Skip to content

Setembro Amarelo lembra que cuidar da saúde mental também faz parte do trabalho

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Psicóloga e especialista em RH mostra como empresas e lideranças podem prevenir, perceber, acolher e encaminhar situações de sofrimento emocional

Setembro é tradicionalmente marcado pelo amarelo da conscientização e prevenção do suicídio. Mas, para além das campanhas realizadas neste mês, o Setembro Amarelo traz uma discussão cada vez mais necessária para o mundo corporativo: como as empresas podem reconhecer sinais de sofrimento emocional e criar ambientes de trabalho mais seguros, humanos e saudáveis?

Para a psicóloga e especialista em Recursos Humanos, Mene Vianna, a resposta passa por quatro atitudes que precisam fazer parte da cultura das organizações durante todo o ano: prevenir, perceber, acolher e encaminhar. “A proposta exige uma mudança de olhar. Em vez de esperar que um colaborador chegue ao limite para agir, empresas e lideranças precisam desenvolver uma cultura permanente de prevenção, escuta e cuidado”.

Em 2026, essa discussão deixou de ser apenas cultural e passou a ter peso regulatório. Desde 26 de maio, a NR-01 exige que as empresas identifiquem e gerenciem os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho, dentro do gerenciamento de riscos ocupacionais. Em junho, o Supremo Tribunal Federal suspendeu por 90 dias as multas ligadas a alguns dispositivos dessa exigência — decisão referendada pelo Plenário em agosto e cujo prazo se encerra ao final de setembro.

Para Mene, a decisão foi mal interpretada pelo mercado. “A leitura que circulou foi: o STF derrubou a norma, pode relaxar. Não foi isso. O que ficou suspenso foi a multa, e por um prazo que acaba agora. A obrigação nunca saiu do lugar“, afirma a especialista que ainda explica que a responsabilidade da empresa pela saúde mental de quem trabalha não nasceu com a NR-01. “Ela vem da Constituição e de anos de decisão da Justiça do Trabalho. Multa suspensa não suspende processo trabalhista”.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Não podemos falar em saúde mental no trabalho apenas quando existe uma crise. O cuidado começa muito antes, na maneira como a empresa organiza o trabalho, conduz suas equipes e prepara suas lideranças para perceber quando alguém precisa de ajuda.

Nesse sentido, prevenir é o primeiro passo. A prevenção começa pelas próprias condições oferecidas aos profissionais. Carga excessiva de atividades, pressão permanente, falta de reconhecimento, ambientes hostis, conflitos e ausência de

equilíbrio entre vida pessoal e profissional podem contribuir para o sofrimento emocional.

Por isso, segundo a especialista, as empresas precisam olhar para esses fatores de maneira contínua, avaliando a distribuição das demandas, identificando possíveis situações de sobrecarga, desenvolvendo lideranças mais preparadas e humanas, combatendo assédio e comportamentos desrespeitosos e criando canais seguros de diálogo. “Empresa grande em geral já está com a norma rodando: tem RH, tem jurídico, tem segurança do trabalho. Quem está descoberto é a empresa de médio porte, que cresceu mais rápido que a própria estrutura. E é justamente sobre ela que quase ninguém está falando“, observa Mene.

Outro ponto importante é perceber. Nem sempre uma pessoa que está passando por sofrimento emocional consegue dizer claramente que precisa de ajuda. Mudanças de comportamento, como isolamento, irritabilidade, queda repentina de rendimento, faltas frequentes, perda de interesse pelas atividades ou alterações significativas na interação com os colegas, podem indicar que algo não vai bem.

Isso, no entanto, não significa diagnosticar ou rotular um profissional. O papel da liderança é estar atenta, observar mudanças e abrir espaço para uma conversa respeitosa, entendendo quando é necessário buscar apoio especializado. “O gestor não precisa ser psicólogo. Ele precisa estar preparado para perceber mudanças, conversar sem julgamento e saber qual é o caminho adequado para encaminhar aquela pessoa“, explica a especialista.

Depois de perceber, é preciso acolher. E acolher não significa solucionar o problema do outro, mas criar um espaço seguro para que a pessoa possa falar sobre o que está vivendo sem medo de ser julgada, exposta ou penalizada. Uma liderança preparada pode fazer uma abordagem simples, respeitosa e humana, demonstrando disponibilidade para ouvir.

