um luxo que o escritor não pode ter

Autor: Lara Ferry Vieira 
Editora: Editora Garcia 
ISBN: 978-65-83073-36-5 
Páginas: 46 
Preço: R$24,99 
Onde encontrar:  Amazon

Lara Ferry é atriz, escritora e produtora. Formada em Liberal Arts pela Regent’s University London e em Entertainment Studies pela UCLA Extension, reúne uma vivência internacional que molda sua visão artística. Atuou e escreveu o curta Corra (2025), atualmente em pós-produção, e protagonizou Lovable (2024), filme premiado no IndieX Film Fest e selecionado para festivais como o Marina del Rey Film Festival e o Indie Vegas Film Festival. Além de atuar no cinema e no teatro, dedica-se à escrita e à produção de roteiros independentes, explorando temas como identidade, vulnerabilidade e criação artística. 

@1lara

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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