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Crônicas ilustradas sobre a vida e o cotidiano

Se não fosse Eva o mundo seria tão chatinho, não?

Desenho em lápis aquarelado sobre papel Canson. Ilustração por Ana Helena Reis

Alguém precisa, afinal, contar o que realmente está acontecendo

Não tenho muita dúvida disso.

Descobri isso num daqueles exercícios de aquecimento — início de curso, USP, todo mundo cheio de currículo, expectativa e certa arrogância bem disfarçada.

O professor entra, olha pra gente e solta:
— Vão até o refeitório e depois me contem o que viram.

Só isso.

Lá fomos nós, prancheta na mão, prontos para decifrar o mundo — ou, no mínimo, um bandejão. A tarefa era tão simples que chegou a ser ofensiva.

Mestrandos, afinal.

Voltamos em poucos minutos, cada um com suas anotações muito bem-organizadas, e começamos a leitura. Um a um. Em voz alta. O professor, meio sentado na bancada, óculos escorregando no nariz, anotava tudo com um sorriso que já dizia alguma coisa — mas a gente ainda não sabia o quê.

Quando terminamos, ele foi até a lousa — sim, lousa — e escreveu o resumo da turma. Sem notas, sem comentários. Só uma divisão:

Adões e Evas.

E aí veio a revelação.

Adões:
– Salão com aproximadamente 12 m².
– Paredes brancas, ladrilhos atrás do balcão de inox.
– Quatro mesas retangulares de cerca de 1,5 x 1,5 m, com cadeiras de plástico.
– Luminárias de teto com lâmpadas fluorescentes.
– Dois janelões com esquadrias de alumínio.

Evas:
– Refeitório cheio, grupos de pessoas almoçando.
– Idade média por volta dos vinte anos, ligeiramente mais homens que mulheres.
– Mesas compartilhadas, gente dividindo espaço.
– Alguns comendo em pé no balcão — lanche rápido, café.
– Familiaridade entre clientes e funcionários.
– Ambiente animado: conversa alta, risadas.

Silêncio.

Aquele silêncio raro, em que todo mundo entende ao mesmo tempo — e preferia não entender.

Depois, claro, a gargalhada. Solene, quase terapêutica.

Desde então, tenho um respeito enorme pelas Evas.

Alguém precisa, afinal, contar o que realmente está acontecendo.

PS: o curso de semiótica foi excelente. O professor, melhor ainda.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Ana Helena Reisé escritora, pesquisadora e professora. A escrita de artigos, textos jornalísticos e resenhas esteve sempre presente na vida profissional como presidente da MultiFocus Inteligência de Mercado. A partir de 2019 começou a se dedicar à escrita e publicação de textos em prosa: contos, crônicas, poemas e resenhas, sempre relacionados a fatos e situações do cotidiano. Ao pensar na forma de publicação de seus escritos, foi buscar um outro gosto seu: a pintura e o desenho. Daí surgiram as ilustrações que dão sentido ao próprio nome do seu blog, Pincel de Crônicas. Em 2024 lançou seus primeiros livros solo, “Conto ou não Conto” e “Inquietudes Crônicas”.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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