Esse movimento também contribui para combater uma cultura ainda presente em muitos ambientes profissionais, a ideia de que demonstrar fragilidade é sinônimo de falta de competência ou comprometimento. “Precisamos substituir a cultura do aguente firme pela cultura do vamos conversar. Uma pessoa não deixa de ser competente porque está passando por um momento difícil“, afirma Mene.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

O quarto pilar é encaminhar. Empresas e gestores não substituem profissionais de saúde e, diante de situações que exigem atenção especializada, é fundamental orientar o colaborador a buscar ajuda adequada e conhecer os recursos disponíveis para esse encaminhamento.

Entre os caminhos gratuitos e públicos estão o CVV, que atende 24 horas pelo telefone 188, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e as Unidades Básicas de Saúde. Em empresas que têm plano de saúde, programa de apoio ao empregado ou medicina ocupacional, o recurso muitas vezes já existe e é pouco conhecido

pelas equipes. “A pergunta que derruba a maioria das empresas não é como eu percebo. É: e agora, para onde eu mando essa pessoa? Quem não tem essa resposta escrita antes não vai ter na hora“, diz Mene.

O principal ponto da discussão é justamente compreender que o Setembro Amarelo não termina em 30 de setembro. A campanha não deve ser tratada apenas como uma ação pontual, com palestras, mensagens internas ou atividades concentradas em um único mês. A saúde mental precisa fazer parte da cultura organizacional durante todo o ano.

Isso significa construir ambientes de trabalho seguros e respeitosos, nos quais as pessoas possam falar sobre dificuldades, pedir ajuda e estabelecer limites sem medo de serem estigmatizadas. Também significa rever práticas de gestão que estimulem a sobrecarga, o silêncio ou a ideia de que a produtividade deve estar sempre acima do bem-estar. “A campanha é importante porque abre espaço para uma conversa que muitas vezes é difícil. Mas o verdadeiro resultado acontece quando essa conversa continua depois de setembro“, destaca a especialista.

Mais do que uma campanha de conscientização, o Setembro Amarelo pode ser um ponto de partida para que empresas revejam suas práticas, preparem suas lideranças e fortaleçam uma cultura de cuidado. Afinal, prevenir, perceber, acolher e encaminhar não são atitudes que devem acontecer apenas em setembro. Cuidar da saúde mental também faz parte do trabalho, durante todo o ano.

Mene Vianna é psicóloga e especialista em Liderança pela FIA, com 20 anos de experiência em Recursos Humanos. Nos últimos oito anos, estruturou áreas de gestão de pessoas em empresas de 120 a 2.000 colaboradores no Brasil, no Paraguai e na Bolívia, nos setores de indústria, varejo e distribuição. Atua na implantação da NR-01 e da gestão de riscos psicossociais em empresas de médio porte. É sócia da Ateeve.

@menevianna | @ateevepessoas

Gostou da matéria? Quer fazer comentários, críticas ou sugestões, escreva para a Dolce Morumbi®: contato@dolcemorumbi.com

Demais Publicações

A primavera do comércio

Como setembro faz seu caixa florescer

O voto que decide o país costuma ser escolhido por último

Toda eleição fala sobre o futuro, mas esse futuro dificilmente será construído por uma única cadeira ocupada no Executivo

A primavera traz o despertar de sua beleza

Setembro bate à porta e a natureza nos dá o aviso mais bonito do ano: é hora de florescer de novo

Bandeira branca

Insistir em batalhas perdidas só serve para agigantar o inimigo que vive dentro de nós

As pequenas cidades brasileiras que merecem entrar no seu roteiro

O país tem uma infinidade de pequenas cidades que guardam paisagens encantadoras, histórias interessantes, tradições culturais e experiências que muitas vezes passam despercebidas

O novo luxo é autoral: pequenos estilistas valorizam identidade e artesania na moda brasileira

Miss Universe Brasil, Marcella Kozinski levou ao confinamento criações de diferentes estilistas nacionais e realizou ensaio exclusivo com peça inspirada na Ilha do Mel

Meu filho vai à psicóloga só para brincar?

No consultório, o brincar, o desenho e a arte são ferramentas terapêuticas fundamentais

Vida após a morte

Três irmãos redescobrem o afeto no rastro da partida do pai

Painel Dolce Morumbi

As Mais lidas da Semana

Publicidade Dolce Morumbi

arte-painel-dolce-cantiga-crianca_11zon
PlayPause
previous arrow
next arrow
arte-painel-dolce-abtours_1_11zon
PlayPause
previous arrow
next arrow
Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

Seções