Skip to content

Quando a pessoa desconfia da própria força

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Muitas pessoas bem-preparadas, estudiosas, sensíveis e responsáveis sofrem exatamente porque não conseguem internalizar aquilo que realizam

Por Silvana Helal Nascimento

Há pessoas que conquistam muito, mas se autorizam pouco.

Recebem elogios, mas os relativizam. São reconhecidas por sua competência, mas acreditam que poderiam ter feito melhor. Ocupam lugares importantes, entregam resultados consistentes, sustentam responsabilidades, mas, intimamente, carregam uma suspeita silenciosa: “Será que sou tudo isso mesmo?”

Essa experiência é conhecida popularmente como Síndrome do Impostor, embora a literatura científica utilize com mais frequência a expressão Fenômeno do Impostor. Trata-se de uma experiência na qual a pessoa tem dificuldade de reconhecer e internalizar suas próprias conquistas, tendendo a atribuir seus resultados à sorte, ao acaso, ao esforço excessivo ou à avaliação equivocada dos outros. Mesmo diante de evidências concretas de capacidade, pode permanecer o medo de ser descoberta como uma fraude.

É uma vivência mais comum do que parece.

Muitas pessoas bem-preparadas, estudiosas, sensíveis e responsáveis sofrem exatamente porque não conseguem internalizar aquilo que realizam. Elas produzem, ajudam, lideram, criam, ensinam, cuidam — mas, por dentro, ainda duvidam do próprio valor.

A psicologia contribui muito para compreender esse fenômeno. Ela observa pensamentos distorcidos, crenças de incapacidade, perfeccionismo, autocrítica rígida, medo da exposição, comparação constante e dificuldade de aceitar reconhecimento. Nessa leitura, a pessoa precisa aprender a avaliar a realidade de modo mais justo, acolher suas conquistas e construir uma percepção mais coerente de si mesma.

Mas existe uma outra camada possível de análise. Uma outra pergunta.

Sob a ótica do paradigma consciencial, essa experiência pode ser compreendida não apenas como uma dificuldade emocional ou cognitiva, mas também como um problema de autopercepção evolutiva.

Isso significa olhar para a pessoa não somente como personalidade desta vida, mas como uma consciência em evolução, portadora de história, talentos, desafios, vínculos, responsabilidades e potencial interassistencial.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

A autora Adriana Kauati, no livro “Síndrome do Impostor: superação pela autocientificidade”, amplia essa reflexão ao relacionar o fenômeno à autopesquisa e à identificação mais lúcida dos traços pessoais.

Em vez de tratar a dúvida sobre si apenas como insegurança, a abordagem consciencial convida a pessoa a investigar: quais são meus trafores, ou traços-força? Quais são meus trafares, ou traços fracos que dificultam minha evolução? Quais trafais, ou traços faltantes, ainda preciso desenvolver?

Essa diferença é importante.

Na psicologia, a pessoa pode perguntar: “Por que eu não acredito nas minhas conquistas?”. No paradigma consciencial, ela também pode perguntar: “O que acontece comigo quando nego meus trafores?”; “Que assistência deixo de prestar quando não assumo minha capacidade?”; “Que parte da minha programação existencial ou do meu mandato evolutivo pode ficar comprometida quando diminuo minha própria força?”.

A mudança da pergunta altera profundamente o centro da reflexão. Nem inflação, nem diminuição. Reconhecer um talento não é vaidade. Assumir um trafor não é arrogância. Valorizar a própria capacidade não significa sentir-se superior.

Mas existe uma diferença fundamental entre reconhecer a própria força e construir uma identidade baseada na própria força. É aqui que aparece um contraponto importante.

A vaidade pode levar a pessoa a superdimensionar seus atributos, buscar reconhecimento e utilizar suas realizações como fonte de superioridade. O fenômeno do impostor pode levá-la ao movimento contrário: minimizar suas realizações, rejeitar reconhecimento e desconfiar da própria capacidade.

À primeira vista, parecem experiências opostas. Mas podem ter algo em comum: ambas podem manter a consciência excessivamente centrada na própria imagem. Uma pessoa vaidosa pode perguntar: “Como estou sendo percebida?”. A pessoa que vivencia o fenômeno do impostor pode perguntar: “Será que estão percebendo que eu não sou tão boa quanto imaginam?”. Em ambas, o foco permanece fortemente colocado sobre o eu percebido.

A autoliderança evolutiva propõe uma terceira posição: “Diante dos recursos que reconheço em mim, qual é a maneira mais lúcida, cosmoética e assistencial de utilizá-los?”. Essa pergunta muda tudo.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Vaidade, impostura e autoliderança evolutiva

Há uma diferença enorme entre vaidade e autoliderança evolutiva.

A vaidade infla. A autoliderança responsabiliza. A vaidade quer ser admirada.

A autoliderança quer ser coerente. A vaidade busca superioridade. A autoliderança busca utilidade assistencial. A vaidade pergunta: “O que isso diz sobre mim?”. A autoliderança pergunta: “O que posso fazer com isso?”

