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Psicóloga Comportamental e Cognitiva, Neuropsicóloga, Psicopedagoga

Pequenos rituais ou sinais de alerta?

Imagem criada com ferramentas de inteligência artificial.

Entenda o TOC, o controle e as estereotipias na infância

Quem convive com crianças sabe que o mundo delas é cheio de fases, manias e repetições. Quem nunca viu um pequeno que só dorme se a história for contada exatamente do mesmo jeito, ou que evita pisar nas linhas da calçada? Na infância, muitas dessas regras trazem previsibilidade e segurança. No entanto, quando essas repetições se tornam rígidas demais, geram sofrimento ou começam a atrapalhar a rotina, é hora de acendermos o sinal de alerta.

Como psicóloga infantil, percebo no consultório que muitos pais confundem comportamentos de controle, estereotipias e o Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC). Vamos entender a diferença entre eles e descobrir como ajudar?

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

O que é o TOC infantil? O Transtorno Obsessivo-Compulsivo é uma condição clínica que envolve dois componentes principais: as obsessões e as compulsões.

Obsessões: são pensamentos, imagens ou impulsos repetitivos e intrusivos que invadem a mente da criança, gerando muito medo, dúvida ou ansiedade (ex: medo extremo de contaminação por germes ou a sensação de que algo terrível vai acontecer se ela não fizer algo).

Compulsões: são os comportamentos repetitivos (rituais) que a criança se sente obrigada a fazer para aliviar aquela ansiedade ou evitar o que teme (ex: lavar as mãos excessivamente, checar a porta várias vezes ou organizar os brinquedos em uma simetria perfeita). No TOC, a criança não tem prazer em fazer o ritual; ela o faz apenas para cessar o sofrimento do pensamento obsessivo.

A necessidade de controle

Muitas crianças manifestam uma rigidez comportamental conhecida como “necessidade de controle”. Elas querem ditar as regras das brincadeiras, exigem que a rotina seja inflexível e toleram muito mal as frustrações ou mudanças de planos. Muitas vezes, esse controle é uma tentativa imatura de gerenciar uma ansiedade interna. A criança pensa: “Se eu controlar tudo ao meu redor, nada de ruim ou inesperado vai acontecer”. Diferente do TOC, aqui não há necessariamente um ciclo fechado de obsessão e rituais bizarros, mas sim uma dificuldade geral em lidar com o fluxo natural da vida.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

O que são as estereotipias?

As estereotipias são movimentos corporais ou vocalizações repetitivas, rítmicas e sem uma finalidade funcional aparente. Exemplos comuns são o flapping (bater as mãos como asas), balançar o tronco para frente e para trás, andar na ponta dos pés ou repetir certos sons. Elas são muito frequentes no Transtorno do Espectro Autista (TEA), mas também podem aparecer em crianças neurotípicas. A grande diferença para o TOC é que a estereotipia geralmente serve como uma forma de autorregulação sensorial: a criança recorre a ela quando está muito animada, cansada, entediada ou sobrecarregada pelo ambiente. Não há um “pensamento de medo” por trás do movimento.

Como os pais podem ajudar?

Se você identificou algum desses sinais no seu filho, o ingrediente principal é o acolhimento, e não a punição.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Algumas atitudes práticas

Não tente proibir ou brigar: validar o sentimento da criança é o primeiro passo. Brigar ou castigar por causa de um ritual ou de uma estereotipia só aumenta a ansiedade, o que, por consequência, piora o comportamento.

Não alimente o ritual do TOC: se a criança com TOC pede para você checar a tranca da porta pela décima vez, evite validar o medo dela fazendo a checagem. Em vez disso, diga amorosamente: “Eu sei que o seu pensamento está te dando medo, mas a mamãe já olhou e estamos seguros. Vamos focar em outra coisa?”.

Flexibilize a rotina aos poucos: para as crianças controladoras, treine pequenas mudanças no dia a dia. Mude o caminho para a escola, troque a ordem do café da manhã e mostre que o inesperado também pode ser divertido e seguro.

Ofereça alternativas de autorregulação: se a criança apresenta estereotipias por ansiedade ou agitação, ajude-a a encontrar outras formas de acalmar o corpo, como massagens, atividades físicas, momentos de respiração profunda ou brinquedos de apertar (fidget toys).

Quando buscar ajuda profissional?

O limite entre o comportamento comum da infância e o transtorno é o prejuízo na rotina e o grau de sofrimento. Se o seu filho gasta muito tempo do dia nesses rituais, se deixa de brincar com amigos, se o rendimento escolar caiu ou se as crises de choro e rigidez estão desgastando a harmonia familiar, busque a avaliação de uma psicóloga infantil ou neuropediatra.

O diagnóstico precoce e a psicoterapia (especialmente a Terapia Cognitivo-Comportamental) devolvem a leveza que a infância merece ter. Olhe para o seu filho com paciência: por trás de um comportamento difícil, há sempre uma criança tentando se comunicar.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Mineira de Poços de Caldas, Cynthia Wood Passianottoé formada pela Universidade São Marcos, com especialização em Neuropsicologia e em diversas outras áreas q7ue focam na formação infantil e adolescente. Mãe de 2 filhos, casada com o também psicólogo Luciano Passianotto, Fundou e dirige o espaço Crescendo e Acontecendo no Morumbi, no qual se dedica no trabalho educacional e de orientação à educação de crianças e adolescentes há mais de 20 anos.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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