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O futebol perdoa a violência sexual?

A Copa de 2026 reacendeu o debate sobre presunção de inocência, responsabilização e violência sexual no esporte
Imagem feita com ferramentas de inteligência artificial.

Enquanto o discurso sobre falsas acusações domina parte das redes sociais, atletas investigados ou processados continuaram representando seus países no maior torneio de futebol do mundo

Por Beatriz Figueiredo

O prestígio no futebol e a realidade do abuso

Uma denúncia acaba com a vida de um homem.

A frase costuma aparecer poucos minutos depois que uma denúncia de violência sexual ganha repercussão. Ela surge em comentários de notícias, vídeos curtos, transmissões ao vivo e debates nas redes sociais como uma reação quase automática. Antes mesmo de a investigação avançar, a discussão frequentemente deixa de girar em torno da denúncia e passa a questionar os impactos que ela pode provocar sobre a vida do acusado.

O argumento não é novo. Ao longo dos últimos anos, ele se consolidou como uma das principais respostas públicas a denúncias de estupro, principalmente envolvendo figuras conhecidas. Em muitos casos, a possibilidade de uma falsa acusação ocupa tanto espaço quanto a própria investigação.

Em julho de 2026, porém, o maior evento esportivo do planeta apresentou uma imagem que desafia essa narrativa. Enquanto seleções disputavam uma vaga nas oitavas de final da Copa do Mundo, cinco jogadores chegaram ao torneio respondendo a acusações, investigações ou processos relacionados à violência sexual. Nenhum deles foi impedido automaticamente de jogar. Alguns eram titulares absolutos. Outros vestiam a braçadeira de capitão. Todos continuaram exercendo a profissão no palco mais importante do futebol mundial.

Isso significa que eles são culpados? Não. Os cinco casos possuem situações jurídicas distintas e todos os atletas têm direito à presunção de inocência, princípio fundamental de qualquer Estado de Direito. Ainda assim, a Copa expôs uma contradição difícil de ignorar. Mesmo respondendo a acusações ou investigações relacionadas à violência sexual, esses jogadores continuaram ocupando alguns dos espaços de maior prestígio do esporte mundial, representando seus países diante de milhões de pessoas, recebendo o apoio de torcedores e sendo tratados, em muitos casos, da mesma forma que qualquer outro ídolo da competição.

A inexistência de uma condenação definitiva explica, do ponto de vista jurídico, a continuidade de suas carreiras, mas também desloca parte do debate público. Em vez de discutir a gravidade das acusações e os impactos que denúncias dessa natureza produzem na vida de quem as apresenta, a atenção frequentemente se concentra na defesa da presunção de inocência do acusado e nos possíveis prejuízos que o processo pode causar à sua imagem. Nesse cenário, a denúncia passa a coexistir com a manutenção do prestígio público do atleta, enquanto as mulheres que decidiram denunciá-los continuam assistindo, diariamente, esses mesmos homens serem celebrados nos maiores palcos do futebol mundial.

Medo, vergonha, ameaças e descrença nas instituições estão entre os fatores que impedem milhares de vítimas de denunciar a violência sexual.
Imagem feita com ferramentas de inteligência artificial.

Cinco casos, cinco situações jurídicas diferentes

Foram identificados cinco jogadores presentes na Copa de 2026 que chegaram ao torneio envolvidos em investigações ou processos relacionados à violência sexual.

Entre eles está Thomas Partey, da seleção de Gana. O meio-campista responde no Reino Unido a sete acusações de estupro e uma de agressão sexual envolvendo quatro mulheres. Partey nega todas as acusações e o julgamento ainda não ocorreu. Também está na lista Achraf Hakimi, capitão da seleção de Marrocos. O lateral responde na Justiça francesa por uma acusação de estupro registrada em 2023. A Justiça entendeu haver elementos suficientes para que o caso siga para julgamento. O jogador afirma ser inocente.

O Japão levou ao Mundial dois atletas envolvidos em episódios diferentes. Junya Ito foi investigado após uma denúncia de abuso sexual. O Ministério Público japonês arquivou o caso por falta de provas, e posteriormente o jogador moveu uma ação contra as denunciantes alegando falsa acusação. Já Kaishu Sano foi preso em 2024 sob suspeita de violência sexual, sendo posteriormente liberado sem condenação. O caso também não resultou em ação penal.

Completa a lista Ryan Mendes, capitão de Cabo Verde, investigado pela polícia da Nova Zelândia após uma denúncia apresentada por uma brasileira ligada à organização de um torneio da FIFA. Até o momento, não houve denúncia formal nem condenação.

Embora os casos sejam juridicamente diferentes, todos compartilham um ponto em comum: nenhum deles resultou no afastamento automático do atleta da Copa do Mundo.

Os números mostram um problema muito maior do que o debate nas redes

Enquanto a participação dos cinco jogadores dominava discussões sobre presunção de inocência e falsas acusações, o Brasil registrava o maior número de estupros da série histórica.

Segundo o 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, foram 87.545 estupros registrados em 2024, o equivalente a um caso a cada seis minutos. Em 88,2% dos registros, as vítimas eram mulheres. Em 76,8%, tinham até 13 anos de idade. A violência também continua acontecendo, majoritariamente, dentro do ambiente que deveria oferecer proteção: cerca de 67% dos casos ocorreram na residência da vítima, e, na maior parte das ocorrências, o autor era alguém conhecido.

