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Moçambicana, é apresentadora do programa Primeira Página na Televisão de Moçambique (TVM) e traz aqui suas reflexões sobre a vida contemporânea.

O drama do aborto espontâneo

Por que temos tanta facilidade em julgar a dor alheia, quando mal conseguimos lidar com a nossa?

São muitos os momentos da vida que nos atravessam sem aviso. Pequenos instantes que, silenciosamente, têm o poder de transformar tudo.

Imagina uma mulher que sonha, profundamente, em gerar vida. Que deseja ser mãe, do fundo do seu íntimo. E, de repente, esse sonho é interrompido pela natureza. Arrancado antes mesmo de ganhar forma.

Essa é a realidade de muitas mulheres.

Mulheres que engravidam e, por razões diversas — genéticas, físicas ou até desconhecidas — enfrentam o chamado aborto espontâneo. Um acontecimento que, para muitos, parece pequeno. Invisível. Quase insignificante.

Mas será mesmo?

Quantas vezes ouvimos: “Foi só uma gota de sangue”. “Era só um mês”. “Nem chegou a ser um bebé”.

Mas quem define o tamanho da dor?

Por que razão acreditamos que uma mulher só tem o direito de sofrer quando já sente o bebé mexer?

Por que diminuímos a dor de quem descobriu a gravidez ontem e hoje já carrega uma perda?

Imagem de senivpetro no Freepik

Será justo dizer que 24 horas não são suficientes para amar?

A verdade é que não se mede emoção com tempo.

Existem pessoas que se amam à primeira vista.

Existem histórias que nascem em dias e duram uma vida inteira.

E existem também perdas que acontecem antes mesmo do mundo saber que algo existiu — mas que deixam marcas eternas.

Uma gravidez, ainda que descoberta por poucas horas, não é apenas uma informação.

É um processo que já começou no corpo.

É uma transformação hormonal, emocional, física.

O corpo sente.

A mente registra.

O coração cria vínculo.

E depois da perda… nada simplesmente “volta ao normal”.

Há um desajuste hormonal.

Há um vazio emocional.

Há um luto silencioso que muitas vezes não é reconhecido.

Então por que insistimos em julgar?

Por que medimos a dor do outro com a nossa própria régua?

Como podemos decidir se alguém “deveria” ou “não deveria” sentir?

E mais — será justo chamar de exagero aquilo que nunca tivemos capacidade de sentir?

Imagem de freepik

Uma mulher que perde uma gravidez — seja em semanas, dias ou meses — perde uma possibilidade, um sonho, uma expectativa.

Perde algo que, para ela, já era real.

E não cabe a ninguém reduzir isso a “apenas”.

Se não somos capazes de compreender a dor de alguém, o mínimo que devemos fazer é respeitá-la.

Porque empatia não é entender totalmente.

É reconhecer que, mesmo sem entender, aquilo é real para o outro.

O aborto espontâneo não é menor porque aconteceu cedo.

Não é menos doloroso porque foi invisível aos olhos dos outros.

Dor não precisa de prova.

Sentimento não precisa de autorização.

E talvez a maior reflexão seja essa: por que temos tanta facilidade em julgar a dor alheia, quando mal conseguimos lidar com a nossa?

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Erica Paiva vive em Maputo, Moçambique e é bacharel em direito e tem uma atuação ativa na área de comunicação, cultura e no social. Considera a escrita uma forma de se comunicar com o mundo, levando suas reflexões acerca dos contrastes da sociedade em seu cotidiano. Seus textos buscam compreender a alma humana e, ao mesmo tempo, devolver-lhe um pouco de beleza, reflexão e esperança
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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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