Ao saírem do café na Rua da Castanheira, os irmãos foram até o carro onde o outro irmão já estava. Antes que ele fosse embora, pediram que imitasse mais uma vez a frase do pai.
Ele baixou o vidro, ajeitou a voz, olhou para os dois e disse:
“Ah, hoje o cavalheiro e a madame estão vestidos com a mais alta profilância!”
Os três caíram na gargalhada e não permitiram que ele fosse embora até que imitasse a árvore genealógica completa dos Azevedo Valência.
Um ano depois, o patriarca morreu às 9h27. Dez minutos mais tarde, os filhos já estavam distantes do quarto do hospital. Em silêncio e num estranho estado de sonambulismo, cada um seguiu para o seu lado.
O único vínculo remanescente entre eles havia finalmente descansado. Mas, a contragosto, ainda tiveram que se encontrar no velório que ele havia proibido e no enterro do pai claustrofóbico.
Cumprimentaram-se polidamente, da mesma maneira que se despediram.
Foram anos de discórdia por causa do pai, dos médicos, dos tratamentos e deles mesmos.
Agora pairavam somente o silêncio e o desconforto.
A morte, no entanto, é cheia de burocracias e absolutamente indiferente às desavenças familiares.

Era preciso escolher tudo aquilo que o falecido, por razões óbvias, já não podia optar.
O cemitério oferecia uma placa por um preço que faria qualquer um cogitar seriamente a ressurreição. Um dos irmãos descobriu que no Mercado Livre havia uma igual por um preço justo. Foi comprada no Mercado Livre.
Também descobriram que até os cremados tinham seus problemas. As flores não podiam simplesmente ser deixadas sobre o local onde repousavam as cinzas. Havia regras, procedimentos e, como em quase tudo na vida, maneiras oficiais e menos oficiais de contorná-los.
Uma caixinha discretamente passada por baixo dos panos resolvia algumas dessas questões.
O progenitor certamente teria apreciado a cena.
A urna dele ficava distante das demais, sob uma árvore imensa.
A árvore se destacava das outras. Era grande, antiga, com uma copa extensa que se espalhava sobre boa parte daquele pedaço do cemitério. Sob ela havia sombra e, próximo ao tronco, um banco.
Foi ali que os três passaram a se encontrar. Ao redor havia cataventos.
Muitos. Coloridos, de plástico, espalhados entre as sepulturas e as árvores. Giravam ao menor sinal de vento e davam ao lugar uma aparência que os três consideravam de absoluto mau gosto.
Ninguém entendia por que colocavam aquilo num cemitério.
A irmã caçula, porém, acabou comprando um. Mas não um daqueles. Escolheu um catavento de metal dourado que era mais pesado que os outros.
Por isso, enquanto os pequenos cataventos de plástico giravam freneticamente com qualquer sopro, o dourado precisava de um pouco mais de vento para começar a se mover. E, quando se movia, girava lentamente.
O sol atravessava a copa da árvore, batia no metal e o fazia reluzir entre as folhas. Era um catavento de autêntica profilância.
Também havia qualquer coisa naquele giro vagaroso que combinava com o pai. Parecia que o patriarca suspirava quando os via.
A árvore, o banco, as flores e o catavento dourado passaram, pouco a pouco, a fazer parte daqueles encontros.
Os três ainda estavam amargurados.
Um dos irmãos era religioso e sempre rezava quando chegava.
O outro cumprimentava o pai com a naturalidade de quem chegava para uma visita e, vez ou outra, também rezava.
A irmã caçula, ateia, permanecia em silêncio e cuidava das plantas.
Ainda não sabiam exatamente o que fazer uns com os outros.
Por algum tempo, os encontros continuaram sendo apenas uma consequência da morte.
E ainda havia as datas. E as datas os obrigavam a voltar: algo precisava ser resolvido, flores precisavam ser levadas ou algum assunto relacionado ao pai surgia.
E eles se encontravam. No começo, falavam pouco, depois um pouco mais.
Algum aspecto, muito lentamente, começava a se mover, talvez como o catavento dourado.
Antes disso, porém, ainda seria necessário mais um encontro.
Nesse dia, sem saber exatamente por que, a irmã caçula se viu rezando junto com os irmãos. Ela já nem se lembrava direito do Pai-Nosso.
Começou tentando acompanhar. Perdeu-se.
Retomou quando reconheceu algumas palavras e perdeu-se novamente.
Não entendia muito bem o que estava fazendo ali, rezando uma oração na qual já não sabia se acreditava.
Mas se sentia bem.
Quando terminaram, um dos irmãos olhou para ela de maneira diferente e ela percebeu.
Ninguém comentou. Saíram conversando.

E, pela primeira vez em muito tempo, a conversa não terminou quando finalizaram aquilo que precisavam resolver.
Pareciam começar a se livrar daquele estado de sonambulismo em que haviam entrado dez minutos depois da morte do pai.
Resolveram tomar um café e foram para a Rua da Castanheira.
Falaram sobre pequenezas, depois sobre o trânsito e pediram o café aguado de sempre.
Assuntos absolutamente banais começaram a ocupar o espaço que durante anos fora preenchido por médicos, tratamentos, ressentimentos e pelo pai. Talvez não fosse pouco.
Talvez irmãos que passaram anos afastados precisassem mesmo começar pela delicadeza do que é pequeno.
Em determinado momento, a irmã caçula perguntou:
“Mas, afinal, o que é profilância?”
Um dos irmãos explicou.
Muitos anos antes, uma moça que trabalhara na casa dos pais gostava de inventar palavras que soassem elegantes.
E um dia cometeu o erro crasso de pronunciar uma delas diante do maior caçoísta de todos: o progenitor.
Profilância: a palavra queria dizer elegante. Ao menos para ela.
O pai imediatamente a adotou.
Passou a usá-la sempre que queria atribuir a alguém ou a algo uma elegância um tanto suspeita.
De tanto ouvi-la, todos acabaram se acostumando.
Até que certo dia um advogado, depois de escutar profilância inúmeras vezes, acreditou que a palavra realmente existia.
E a soltou no meio de uma audiência.
Os três riram.
Da moça. Do advogado. Do pai.
Por fim, da palavra que nunca existira e, ainda assim, sobrevivera a todos aqueles anos.
Se há vida após a morte? Ora, como vou saber? Ainda nem tenho o meu catavento.
O que sei é que foi assim que os sonâmbulos redescobriram a vida após a morte do pai.




























