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Quem controla a informação não precisa controlar as pessoas

Toda sociedade depende das redes de informação que a conectam.
Imagem feita com ferramentas de inteligência artificial.

Se essa interpretação estiver correta, a discussão sobre inteligência artificial talvez seja menos tecnológica do que imaginamos

Por Arnaldo Reis Figueiredo

A inteligência artificial ocupa manchetes, reuniões de conselho, planejamentos estratégicos e debates regulatórios. Mas, depois da leitura dos livros mais recentes de Yuval Noah Harari, passei a enxergar a transformação por outro ângulo: ela não acontece apenas dentro das máquinas.

Ao longo dos últimos meses, procurei explorar diferentes respostas para essa questão nesta série de artigos. Falamos sobre impactos no trabalho, influência algorítmica, concentração de poder, governança e os desafios que começam a surgir à medida que sistemas inteligentes ocupam espaços cada vez mais centrais na sociedade. Em comum, todas essas reflexões buscavam compreender não apenas o que a inteligência artificial é capaz de fazer, mas porque ela se tornou um tema tão importante para empresas, governos e indivíduos.

No artigo publicado na semana passada, “Muito antes do ChatGPT, alguém já estava fazendo as perguntas que discutimos hoje”, revisitei Sapiens e Homo Deus. A principal percepção daquela leitura foi que muitas das questões que hoje associamos à inteligência artificial são anteriores à própria tecnologia. Temas como confiança, cooperação, influência e poder já apareciam nas reflexões de Yuval Noah Harari muito antes de algoritmos e modelos generativos ocuparem espaço no debate público.

Ao avançar para 21 Lições para o Século 21 e, posteriormente, para Nexus, esperava encontrar uma discussão cada vez mais centrada na inteligência artificial. O que encontrei foi o movimento inverso.

Quanto mais avançava pelas páginas, menos a discussão era sobre máquinas e mais ela se concentrava em algo muito mais antigo e justamente por isso mais relevante: a informação.

Foi justamente essa percepção que mais me chamou atenção. Se nos livros anteriores Harari procurava explicar como sociedades humanas foram capazes de construir sistemas de cooperação em larga escala e para onde esses sistemas poderiam evoluir, nas obras mais recentes o foco se desloca para uma questão ainda mais fundamental: como redes de informação moldam a forma como enxergamos a realidade e tomamos decisões.

Toda sociedade é construída sobre conhecimento compartilhado.
Imagem feita com ferramentas de inteligência artificial.

A arquitetura invisível da realidade

Ao longo da história, nenhuma sociedade foi construída apenas sobre fatos. Todas dependeram de sistemas capazes de organizar informações, criar narrativas compartilhadas e conectar milhões de pessoas em torno de objetivos comuns. Religiões, impérios, sistemas financeiros, governos, meios de comunicação e instituições sobreviveram porque conseguiram estabelecer mecanismos que permitiam às pessoas interpretar a realidade de forma relativamente semelhante. Esse é um dos pontos centrais de Nexus.

O livro sugere que a história humana também pode ser observada como a história das redes de informação. Quem consegue organizar melhor essas redes adquire uma capacidade extraordinária de coordenação, influência e poder. Não porque controla diretamente as pessoas, mas porque participa da construção do ambiente informacional dentro do qual elas tomam decisões.

Durante séculos, poder significou controlar territórios, exércitos, recursos naturais ou infraestrutura. Hoje, entretanto, uma parte crescente dessa disputa acontece em um território muito menos tangível: os fluxos de informação que atravessam empresas, governos, mercados e a vida cotidiana.

Não por acaso, algumas das organizações mais influentes do mundo construíram seu valor sobre plataformas capazes de conectar pessoas, organizar conteúdos e interpretar comportamentos em escala global. Seu principal ativo não está necessariamente na produção da informação. Está na capacidade de organizar aquilo que recebe atenção.

Ao longo desta série falamos sobre influência algorítmica, concentração de poder, governança e responsabilidade. Em diferentes momentos, a tecnologia aparecia como protagonista da discussão. Mas a leitura de Harari revela uma inversão importante. A inteligência artificial pode não ser o ponto de partida da transformação. Ela pode ser a ferramenta mais sofisticada já criada para operar algo muito mais antigo: as redes de informação que sempre organizaram a vida em sociedade.

Essa perspectiva ajuda a compreender por que os debates atuais vão muito além da tecnologia. Quando plataformas definem quais conteúdos ganham visibilidade, quando sistemas recomendam informações específicas para grupos específicos e quando algoritmos passam a participar da mediação entre fatos e pessoas, a discussão deixa de ser apenas técnica. Ela passa a envolver confiança, influência, poder e legitimidade.

Em 21 Lições para o Século 21, Harari já demonstrava preocupação com a velocidade das transformações informacionais e com a dificuldade crescente de distinguir conhecimento, opinião, propaganda e manipulação em um ambiente cada vez mais conectado. Em Nexus, essa reflexão ganha uma dimensão ainda mais ampla. A questão já não é apenas quais informações circulam, mas quem organiza os sistemas responsáveis por fazê-las circular.

É justamente por isso que esses livros dialogam tão diretamente com os desafios atuais da inteligência artificial. Não porque antecipem tecnologias específicas, mas porque ajudam a enxergar algo que muitas vezes passa despercebido. O verdadeiro poder raramente está apenas na ferramenta. Ele costuma estar na estrutura que determina como essa ferramenta será utilizada.

Ao concluir a leitura, fiquei com a impressão de que a grande disputa da era da inteligência artificial não está nas máquinas. Ela está na capacidade de organizar os fluxos de informação que moldam percepções, influenciam decisões e ajudam a definir a forma como sociedades inteiras compreendem a realidade.

Se essa interpretação estiver correta, a discussão sobre inteligência artificial talvez seja menos tecnológica do que imaginamos. Ela passa a envolver temas como transparência, responsabilidade, governança e, principalmente, os limites da influência exercida por sistemas que participam cada vez mais da organização da informação.

Porque, no final, a questão talvez não seja o que a inteligência artificial é capaz de fazer. A questão é quem define até onde ela deve ir.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Arnaldo Reis Figueiredo é executivo de Desenvolvimento de Novos Negócios em Tecnologia da Informação, com ampla experiência em transformação digital e estratégia de TI. Atua como conselheiro da Vollier Mídia e Serviços | @vollier, contribuindo com direcionamento estratégico em tecnologia e posicionamento de marca.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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