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Crônicas ilustradas sobre a vida e o cotidiano

Velórios virtuais

Desenho feito em aquarela com finalização em lápis aquarelado por Ana Helena Reis

Coisas da alma (ou do algoritmo)

Elas escolheram sempre a mesma mesa, no canto da cafeteria — aquela perto da janela, com vista para a rua movimentada. Um ritual silencioso: dois cappuccinos, celulares na mesa e o feed de notícias aberto. Foi entre um gole e outro que o suspiro da mais falante das duas anunciou o assunto do dia:

– Você conseguiu descobrir do que faleceu Diane Keaton?

A outra levantou os olhos da tela, com a seriedade de quem comenta a morte de alguém da própria família.

– Eu não, amiga. Já li todos os posts sobre a morte dela, até a declaração dos filhos… Mas ninguém revela nada. Justo pra nós, que somos quase íntimas dela.

Intimidade de fã, daquelas que atravessa décadas de filmes, romances, premiações e fofocas de revista.

– Quase íntimas mesmo! — completou a primeira, já animada. — Assistimos a maioria dos filmes, acompanhamos aquele romance com Woody Allen… E você reparou na cara do Al Pacino no enterro?

A amiga assentiu com um ar grave, como se tivesse estado lá.

– Sim! Agora não adianta se arrepender de não ter se casado com ela. No fim, ela acabou não se casando com ninguém. Mas convenhamos, uma mulher como ela não nasceu pra se amarrar.

Riram discretamente, como quem partilha segredos de bastidores.

– Pena não estarmos lá… — ela disse, olhando para o nada. — Queria muito ter dado um último adeus.

Havia uma ternura estranha naquilo: choravam a morte de alguém que nunca tinham encontrado.

– Pena mesmo. E o Robert Redford então? — a outra retomou, aquecida pelo drama. — Ontem revi Out of Africa e chorei só de lembrar. Não é à toa que a Meryl Streep se apaixonou por ele ali mesmo.

 – E viu a homenagem do Andrea Bocelli? Fiquei arrepiada com o gesto dele de ficar com o cachorro de estimação dele… como era mesmo o nome do cachorro?

A pergunta ficou suspensa no ar. A resposta veio, seca:

– Menina… Fiquei chocada quando soube que essa história é fake. Tudo inventado por IA.

O silêncio que se seguiu foi mais eloquente que qualquer indignação.

– Jura? — sussurrou a primeira, como quem perde o chão. — Mas então tudo aquilo que saiu no Facebook era falso?

As duas se encararam por um instante, os celulares quietos sobre a mesa. O cappuccino já esfriava.

– Bom… — disse por fim a outra, tentando reorganizar o mundo. — Pelo menos a história da mãe da Preta Gil é verdadeira. Achei lindo ela ser amparada pela Flora Gil.

– Lindo mesmo — concordou a amiga, retomando o fôlego. — Pena não morarmos no Rio, senão teríamos ido ao enterro, né?

Riram de leve, cientes da contradição, mas sem coragem de desmontá-la.

– Lógico! — disse ela, com convicção. — Somos quase íntimas dela. Quer dizer… Nem conhecemos pessoalmente, mas eu me sentia da família.

Do lado de fora, carros passavam, pessoas seguiam seus trajetos, alheias àquele luto emprestado. A última frase veio quase como um suspiro:

– É aquela coisa de alma, né? — ela completou, com doçura.

A amiga levantou os olhos da tela e sorriu, agora com ironia calma:

– Ou de algoritmo.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Ana Helena Reisé escritora, pesquisadora e professora. A escrita de artigos, textos jornalísticos e resenhas esteve sempre presente na vida profissional como presidente da MultiFocus Inteligência de Mercado. A partir de 2019 começou a se dedicar à escrita e publicação de textos em prosa: contos, crônicas, poemas e resenhas, sempre relacionados a fatos e situações do cotidiano. Ao pensar na forma de publicação de seus escritos, foi buscar um outro gosto seu: a pintura e o desenho. Daí surgiram as ilustrações que dão sentido ao próprio nome do seu blog, Pincel de Crônicas. Em 2024 lançou seus primeiros livros solo, “Conto ou não Conto” e “Inquietudes Crônicas”.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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