A vaidade transforma o talento em identidade. A autoliderança transforma o talento em responsabilidade. Nesse sentido, talvez o verdadeiro contraponto não seja simplesmente vaidade versus humildade.

Pode ser algo mais profundo: autoimagem versus autoliderança evolutiva.

A pessoa vaidosa precisa provar seu valor. A pessoa dominada pelo fenômeno do impostor precisa provar que não é uma fraude.

A pessoa em autoliderança evolutiva não precisa passar a vida provando quem é. Ela procura conhecer-se, desenvolver-se e utilizar melhor aquilo que já possui.

O trafor como responsabilidade

A autoliderança evolutiva pode ser compreendida como a capacidade de conduzir a própria vida com mais lucidez, responsabilidade e coerência, assumindo a singularidade pessoal — quem se é em essência —, as escolhas, os talentos, os limites e as consequências, sem terceirizar o rumo da própria existência.

Não se trata apenas de liderar projetos, equipes ou pessoas. Trata-se, antes, de liderar a si mesma. Observar os próprios pensamentos. Qualificar as emoções. Reconhecer padrões repetitivos. Reciclar comportamentos imaturos. Assumir limites. Desenvolver trafais.E, principalmente, utilizar os trafores de maneira mais consciente e interassistencial.

Nesse contexto, reconhecer um trafor não deveria produzir inflação do ego. Deveria produzir aumento de responsabilidade. Se tenho facilidade para esclarecer, o que estou fazendo com essa capacidade? Se tenho capacidade de organizar pessoas, estou utilizando-a para controlar ou para favorecer a evolução coletiva? Se tenho capacidade de acolhimento, estou utilizando-a para assistir ou para ser indispensável? Se tenho capacidade intelectual, estou utilizando-a para ampliar a compreensão ou para alimentar minha superioridade? Essa é uma distinção essencial.

O trafor pode alimentar a vaidade ou pode sustentar a assistência. O que muda não é necessariamente o talento. É a intenção, a lucidez e o modo de utilizá-lo. Quando diminuir-se também pode ser uma forma de egocentrismo. Existe ainda um paradoxo interessante. À primeira vista, alguém que se diminui parece estar muito distante da vaidade. Mas será que sempre está?

Se a pessoa permanece excessivamente preocupada com a própria imagem, com o julgamento alheio e com a possibilidade de não corresponder às expectativas, pode continuar centrada em si mesma — apenas pelo caminho da desvalorização.

A vaidade diz: “Preciso que percebam o quanto sou capaz.”

O impostor pode dizer: “Preciso esconder minha suposta incapacidade.”

A autoliderança evolutiva diz: “Não preciso inflar nem diminuir minha imagem. Preciso conhecer melhor meus recursos e utilizá-los com responsabilidade.”

Esse talvez seja um dos movimentos mais importantes da maturidade consciencial: sair da administração da própria imagem e passar à administração lúcida da própria força.

Da autossabotagem à responsabilidade

Nesse sentido, o fenômeno do impostor pode, em determinadas situações, funcionar como uma forma sutil de autossabotagem evolutiva. Não porque a pessoa seja fraca, incapaz ou desinteressada. Mas porque ainda não aprendeu a reconhecer, sustentar e utilizar com maturidade os próprios recursos.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Um professor que nega sua didática pode deixar de esclarecer. Uma psicóloga que duvida excessivamente de sua escuta pode reduzir sua presença terapêutica.

Uma líder que não assume sua capacidade de organizar pessoas pode omitir contribuições relevantes. Uma escritora que desvaloriza sua voz pode calar ideias potencialmente úteis para muitas pessoas.

O problema, portanto, não está somente em não acreditar em si. Pode estar também em não assumir a responsabilidade pelo que se é capaz de fazer.

E aqui a autoliderança evolutiva se diferencia tanto da vaidade quanto da falsa modéstia. Ela não pergunta: “Como posso parecer mais competente?”, nem: “Como posso evitar que descubram minhas limitações?”, ela pergunta: “Como posso desenvolver e utilizar melhor aquilo que tenho?”

Liderar a si mesma

Em conformidade com a autoliderança evolutiva, quem lidera a si mesma deixa de viver apenas reagindo às expectativas externas e passa a orientar suas decisões por valores mais profundos, propósito evolutivo e compromisso com a própria melhoria.

Autoliderança evolutiva é, portanto, a coragem de assumir quem se é, reciclar o que ainda limita e colocar os próprios trafores a serviço de algo maior.

Isso inclui reconhecer as próprias capacidades sem precisar transformá-las em motivo de superioridade. Inclui reconhecer as próprias limitações sem transformá-las em motivo de inferioridade. Inclui aceitar elogios sem depender deles. Aceitar críticas sem ser destruído por elas. Reconhecer conquistas sem construir uma identidade de superioridade. Reconhecer dificuldades sem construir uma identidade de incapacidade. É uma posição de maior equilíbrio. Nem inflação. Nem diminuição. Nem vaidade. Nem falsa modéstia.

