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Mentora e matchmaker que compartilha seu coração com Brasil e Portugal

Telas cheias, tanques vazios, o desafio de amar na geração Z

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Da hiperconexão digital ao analfabetismo afetivo: como o medo da rejeição e o vício das telas estão a silenciar a intimidade da nova geração

Na última crônica, propus uma provocação: o que sobra quando o fogo da paixão abranda? Busquei as respostas nos extremos. De um lado, a longevidade cúmplice de Glória Menezes e Tarcísio Meira; do outro, as incessantes tentativas de Fábio Júnior — um homem que talvez nunca tenha desistido do amor, mas que teima em tropeçar na gramática necessária para mantê-lo. A conclusão era inevitável: o que sustenta um laço após o entusiasmo inicial não é sorte ou destino, é a disposição diária para aprender a linguagem do outro.

Hoje, retomo essa conversa instigada por um dado que inquieta: estudos recentes apontam a Geração Z como a mais casta da história moderna. As explicações variam, mas a causa subjacente é a mais perturbadora: há uma apatia sutil no ar. Pela primeira vez, temos uma geração socializada inteiramente através das telas, onde o estímulo rápido e asséptico substitui o risco do encontro. No universo virtual, não há rejeição, mas também não há conexão, nem a emoção ou o  “frio na barriga” de olhar nos olhos de outro ser humano.

Há um quê de profético na tese de Neil Postman em “Divertindo-nos até à Morte”. Ao comparar as distopias do século XX, Postman alertou que o nosso verdadeiro perigo não seria o controle violento de Orwell, mas a sedução entorpecente de Huxley: uma sociedade tão hipnotizada pelo entretenimento fácil que entrega, de bom grado, a capacidade de sentir e pensar com profundidade. O que ele diagnosticou na televisão dos anos 80 atinge hoje o seu ápice no scroll infinito dos smartphones. Trocamos a intimidade vulnerável por uma gratificação instantânea, asséptica e, em última análise, profundamente solitária.

O Japão, hiperconectado e pioneiro nos sintomas dessa era, antecipa-nos o diagnóstico extremo deste isolamento. Ali, onde a tecnologia molda a rotina há décadas, multiplicam-se os casos de jovens e adultos que optam por “casar” com avatares de anime, ao mesmo tempo que estatísticas revelam uma percentagem expressiva de jovens que admitem nunca ter beijado outra pessoa. Mas há uma luz no fundo deste túnel de ecrãs. No surpreendente reality show da Netflix, Offline Love, jovens japoneses são desafiados a viver em Nice sem celular, munidos apenas de um mapa em papel, algum dinheiro e caixas de correio para trocarem bilhetes manuscritos. Ao assistir à lentidão quase dolorosa com que reaprendem a olhar nos olhos, a articular conversas sem o filtro digital e a hesitar perante a barreira de um simples caminhar de mãos dadas, torna-se evidente: a capacidade de conectar não morreu, apenas adormeceu sob o peso da tecnologia.

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E por que tudo isto importa? Porque os relacionamentos autênticos são o oxigênio da existência. No balanço final da vida, a única herança genuína que deixamos não é o patrimônio acumulado ou o prestígio profissional, mas a nossa capacidade de ter amado. É por isso que insisto no exercício de reconhecer as linguagens do Amor — não apenas as nossas, mas as do nosso cônjuge, dos nossos filhos e mesmo dos nossos colaboradores e clientes.

Existe um equívoco comum de que a principal linguagem de amor dos homens se resume ao Toque Físico, manifestado sobretudo pelo sexo. Na prática, a dinâmica é bem mais complexa. É verdade que o desejo sexual masculino possui uma forte raiz fisiológica — ativado, em grande medida, pelo estímulo visual —, enquanto o desejo feminino desabrocha sobretudo através da conexão emocional. Contudo, se esse mesmo homem for constantemente exposto a um ambiente de crítica, cobrança ou rejeição verbal, a sua libido em relação à companheira definha. Diante do ataque contínuo, a atração física cede lugar ao distanciamento. Assim, contrariamente ao que ele próprio possa supor, as Palavras de Afirmação revelam-se, muitas vezes, a sua verdadeira e mais urgente linguagem de amor.

A chave, como previa Sócrates, está no autoconhecimento. Uma maneira simples de identificar a própria linguagem do Amor é reparar naquilo que mais nos fere. A omissão ou o descuido do outro no ponto em que somos mais sensíveis indica, com clareza, onde o nosso “tanque emocional” está esvaziando.

Aprendemos a amar por espelhamento. Crescemos reproduzindo os códigos da nossa casa: a filha que observa o carinho expresso em uma refeição feita com zelo, ou o filho que assiste ao pai presentear a mãe. Contudo, perpetuar esses modelos sem reflexão pode gerar desencontros quando o parceiro fala um “dialeto” completamente diferente.

Outro dia, ouvi no escritório a história de uma colega cujo marido, antes de viajar a trabalho, deixou trinta refeições congeladas para que ela não se preocupasse com a rotina. O detalhe marcante não foi a praticidade do gesto, mas o fato de que cada embalagem trazia um bilhete manuscrito: “Eu te amo”. Independentemente de qual seja a sua linguagem primária, é impossível não se sentir plenamente visto e amado diante de um cuidado tão deliberado.

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Superada a ilusão inicial da paixão — que a ciência estima durar cerca de dois anos —, a convivência passa a esbarrar na banalidade do cotidiano: a toalha molhada em cima da cama, os sapatos fora do lugar, as pequenas imperfeições. Para atravessar essa transição sem desgastar o vínculo, o especialista Gary Chapman sugere uma prática simples: uma checagem diária em que o casal avalia, de um a dez, o nível do seu reservatório emocional e pergunta o que pode fazer pelo outro naquele dia. Afinal, o amor maduro não é um sentimento passivo que simplesmente acontece; é uma escolha consciente que se renova diariamente.

É aqui que o circuito se fecha e voltamos à Geração Z. Se o afeto real exige presença, coragem e a vulnerabilidade de se expor ao outro, a tentação de se refugiar atrás da proteção de uma tela cobra um preço alto. Ao evitar a dor da rejeição, corre-se o risco de renunciar também à única experiência capaz de dar sentido à caminhada: a arte humana de amar e ser amado.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Maria Manuela Abrunhosa de Carvalho é portuguesa, tem formação em Línguas e Literatura Modernas (Português/Francês), foi professora e residiu em São Paulo, onde se certificou como Coach até voltar para Portugal. Hoje reside em Felgueiras, próxima à cidade do Porto. Descobriu em sua jornada que seu propósito seria ajudar casais a viverem relacionamentos saudáveis e prósperos. É coautora da obra ”Tempo de Se Amar” e idealizadora do Evento Internacional Love Summit; também atua como matchmaker, unindo indivíduos que buscam um parceiro ideal; é mentora e treinadora comportamental do método Wiser.
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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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