Querido leitor e querida leitora!
Muitas das vezes que se fala, acredito que, a nível mundial, quando abordamos a questão dos filhos recebidos, ou seja, os enteados, focamo-nos nas madrastas, na relação entre elas e as crianças, porque, maioritariamente, eles crescem acompanhados ou criados por elas. Mas esquecemo-nos de falar da relação com os padrastos.
Mas claro, obviamente que, vivendo em Moçambique, um país em que essa realidade é bem reduzida por questões culturais e sociais, como é o fato de ser uma sociedade maioritariamente machista, isso é quase um tabu. E, por curioso que pareça, nos últimos 5 a 8 anos, temos um aumento exacerbado de mães solteiras. Mas pronto, isso é tema para a próxima semana.

Voltando.
A verdade é que o homem africano não foi, e não é, até então, criado para assumir o filho de outro homem. Diz-se que não se pode iniciar um jogo já perdendo e, por essa razão, muitos têm proposto às futuras esposas que deixem os filhos com os seus familiares ou até que os entreguem ao tal pai biológico, estando ele vivo.
Como pode um ser humano tratar uma criança como se fosse um objeto qualquer?
E, no fim, ao fazê-lo, esta criança acaba por não receber o devido amor, por não ser fruto desse novo amor.
Mas, que culpa tem a criança?
Que, na sua maioria, só precisa de amor e reconhecimento.
Que culpa tem a criança, pergunto novamente?
Já não lhe basta ser renegada e ainda deve viver com a alegada estranheza do seu padrasto?

Mas depois há quem diga que, no futuro, esta mesma criança poderá, porventura, negar o padrasto, como se diz em gíria popular: “djikelar quem lhe criou”, e depois assumir o pai biológico, que mal cuidou dela, chamando à razão o vínculo sanguíneo [ No português falado em Moçambique e no vocabulário urbano local, o verbo “djikelar” significa expor, criticar publicamente, falar mal, ridicularizar ou trair a confiança de alguém – N. do E. ].
O que não é assim tão raro.
Mas será justo catalogar todo enteado como um futuro ingrato?
Será que não temos casos de sucesso de crianças que, até por algum momento, reconheceram a existência dos seus pais biológicos e, ainda assim, não apagaram a importância do seu padrasto?
Será que não deveríamos arriscar e apenas entregar o amor puro e limpo a esta criança?
E as mães?
Será que elas garantem que os filhos saibam do esforço e do trabalho que este padrasto faz pelas suas crianças?
Porque a mãe também tem um papel superimportante na estrutura da relação entre a criança e o padrasto. Ela é a chave fundamental para uma relação saudável ou agridoce.
Mas, mesmo tendo esta dificuldade enraizada no cérebro, de assumir o filho de outrem, tentem, ao máximo, olhar para esta criança e perceber que o maior erro dela foi ter nascido de uma relação desestruturada.
E cabe a si, também padrasto, garantir que esta mesma criança não sofra as consequências da escolha dos seus progenitores.
E, claro que, possivelmente, perguntem: Agora o padrasto vai ser o responsável por limpar o estrago dos progenitores?
Não. Ele será um elo neutro que poderá escrever e criar a esperança de uma vida melhor e muito bem estruturada para essa criança.
Isso não significa fraqueza. Significa que somos capazes de olhar para uma criança e separar a história dos seus pais daquilo que ela merece receber.
Ela não escolheu nascer daquela relação.
Não escolheu ter pais separados.
Não escolheu ser enteada.
Talvez não tenhas de ser o pai dela.
Talvez nunca ocupes esse lugar.
Mas podes ser um adulto seguro na vida dela.
Podes ser aquele que não a faz sentir-se menos por não ter o teu sangue.
E talvez, no fim, seja exatamente aí que começa o verdadeiro significado de família: não apenas em quem partilha o nosso sangue, mas em quem decide permanecer, cuidar e amar, mesmo quando não foi obrigado a fazê-lo.





