Autoconsciência e responsabilidade.

Para que serve o meu trafor?

Por isso, superar o fenômeno do impostor não é apenas aprender a receber elogios. É aprender a sustentar, com lucidez, aquilo que se é capaz de realizar sem perder a direção íntima. É abandonar a falsa modéstia que, muitas vezes, pode esconder medo, culpa, comparação ou fuga da responsabilidade.

O paradigma consciencial não elimina a contribuição da psicologia. Ao contrário, amplia o campo de compreensão. A psicologia ajuda a reorganizar crenças limitantes, emoções e comportamentos. O paradigma consciencial acrescenta a pergunta evolutiva: “Para que serve este trafor?”; “A quem ele pode assistir?”; “Como posso colocá-lo a favor da minha evolução e da evolução de outras consciências?”

Essa mudança de perspectiva pode ser especialmente importante em uma época na qual tantas pessoas competentes vivem divididas entre alta performance externa e baixa autorização interna.

Por fora, entregam. Por dentro, desconfiam. Por fora, sustentam papéis. Por dentro, temem não os merecer. Talvez a superação dessa condição comece quando a pessoa deixa de perguntar apenas: “Será que sou boa o bastante?” e passa a perguntar: “Como posso usar melhor aquilo que já tenho de bom?”.

Mas talvez exista uma pergunta ainda mais profunda: “Que responsabilidade evolutiva nasce daquilo que já sou capaz de fazer?”. Essa pergunta desloca o centro da reflexão. A pessoa sai da comparação e entra na autopesquisa. Sai da necessidade de aprovação e entra na responsabilidade. Sai da preocupação excessiva com a própria imagem e entra na autoliderança. Sai da impostura imaginária e começa a construir autenticidade. Nesse momento, reconhecer o próprio valor deixa de ser um exercício de autopromoção. Torna-se um exercício de autoconsciência. Reconhecer o próprio trafor deixa de ser vaidade. Torna-se responsabilidade. Utilizar o próprio trafor deixa de ser afirmação do ego. Torna-se assistência.

Superar o fenômeno do impostor, portanto, é mais do que acreditar em si. É conhecer-se com maior lucidez, reconhecer os próprios recursos sem inflação egóica, assumir as próprias limitações sem autodepreciação e colocar os trafores a serviço da evolução.

É quando a pessoa deixa de perguntar se merece ocupar o lugar que ocupa e começa a perguntar: “Como posso ocupar este lugar da maneira mais lúcida, cosmoética e assistencial possível?”

Talvez seja nesse momento que ela deixe de apenas desconfiar da própria força e comece, verdadeiramente, a liderar a si mesma.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Silvana Helal é psicóloga e mestre em Inteligência Emocional e Bem-Estar no Trabalho, com atuação no desenvolvimento de competências e habilidades socioemocionais desde a infância. Pesquisadora da consciência, dedica-se ao estudo da autoliderança evolutiva e da singularidade consciencial.

Colaboração da pauta:

Demais Publicações

Vida após a morte

Três irmãos redescobrem o afeto no rastro da partida do pai

Até onde o autoconhecimento pode nos levar?

O que você ainda não sabe sobre si pode estar dirigindo suas escolhas, repetindo sua história e limitando silenciosamente a mulher que você ainda pode se tornar

Design, tradição e inovação na 10ª edição da Semana Criativa de Tiradentes

Em sua 10ª edição, a Semana Criativa de Tiradentes transforma a histórica cidade mineira no epicentro do design, do artesanato autoral, da arquitetura e da cultura brasileira

Ela sabe do que fala?

A pergunta que ninguém faz em voz alta — e que decide tudo antes do preço aparecer

O enteado renegado

Como pode um ser humano tratar uma criança como se fosse um objeto qualquer?

Céu de setembro: a alma aprende a dosar intensidade e leveza

Confie no seu poder de cocriar essa travessia; faça acontecer

Por que alguns candidatos, empresas e comércios parecem estar em todo lugar?

A ideia de que quem parece estar em toda parte vive produzindo conteúdo sem parar

Dam Gonzaga revira sua história pessoal para se transformar em uma Artista 7 Estrelas

Entre salões fechados na pandemia, a venda de pudim nas ruas e a dor de quase perder a vida, a cantora sergipana encontrou na DRX Agency o mapa para transformar um celular em palco global, consagrando-se como “Artista 7 Estrelas”

De frente ou de costas?

Existem muitas crendices associadas à forma como nos posicionamos em algumas situações

Painel Dolce Morumbi

As Mais lidas da Semana

Publicidade Dolce Morumbi

arte-painel-dolce-cantiga-crianca_11zon
PlayPause
previous arrow
next arrow
arte-painel-dolce-abtours_1_11zon
PlayPause
previous arrow
next arrow
Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

Seções