Mesmo esses números, no entanto, estão longe de representar toda a dimensão do problema. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estima que o Brasil registre aproximadamente 822 mil estupros por ano, o equivalente a mais de 2.200 vítimas por dia. A diferença entre as estimativas e os registros oficiais é explicada por um fenômeno recorrente em crimes dessa natureza: a subnotificação.

Medo, vergonha, dependência financeira, ameaças, trauma e a descrença nas instituições estão entre os fatores que fazem milhares de vítimas nunca procurarem a polícia. Quando a violência envolve crianças e adolescentes, a dificuldade costuma ser ainda maior. Dados divulgados pela Agência Brasil mostram que, apenas entre meninas, 64 são vítimas de violência sexual todos os dias no país.

Investigações, perícias, oitivas e recursos fazem parte de um processo que poucas denúncias conseguem concluir.
Imagem feita com ferramentas de inteligência artificial.

Denunciar está longe de significar condenação

A ideia de que uma denúncia é suficiente para destruir a vida de um homem costuma aparecer com frequência nas redes sociais. Os dados sobre violência sexual, porém, mostram que, na prática, o maior desafio ainda é fazer com que uma denúncia percorra todo o caminho até a Justiça.

Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estima que o Brasil registre cerca de 822 mil estupros por ano, o equivalente a quase dois casos por minuto. Apesar da magnitude do problema, apenas 8,5% dessas ocorrências chegam ao conhecimento da polícia, o que significa que mais de nove em cada dez casos permanecem fora das estatísticas oficiais.

Mesmo quando a vítima consegue romper o silêncio e registrar um boletim de ocorrência, o percurso até uma decisão judicial está longe de ser simples. Uma pesquisa realizada no Rio de Janeiro mostrou que apenas 6% dos investigados por estupro chegaram efetivamente a julgamento. O dado não representa condenações, mas evidencia quantos casos conseguem ultrapassar todas as etapas da investigação e, de fato, ser analisados pela Justiça.

Entre o registro da ocorrência e um eventual julgamento existem perícias, coleta de vestígios, oitivas de vítimas e testemunhas, produção de provas, recursos e, muitas vezes, anos de tramitação. Há investigações arquivadas por falta de elementos suficientes, processos interrompidos e vítimas que desistem de prosseguir diante do desgaste emocional, da exposição pública e da revitimização durante o próprio procedimento judicial.

Enquanto grande parte das discussões gira em torno dos efeitos que uma denúncia pode provocar sobre a vida do acusado, os dados mostram que o principal gargalo está antes disso: milhares de vítimas sequer conseguem ver suas denúncias transformadas em processos que cheguem ao julgamento.

Enquanto frases de efeito dominam o debate nas redes sociais, a maioria das denúncias de violência sexual sequer consegue chegar ao julgamento.
Imagem feita com ferramentas de inteligência artificial.

Muito além da Copa

Os dados ajudam a colocar em perspectiva um debate que costuma ser reduzido a frases de efeito nas redes sociais. Enquanto o discurso de que “uma denúncia acaba com a vida de um homem” continua sendo repetido sempre que um caso de violência sexual ganha repercussão, milhares de vítimas sequer conseguem registrar uma ocorrência.

Recursos podem modificar sentenças, condenações podem ser revistas por tribunais superiores e processos podem se estender por anos. O caso do ex-jogador Daniel Alves ilustra essa complexidade. Condenado em primeira instância por estupro na Espanha em 2024, ele teve a decisão anulada pelo Tribunal Superior da Catalunha no ano seguinte, sob o entendimento de que as provas apresentadas não eram suficientes para afastar a presunção de inocência. O Ministério Público espanhol recorreu da decisão, e o caso segue produzindo debates sobre os desafios da responsabilização em crimes sexuais e sobre os limites da prova nesses processos.

Ao mesmo tempo, a Copa do Mundo de 2026 mostrou que acusações ou processos em andamento também não significam, necessariamente, o afastamento da vida pública. Cinco jogadores chegaram ao principal torneio do futebol mundial respondendo a investigações ou processos relacionados à violência sexual e continuaram representando seus países normalmente, amparados pelo princípio da presunção de inocência e pela ausência de regras da FIFA que determinem seu afastamento automático.

Entre uma denúncia e uma decisão judicial existe um caminho que pode levar anos. Nesse período, vítimas convivem com a espera por uma resposta da Justiça, enquanto acusados seguem suas vidas, mesmo respondendo a processos que ainda não chegaram ao fim.

A Copa do Mundo de 2026 colocou essa realidade em evidência. De um lado, cinco jogadores ainda respondem a acusações de violência sexual sem que isso tenha impedido suas convocações. Do outro, os dados mostram que milhares de vítimas sequer conseguem fazer com que seus casos cheguem a julgamento.

No fim, talvez a pergunta levantada pela Copa nunca devesse ter sido apenas o que acontece com quem é acusado, mas principalmente o que acontece com quem decide denunciar.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Beatriz Figueiredo é jornalista e especialista em comunicação estratégica, com experiência em assessoria de imprensa, comunicação institucional, produção de conteúdo e mídias digitais. Atuou em veículos de comunicação, órgãos públicos, campanhas eleitorais e projetos esportivos. É Sócia Administrativa da Vollier Mídia e Serviços, onde participa da gestão da empresa e do desenvolvimento de projetos de posicionamento de marca, comunicação corporativa e presença digital.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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