Não tenho muita dúvida disso.
Descobri isso num daqueles exercícios de aquecimento — início de curso, USP, todo mundo cheio de currículo, expectativa e certa arrogância bem disfarçada.
O professor entra, olha pra gente e solta:
— Vão até o refeitório e depois me contem o que viram.
Só isso.
Lá fomos nós, prancheta na mão, prontos para decifrar o mundo — ou, no mínimo, um bandejão. A tarefa era tão simples que chegou a ser ofensiva.
Mestrandos, afinal.
Voltamos em poucos minutos, cada um com suas anotações muito bem-organizadas, e começamos a leitura. Um a um. Em voz alta. O professor, meio sentado na bancada, óculos escorregando no nariz, anotava tudo com um sorriso que já dizia alguma coisa — mas a gente ainda não sabia o quê.
Quando terminamos, ele foi até a lousa — sim, lousa — e escreveu o resumo da turma. Sem notas, sem comentários. Só uma divisão:
Adões e Evas.
E aí veio a revelação.
Adões:
– Salão com aproximadamente 12 m².
– Paredes brancas, ladrilhos atrás do balcão de inox.
– Quatro mesas retangulares de cerca de 1,5 x 1,5 m, com cadeiras de plástico.
– Luminárias de teto com lâmpadas fluorescentes.
– Dois janelões com esquadrias de alumínio.
Evas:
– Refeitório cheio, grupos de pessoas almoçando.
– Idade média por volta dos vinte anos, ligeiramente mais homens que mulheres.
– Mesas compartilhadas, gente dividindo espaço.
– Alguns comendo em pé no balcão — lanche rápido, café.
– Familiaridade entre clientes e funcionários.
– Ambiente animado: conversa alta, risadas.
Silêncio.
Aquele silêncio raro, em que todo mundo entende ao mesmo tempo — e preferia não entender.
Depois, claro, a gargalhada. Solene, quase terapêutica.
Desde então, tenho um respeito enorme pelas Evas.
Alguém precisa, afinal, contar o que realmente está acontecendo.
PS: o curso de semiótica foi excelente. O professor, melhor ainda.





























