Querido leitor e querida leitora.
Já te aconteceu magoares alguém, ou seres magoado por alguém, por causa de palavras que foram ditas num momento de raiva?
Pois é. Às vezes dizemos coisas que acreditamos não sentir. Ou, pelo menos, gostamos de acreditar que não sentimos.
Mas será que é mesmo assim?
Por vezes, as palavras que atiramos durante um momento de ira, desagrado ou frustração são reflexos de dores internas, questionamentos ou complexidades que nem nós próprios conseguimos decifrar.
E, no calor do momento, lá vai a palavra. Atirada como uma pedra, sem medir onde vai cair.
Depois, quando a poeira baixa, vem o clássico: “Eu não queria dizer aquilo. Estava nervoso.”
Está bem. Mas a pessoa ficou magoada na mesma!
E aqui está o problema: as palavras podem ir ao vento, mas as emoções que provocam nem sempre vão com elas.

Por vezes, um pedido de desculpas não chega para apagar aquilo que foi dito. Não necessariamente porque a pessoa não aceitou o pedido, mas porque aquelas palavras encontraram um lugar sensível, abriram uma ferida antiga ou reabriram uma cicatriz que parecia já estar curada.
E quando a mágoa vem de alguém próximo, dói ainda mais.
Mas atenção! Não estou aqui para aplaudir a vitimização, nem para transformar quem magoou num monstro sem direito a explicação.
Quero é que façamos uma pergunta desconfortável.
À pessoa que magoou: será que aquilo que disseste não tem mesmo nenhuma relação com o que pensas ou sentes? Será que foi apenas um momento de raiva ou existe aí um pequeno fogo que tens evitado reconhecer?
Porque, convenhamos, por menor que seja o fogo, há sempre a possibilidade de aparecer fumo.
E dizer “não sei como isso aconteceu” não significa necessariamente que não saibas. Talvez ainda não tenhas tido coragem de procurar a resposta.
E à pessoa magoada, também deixo uma reflexão: até quando vais permitir que aquelas palavras continuem a ocupar espaço dentro de ti?
O que precisas de compreender, trabalhar ou libertar para que essa mágoa deixe de comandar as tuas emoções?
Repara: cada um tem uma parte da cura pela qual precisa de responder.

Quem magoou precisa de refletir sobre o que disse e sobre aquilo que poderá estar por detrás das suas palavras.
Quem foi magoado precisa de cuidar da ferida, compreender o que sente e decidir o que fazer com aquilo que aconteceu.
Um pedido de desculpas pode abrir uma porta, mas não obriga ninguém a atravessá-la imediatamente.
Talvez, depois de alguma reflexão, estas duas pessoas consigam voltar a sentar-se, conversar, pedir perdão e encontrar uma forma de seguir em frente.
Será fácil? Não.
Apagar o que aconteceu? Talvez nem seja possível.
Mas aprender com isso, reconstruir a confiança e evitar que a mesma história se repita pode ser.
Porque, no fim, não se trata apenas de descobrir quem teve razão naquela troca de palavras azedas.
Trata-se de perceber o que nos levou até ali e o que precisamos de mudar para não voltarmos ao mesmo lugar.
E, se ainda houver espaço para o perdão, que ele não seja apenas uma palavra bonita no fim de uma conversa amarga.
Que seja também o início de uma mudança verdadeira.






























