Assim como hoje nos indignamos com os erros do passado, o futuro nos julgará se permitirmos que o fanatismo e o corporativismo destruam o edifício republicano
Por Paulo Maia
Olá, meu caro leitor e querida leitora! Trago uma sugestão de um excelente documentário para assistir, junto de um convite para uma reflexão, a meu ver, necessária em tempos atribulados como os que vivemos.
Assistindo ao documentário “O experimento americano” (The American Experiment, 2026), disponível na Netflix, somos inevitavelmente confrontados por uma verdade incômoda, porém libertadora: a democracia moderna não nasceu como um monumento acabado, mas como uma aposta audaciosa na capacidade humana de autogoverno. Passados dois séculos e meio da fundação dos Estados Unidos, a ideia de governar uma nação por meio de uma república baseada no consentimento dos governados — em vez da vontade incontestável de um monarca ou de uma oligarquia hereditária — permanece, em sua essência, exatamente o que o título sugere: um experimento contínuo.
Mesmo com suas imperfeições patentes, a arquitetura constitucional norte-americana provou-se uma cola institucional resiliente, capaz de integrar uma população que hoje chega a quase 340 milhões de pessoas e de atrair, ao longo dos séculos XIX e XX, levas sucessivas de imigrantes em busca de previsibilidade e oportunidade. Como observaria o pensador francês Alexis de Tocqueville em seu clássico Democracia na América, após testemunhar aquela jovem nação nos anos 1830, a força daquele modelo não residia na ausência de falhas, mas na vitalidade de seus costumes, na descentralização da vida civil e na busca incessante por equilíbrios sociais.

Gilbert Stuart, Public domain, via Wikimedia Commons
A contenção do poder, a virtude humana e o risco da degradação
Essa engenharia política não surgiu do nada. As bases para a distribuição e o equilíbrio de forças entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário beberam diretamente na fonte de Montesquieu e em seu O Espírito das Leis. O objetivo primordial dos fundadores não era criar um governo de decisão ágil ou de apelos populares fáceis, mas erigir uma estrutura de freios e contrapesos capaz de conter a concentração tirânica.
Contudo, os formuladores da república sabiam de algo crucial: instituições não funcionam no vácuo; são feitas por homens. Como ponderou James Madison no Federalista nº 51, “se os homens fossem anjos, nenhum governo seria necessário”. Quando as instituições se descentralizam, o maior desafio do experimento passa a ser a vigilância contra a corrupção do caráter humano.
Em democracias contemporâneas — e a experiência brasileira recente nos expõe isso com um rigor cruel —, o risco se manifesta quando instâncias de poder que deveriam figurar como guardiãs neutras da regra do jogo, como o Judiciário, passam a abrigar membros capturados por arranjos de ocasião. Quando o arbítrio cede espaço a interesses políticos, alianças partidárias ou conveniências econômicas para a manutenção do próprio poder, a confiança pública se esfarela. Evitar que a ambição e o corporativismo pessoal degradem a função essencial das instituições é, talvez, o teste mais complexo da manutenção republicana.
É também sob esse prisma de cautela que se deve compreender arranjos como o Colégio Eleitoral. Longe de ser um mero detalhe burocrático, tal mecanismo nasceu do receio genuíno daquilo que Tocqueville batizaria de “a tirania da maioria”. Os fundadores entendiam que a simples aritmética majoritária poderia, em momentos de comoção, eleger tiranos dispostos a sufocar as minorias e desmanchar as garantias institucionais. A premissa de que “a maioria sempre decide pelo bem de todos” era vista com saudável ceticismo: nem todo consenso majoritário é benéfico, e a verdadeira democracia exige salvaguardas contra o fervor momentâneo e a manipulação do poder.

Contradições, anacronismo e o julgamento do futuro
Reconhecer a genialidade do projeto não exige ignorar suas abissais contradições internas. A maior delas, sem dúvida, foi a coexistência do discurso iluminista de liberdade com uma economia profundamente ancorada na escravidão. Todavia, examinar esse capítulo exige evitar a facilidade do anacronismo histórico.
A escravidão era uma prática milenar, nefasta e entranhada na infraestrutura econômica e na organização social do mundo até então. Figuras como George Washington cresceram em ambientes onde possuir escravos era naturalizado pela cultura vigente. Aqueles homens eram, indiscutivelmente, filhos de seu tempo. Foi apenas com o amadurecimento do pensamento econômico moderno e do capitalismo que a consciência coletiva passou a enxergar com clareza o quão brutal e incompatível com a dignidade humana era essa instituição.
Salientar isso não significa absolver o passado, mas exercitar a humildade histórica diante do nosso próprio presente. Se hoje nos indignamos com as sombras dos séculos anteriores, é preciso perguntar: com o que as gerações vindouras se indignarão ao olhar para nós?
É muito provável que o julgamento do futuro recaia severamente sobre o nosso momento de profunda radicalização ideológica. Os cidadãos do amanhã poderão olhar para a nossa era e se perguntar como pudemos, cegos pelo fanatismo partidário e por divisões estéreis entre direita e esquerda — amplificados por ferramentas tecnológicas que alimentaram a demagogia e uma interpretação rasa da realidade —, colocar em risco toda uma forma de vida política civilizada, sustentável e conquistada a custos tão altos. O ódio tribal do presente pode vir a ser enxergado com a mesma incompreensão e repulsa com que hoje olhamos para as barbaridades do passado.

A responsabilidade do presente
Há uma passagem célebre que sintetiza a essência dessa caminhada. Ao término da Convenção Constitucional de Filadélfia, Elizabeth Willing Powel — uma das mentes mais influentes da época — perguntou a Benjamin Franklin o que eles haviam dado ao povo: uma república ou uma monarquia. Franklin respondeu com precisão lapidar: “Uma república, se conseguirem mantê-la.”
Décadas mais tarde, ao refletir sobre o significado daquele legado, o ex-vice-presidente norte-americano Al Gore resumiu a atitude dos fundadores em poucas palavras, era como se dissessem: “Esperamos que dê certo! Foi o melhor que conseguimos até agora, mas precisa de revisão de tempos em tempos, por isso é um experimento.”
Essas falas lembram que não existem fórmulas mágicas ou regimes eternos por inércia. Países que trilharam caminhos de democratização precisam ter em mente que a estabilidade política e as liberdades civis não são dados adquiridos, mas conquistas diárias. O funcionamento da democracia depende da dinâmica da natureza humana, do embate legítimo de interesses e da disposição permanente para a negociação.
A política madura nunca é o jogo do “vencedor leva tudo”, mas a busca incessante pelo common ground — o terreno comum onde divergências possam conviver sob regras aceitas por todos.
Não há uma linha de chegada. A história não é um livro concluído, mas uma avenida imensa e aberta. Se hoje desfrutamos de direitos, garantias e um espaço mínimo de convivência pacífica, é porque gerações anteriores enfrentaram guerras, dilemas e contradições para nos entregar um mundo onde fosse possível viver. Cabe a nós, como agentes do presente, superar as cegueiras do nosso tempo e fazer a pergunta essencial: o que deixaremos de decente e sustentável para os que virão depois de nós?































